Domingo de Ramos da Paixão do Senhor – Ano A – Homilia
Evangelho da Procissão: Mateus
21,1-11
Naquele
tempo:
1
Jesus e seus discípulos aproximaram-se de Jerusalém e chegaram a Betfagé, no
monte das Oliveiras. Então Jesus enviou dois discípulos,
2
dizendo-lhes: «Ide até o povoado que está ali na frente, e logo encontrareis
uma jumenta amarrada, e com ela um jumentinho. Desamarrai-a e trazei-os a mim!
3
Se alguém vos disser alguma coisa, direis: “O Senhor precisa deles, mas logo os
devolverá”.»
4
Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelo profeta:
5
«Dizei à filha de Sião: Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado num
jumento, num jumentinho, num potro de jumenta.»
6
Então os discípulos foram e fizeram como Jesus lhes havia mandado.
7
Trouxeram a jumenta e o jumentinho e puseram sobre eles suas vestes, e Jesus
montou.
8
A numerosa multidão estendeu suas vestes pelo caminho, enquanto outros cortavam
ramos das árvores, e os espalhavam pelo caminho.
9
As multidões que iam na frente de Jesus e os que o seguiam, gritavam: «Hosana
ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos
céus!».
10
Quando Jesus entrou em Jerusalém a cidade inteira se agitou, e diziam: «Quem é
este homem?»
11
E as multidões respondiam: «Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galiléia.»
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
NÃO DESCE DA CRUZ
Segundo o relato evangélico, aqueles que
passavam diante de Jesus crucificado zombavam dele e, rindo de seu sofrimento,
lhe faziam propostas sarcásticas: Se és
o Filho de Deus, «salva-te a ti mesmo»
e «desce da cruz».
Essa é
exatamente nossa reação diante do sofrimento: salvar a nós mesmos, pensar
somente em nosso bem-estar e, por conseguinte, evitar a
cruz, passamos a vida evitando tudo aquilo que pode nos fazer sofrer. Será Deus assim? Alguém que pensa em si
mesmo e em sua felicidade?
Jesus não responde à provocação dos que
zombam dele. Não pronuncia palavra alguma. Não é o momento de dar explicações. Sua resposta é o silêncio. Um silêncio
que é respeito àqueles que o desprezam, compreensão de sua cegueira e,
sobretudo, compaixão e amor.
Jesus somente rompe o silêncio para
dirigir-se a Deus com um grito penetrante: «Meu
Deus, meu Deus, por que me abandonaste?». Não lhe pede que o salve descendo-0 da cruz. Somente que não se
oculte, nem o abandone neste momento de morte e sofrimento extremo. E Deus, seu Pai, permanece em silêncio.
Somente escutando até o fundo esse silêncio
de Deus, descobrimos algo de seu mistério. Deus
não é um ser poderoso e triunfante, tranquilo e feliz, alheio ao sofrimento
humano, mas um Deus calado, impotente e humilhado, que sofre com nós a dor,
a escuridão e até a mesma morte.
Por isso, ao contemplar o crucificado, nossa
reação não é de ridicularizar ou desprezar, mas de oração confiante e
agradecida: «Não desce da cruz. Não nos
deixa sozinhos em nossa aflição. Para que nos serviria um Deus que não
conhecesse nossa cruz? Quem nos poderia entender?».
Em quem poderiam esperar os torturados de
tantos cárceres secretos? Onde poderiam colocar sua esperança tantas mulheres
humilhadas e violentadas sem defesa alguma? Ao que se agarrariam os doentes
crônicos e os moribundos? Quem poderia oferecer consolo às vítimas de tantas
guerras, terrorismos, fomes e misérias?
Não. Não desce
da cruz, pois se não lhe sentimos «crucificado» junto a nós, nos veremos ainda mais
«perdidos».
CARREGAR A CRUZ
O que nos faz
cristãos é seguir Jesus. Nada mais. Este seguimento de Jesus não é algo abstrato e
teórico. Significa seguir seus passos,
comprometermos com ele a «humanizar a
vida», e viver assim contribuindo para que, pouco a pouco, se vá tornando
realidade seu projