JOVENS SEM RELIGIÃO, POR QUÊ?
Desvinculação religiosa entre os jovens é maior
do que a adesão ao pentecostalismo
Entrevista
com Silvia Fernandes
Doutora em Ciências Sociais e pesquisadora
do Centro de Estatísticas Religiosas e Investigação Social – Ceris
Patricia
Fachin
A faixa etária em que há mais pessoas sem religião no
Brasil,
proporcionalmente falando, é exatamente a que
compreende
os 15 aos 29 anos de idade
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SILVIA FERNANDES |
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, a socióloga explica que “o jovem sem
religião, assim como o adulto sem religião, em geral possui o que temos chamado
de religiosidade própria. Isso significa que sua subjetividade pode estar
pautada em crenças de diferentes tradições religiosas cristãs ou não”. Silvia
explica que entre os fatores que têm contribuído para esse fenômeno estão
“desde contestações a normas e condutas institucionais, até o desencanto ou
decepção com o universo significativo religioso expresso nas imagens de sagrado
que possuíam”.
Silvia Fernandes tem estudado particularmente jovens que vivem na
Baixada Fluminense do Rio de Janeiro e na região metropolitana e frisa que “a desvinculação ou desinstitucionalização
religiosa entre os jovens de 15 a 29 anos é maior do que a adesão ao
pentecostalismo e isso é muito interessante, especialmente porque sempre se
compreendeu que o pentecostalismo nas periferias urbanas seria a alternativa
mais plausível, graças a sua oferta pragmática de cura e prosperidade”.
Esses dados demonstram, explica, que, “ao menos entre a juventude, essa tese
não se sustenta mais, uma vez que é exatamente nas periferias e franjas
metropolitanas que os sem-religião estão concentrados e, no caso dos jovens de
municípios que estamos investigando, superam a adesão ao pentecostalismo.
Ateísmo e agnosticismo são posições incipientes em termos numéricos, mas que
merecem estudo por estarem em ritmo ascendente”.
Silvia Fernandes foi pesquisadora do Centro de Estatísticas Religiosas e Investigação
Social – Ceris durante muitos anos. Atualmente, é professora da
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ. Graduada em Ciências
Sociais pela Universidade Federal Fluminense, é mestra e doutora em Ciências
Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ.
Dentre outros
livros, é autora de Jovens religiosos e o catolicismo – escolhas, desafios e subjetividades
(Rio de Janeiro: Quartet/FAPERJ, 2010), Novas Formas de Crer – católicos,
evangélicos e sem-religião nas cidades (São Paulo: Promocat, 2009) e
organizadora de Mudança de religião no Brasil – desvendando sentidos
e motivações (São Paulo: Palavra e Prece, 2006).
Confira a
entrevista.
IHU On-Line: O que
significa falar em jovens sem religião? Os jovens que se autodeclaram sem
religião são ateus ou agnósticos ou têm alguma crença religiosa, sem estar
vinculada a alguma religião?
Silvia Fernandes: Nós podemos considerar
que cada uma dessas terminologias é constituída por vários tipos. O jovem sem
religião, assim como o adulto sem religião, em geral possui o que temos chamado
de "religiosidade própria".
Isso significa que sua subjetividade
pode estar pautada em crenças de diferentes tradições religiosas cristãs ou não.
É curioso notar que alguns que se denominam agnósticos podem acreditar em
"alma", por exemplo. Há aqueles que se declaram sem religião
simplesmente porque deixaram de frequentar os cultos ou ritos de sua religião. Na verdade, alguns deles oscilam entre a
autodeclaração "sem religião" e a de "evangélicos" ou
"católicos não praticantes".
Em nossa pesquisa,
temos visto que, em alguns casos, a
identidade "sem religião" pode ainda não estar totalmente consolidada
ou sedimentada, representando, portanto, um momento de transição. No caso
dos ateus e agnósticos ocorre algo semelhante. Há diversas modalidades de
ateísmo e agnosticismo juvenil, mas o
que temos visto é que, geralmente, ambas as identidades são decorrentes de
experiências que os jovens interpretam como negativas ou traumáticas em suas
vidas e que os levaram a abandonar a religião anterior ou as religiões
anteriores. Sim, porque vários deles passaram por várias religiões até
chegarem ao ateísmo, o que mostra que tanto a identidade de "sem
religião" quanto a de ateu ou agnóstico perfizeram-se processualmente ou
estão ainda em construção.
Em que consiste sua atual
pesquisa sobre jovens urbanos sem religião? Em que centros urbanos a pesquisa
está sendo desenvolvida?
Silvia Fernandes: Estamos pesquisando jovens sem religião, agnósticos e ateus residentes
no Rio de Janeiro e região metropolitana. O ponto de partida para encontrar
nossos informantes é a UFRRJ, em seu campus em Nova Iguaçu, onde sou
professora. A maioria deles reside em
municípios da Baixada Fluminense, mas há vários residentes no Rio. Em
geral, o informante sem religião, ateu ou agnóstico indica outros colegas ou
amigos de sua rede e nós vamos construindo a amostra por meio dessa técnica,
também conhecida como bola de neve.
Queremos compreender os processos de desinstitucionalização religiosa e
política levando em conta também o papel da família na constituição das
identidades religiosas juvenis, seus valores, visões de mundo, incluindo
sexualidade, política, humanidade. É importante
identificar os diferentes fatores sociais e subjetivos que orientam as escolhas
dos jovens quando o assunto é religião e política, por exemplo, e tentar compreender se a trajetória dos pais
e familiares tem algum peso em suas escolhas, inclusive no que diz respeito ao
abandono das instituições religiosas.
Sob uma
perspectiva mais macro, a pesquisa quer explicar um dado censitário importante:
entre os jovens de 15 a 29 anos - faixa
etária de nosso estudo - o índice dos que se declaram sem religião (10%) é
superior ao da população brasileira (8%), e no Rio de Janeiro o índice é de
quase 15%, superando em 7 pontos percentuais o índice nacional. A faixa
etária em que há mais pessoas sem religião no Brasil, proporcionalmente
falando, é exatamente a que compreende os 15 aos 29 anos de idade.
Por quais razões os jovens
têm optado por serem ateus ou agnósticos?
Silvia Fernandes: Até o momento, o rol de
motivos inclui desde contestações a
normas e condutas institucionais até o desencanto
ou decepção com o universo significativo religioso expresso nas imagens de
sagrado que possuíam. Alguns relatos manifestam o desencanto por não terem
sido atendidos em seus pedidos em momentos dramáticos da vida. Em alguns casos
houve perdas familiares e, consequentemente, eles deixaram de acreditar na
eficácia da religião ou perderam a fé. Em outros, passaram a questionar determinados aspectos da instituição religiosa.
Um jovem sem
religião de vinte e dois anos nos conta que acredita em Deus e tentou
vincular-se a alguma religião em razão do apelo dos pais ou familiares. Sua
trajetória foi o kardecismo, catolicismo e Igrejas evangélicas e sua
maior crítica está relacionada a esse último segmento por considerar que há
"exploração comercial" por parte de muitas denominações. No
catolicismo ele questiona a devoção a santos e o que chamou de "clima
pesado de obrigação".
Uma perspectiva mais racionalista também é presente em alguns discursos
apontando leituras científicas e acesso ao conhecimento como um dos fatores que
os leva ao agnosticismo e ateísmo. É importante ressaltar
que até o momento nossos entrevistados são majoritariamente universitários.
Na maioria das
vezes eles passam por um processo de "conversão" ao estado de sem
religião, ao ateísmo e ao agnosticismo e essas diferentes identidades são
assumidas a partir de um dado momento nas trajetórias que, na maioria dos
casos, foram anteriormente marcadas pela dimensão religiosa. Até o momento da
pesquisa é possível afirmar o caráter
processual da formação da identidade juvenil sem vínculos institucionais.
É possível identificar qual
é o perfil dos jovens que se dizem ateus ou agnósticos e o daqueles que se
identificam com alguma religião?
Silvia Fernandes: Como a coleta de dados
está em andamento, ainda não é possível identificar se alguma variável terá
peso nessa distinção. Mas a classe social, por exemplo, não parece ser uma
delas, pois há ateus e agnósticos nas
camadas altas, médias e populares. Do mesmo modo, há jovens religiosos nos
diferentes estratos sociais. Em relação aos sem-religião, há um clima de
contestação de verdades e doutrinas que chama atenção em algumas narrativas e
isso nos faz perceber que, se por um lado, determinadas Igrejas, como a IURD
(Igreja Universal do Reino de Deus), conseguem montar um exército juvenil como,
por exemplo, os chamados "Gladiadores do Altar", por outro, a desvinculação ou desinstitucionalização
religiosa entre os jovens de 15 a 29 anos é maior do que a adesão ao
pentecostalismo e isso é muito interessante, especialmente porque sempre se
compreendeu que o pentecostalismo nas periferias urbanas seria a alternativa
mais plausível, graças a sua oferta pragmática de cura e prosperidade.
O que temos visto
é que, ao menos entre a juventude, essa tese não se sustenta mais, uma vez que é exatamente nas periferias e franjas
metropolitanas que os sem-religião estão concentrados e, no caso dos jovens de
municípios que estamos investigando, superam a adesão ao pentecostalismo.
Ateísmo e agnosticismo são posições incipientes em termos numéricos, mas que
merecem estudo por estarem em ritmo ascendente.
Como jovens de diferentes
estratos sociais se relacionam com a religião? A condição econômica ou social
dos jovens tem alguma influência na adesão religiosa? Nesse sentido, na relação
dos jovens com a religião, há distinções entre os jovens que vivem nas
periferias e os jovens que vivem em outras regiões?
Silvia Fernandes: De certo modo, essa
questão está respondida acima. Na verdade, nas
periferias os jovens têm nas Igrejas um espaço importante de lazer,
sociabilidade e encontro. Em geral, eles organizam os eventos e convocam os
amigos para atividades relacionadas à música, teatro, retiros e
"acampamentos". Esses últimos têm sido frequentes e reúnem jovens com
o objetivo de promover momentos de lazer e evangelização, tentando atrair novos
adeptos ao catolicismo ao mesmo tempo em que visam fortalecer a adesão. É importante dizer, contudo, que a presença
de jovens nas Igrejas é escassa, seja no catolicismo ou no pentecostalismo.
O alto número de templos pentecostais e neopentecostais não tem relação com
possíveis demandas religiosas dos jovens, mas com o empreendedorismo de
pastores e pastoras que têm inovado na expressão da cultura brasileira,
trazendo ritmos e discursos facilmente compreensíveis, capazes de atrair mais
adultos e idosos do que a juventude.
Então, quando se analisa o pertencimento juvenil
às Igrejas em municípios periféricos, o número relativo é baixo. Por
exemplo, de acordo com o censo 2010, em alguns municípios da Baixada
Fluminense, como Nova Iguaçu, na faixa etária dos 20-24 anos havia 18.781
jovens católicos, 12.624 pentecostais e 18.252 sem religião. Essa tendência
aparece também no Rio e em outros municípios da região metropolitana.
Diferentemente do que se poderia pensar em termos de atração da juventude para
o pentecostalismo nas periferias, a
desinstitucionalização religiosa tem se apresentado como um fenômeno mais
frequente e ainda pouco estudado, desafiando tanto o catolicismo quanto o
pentecostalismo. Temos, basicamente, neste segmento etário, católicos e
sem-religião liderando o ranking no que se refere às escolhas - ou não escolhas
- religiosas institucionalizadas. Nesse caso, estou me referindo aos números
relacionados apenas às Igrejas pentecostais, e não a todo o universo
evangélico. Se consideradas as tradições
protestantes em geral, a adesão juvenil às Igrejas evangélicas supera a da Igreja
Católica na região e os sem-religião estão em maior número do que os jovens
pentecostais na faixa dos 15 aos 29 anos.
Em estudos
anteriores que realizamos tanto nas paróquias católicas quanto nas Igrejas
evangélicas, os líderes - padres e pastores - declaravam ser difícil não apenas
atrair, mas também trabalhar com a juventude. Parte dessa dificuldade está relacionada com a incapacidade de
determinadas denominações em compreender os interesses juvenis e as mudanças no
desenho de sua religiosidade. Um mosaico que aproxima cultura e religião de
modo muito estreito ainda soa estranho a setores da Igreja Católica, por exemplo, que
é menos propositiva e mais normativa.
Diante disso, qual
seria a equação posta? Se por um lado as Igrejas funcionam como espaços de
sociabilidade juvenil nas periferias urbanas para aqueles que já participam,
por outro, os jovens que não possuem religião nesses mesmos ambientes não
parecem atraídos pelas atividades oferecidas pelas instituições religiosas.
Desse modo, ainda que as visitem como espaços de lazer e encontro, nelas não
permanecem mantendo a dinâmica da circulação e trânsito religioso que pode
levar ao ateísmo e agnosticismo. Disso resulta que a visita às Igrejas em razão do convite dos amigos não é fator
determinante para que estabeleçam vínculos mais sólidos com a religião, e este
é um dado muito importante. A identidade "sem religião" é mais
frequente nesses ambientes, sugerindo um novo modo de expressar a própria
religiosidade, e esse modo balança as formas tradicionais de participação e
vínculo.
Há, contudo, que
se fazer distinções importantes. O
catolicismo tem atraído essencialmente jovens de orientação carismática
(independentemente do perfil socioeconômico), o que significa dizer que eles são mais participativos; mais assíduos
e fortemente mobilizados para a música, celebrações mais efusivas, teatro e
outras atividades que imprimem traços do religioso em atividades
consideradas seculares no ambiente juvenil. As bandas e grupos de música de
católicos confundem-se facilmente com as bandas evangélicas e perde força a liturgia tradicional entre
uma parcela da juventude, bem como os modelos catequéticos que incluem os ritos
de transição (catequese, grupo de jovens; preparação para determinados
sacramentos etc.) não atingem o efeito de longa duração. Isso já foi possível
verificar por ocasião da Jornada Mundial da Juventude no Brasil, no ano de
2013, em que os grupos católicos de orientação carismática dominaram a cena com
sua devoção ao chamado "terço da misericórdia" e suas bandas com acento
no estilo gospel; suas canções cujas letras são marcadas pelas palavras
"espírito santo", "glória" e "aleluia",
aproximando as linguagens católica e neopentecostal.
Que tipos de religiões têm
tido mais aceitação entre os jovens? Por quê?
Silvia Fernandes: Em termos quantitativos os segmentos juvenis seguem a tendência
nacional: católicos, evangélicos pentecostais e sem religião. Mas, em termos qualitativos, observa-se simpatia
pelo espiritismo, principalmente entre os jovens adultos de 24-29 anos.
Provavelmente em razão do avanço do movimento de ação afirmativa, há ainda muitos jovens simpatizantes das
religiões afro-brasileiras, especialmente no ambiente universitário que
temos pesquisado. Espiritualidades difusas e diversas integrando práticas de
autoconhecimento, consciência ambiental e perspectivas holistas também atraem
jovens, particularmente os de camadas médias.
Alguns têm avaliado que uma
parte considerável dos jovens católicos brasileiros têm assumido uma postura
mais tradicional em relação à religião e às doutrinas da Igreja. Tem percebido
esse tipo de postura? Como compreende esse movimento?
Silvia Fernandes: Bem, falar de
"jovens católicos brasileiros" torna obrigatória a relativização
desse universo definitivamente não homogêneo. Precisamos estar atentos para não enquadrar a imensa diversidade que
constitui o catolicismo em apenas duas vertentes que seriam os conservadores e
os progressistas, embora você tenha usado o termo "tradicional"
em lugar de "conservador" na formulação de sua questão. Na verdade, um mesmo jovem pode assumir
posições mais conservadoras - no sentido de manutenção de uma norma ou doutrina
- e estar inserido numa lógica modernizante quanto à própria sexualidade;
ou relativizar o rito romano tradicional e implementar músicas não litúrgicas
nas missas; ou ser contrário ao aborto e
favorável ao uso de preservativos, tensionando posições oficiais da Igreja
Católica. Observamos essa disposição em vários jovens brasileiros católicos que
vivem nos Estados Unidos, mas no Brasil também é comum. Muitos que são tidos como mantenedores da tradição mostram-se mais
liberais quando o assunto é sexo antes do casamento, por exemplo. Todas as pesquisas
de opinião com jovens católicos, inclusive participantes de paróquias, como a
que realizei na Baixada Fluminense - mostram que eles são mais permissivos do que os evangélicos quando o assunto é
sexualidade.
Por isso, nós que
pesquisamos a relação entre juventude e religião, catolicismo, pentecostalismo
e juventude, precisamos sofisticar um pouco mais as categorias que temos usado
para definir os jovens católicos ou de outras correntes cristãs. Mas, eu diria,
não puramente em um esforço teórico, mas, sobretudo, por meio de observação e
escuta. Tenho defendido a emergência de uma sociologia compreensiva nos estudos
da relação entre juventude e religião, especialmente para problematizarmos
determinadas categorias que vimos usando e que na atualidade já não nos ajudam
a entender as mudanças e as diferentes orientações juvenis muitas vezes no
interior de uma mesma corrente do próprio catolicismo. É importante investir cada vez mais em estudos que não apenas nos
mostrem o relevante quadro geral de pertencimento religioso juvenil, como o
censo, mas que nos permitam explorar as visões de mundo dos jovens, ouvindo
suas próprias narrativas, acompanhando suas práticas e conexões no universo
virtual e não virtual, nas redes de interações que estabelecem e no tipo de
produto cultural ou material que consomem e produzem.
Outro fator
importante que pode ajudar a explicar a orientação atual de boa parte dos
jovens católicos que atuam nas Igrejas é que há uma geração que não conheceu outro modelo de Igreja a não ser o que
se apresenta pelas mãos da Renovação carismática, seja com suas comunidades de
vida e aliança, seja por meio das bandas musicais. A emergência de
movimentos de orientação carismática favoreceu e estimulou grupos juvenis que
preservam a doutrina e enfatizam a identidade católica enquanto subtraem a
visibilidade de outros grupos atuantes no catolicismo.
É claro que não
podemos, entretanto, entender a reorientação da adesão católica juvenil se não
admitirmos que a Igreja Católica no
Brasil vem se reorientando há algumas décadas, abrindo mais espaço para as
chamadas novas comunidades de orientação carismática e tendo dificuldades e
baixo incremento na renovação de lideranças com perfil mais voltado para a
justiça social e política como os que existiram em décadas anteriores por
meio das pastorais da juventude tradicionais. Isso se deu muito em função da
perplexidade institucional diante do rearranjo do campo religioso brasileiro
composto por diversas tradições religiosas e por um neopentecostalismo ágil,
diverso e desafiador para a hegemonia católica.
A modernização da sociedade brasileira
acontece de modo não linear, com um pluralismo
intenso e surpreendente em função da expansão cultural que se intensifica
pelas novas mídias e aparatos virtuais.
A juventude está nesse caldeirão e o compõe ora desejando
manter as tradições para assegurar suas escolhas sem se perder, ora reagindo às
tradições e buscando caminhos alternativos que as questionam.
A presença de
jovens católicos cujo perfil prima pela tradição inconteste me parece uma
reação à temperatura do caldeirão da modernidade que pode tornar seus modos de
estar no mundo um tanto quanto caóticos. Mas
não estamos em um jogo em que predomina a tradição inconteste. Isso é
perceptível em discursos de jovens católicos universitários.
Numa das suas pesquisas com
jovens pentecostais e católicos na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, a
senhora conclui que jovens pentecostais apresentam maior nível de escolaridade
do que os católicos. Como interpreta esses dados?
Silvia Fernandes: Nossas salas de aula na
UFRRJ - Instituto Multidisciplinar estão cheias de alunos de orientação
evangélica, de diferentes denominações. O que tenho observado é que eles tendem a ser bastante disciplinados e
assíduos, o que me faz lembrar das teses weberianas sobre a ética protestante e
o espírito do capitalismo, isto é, há uma espécie de consequência não
intencional no dado que você menciona. A
moralidade dos jovens evangélicos pode lhes ser aliada no incremento da
formação, mesmo se eles são, em sua maioria, originários de camadas
populares ou até mesmo em razão disso, pois toda conquista que lhes renda
inclusão social lhes é muito cara. À época da pesquisa muitos jovens
evangélicos adiavam a entrevista aos sábados por estarem estudando ou fazendo cursinhos.
Identificamos também estímulo dos
pastores para que os jovens procurassem estudar, trabalhar e conseguissem seu
lugar ao sol e isso, de certo modo, faz a diferença na vida deles.
A partir da sua pesquisa,
diria que a imagem de Deus e da própria religiosidade como visão de mundo tem
sido reformulada ou não entre as novas gerações?
Silvia Fernandes: Sim. Há reformulações nas representações sobre a
imagem de Deus, mas as duas imagens predominantes são a de um "pai que ama
e se preocupa com cada homem/mulher" e a ideia de que "Deus é
amor". Como vimos afirmando, esses são modos de crer que revelam um ethos majoritariamente cristão mesmo se
o imaginário religioso contempla perspectivas mais holistas como a ideia de que
Deus é "energia" ou a "natureza".
Pesquisar as
relações e conexões dos jovens com o universo religioso sempre nos abre
excelentes janelas de análise, porque revela também seus anseios e expectativas
frente a uma modernidade que avança com retrocessos, impactando diretamente a
relação deles com a sociedade e suas instituições.
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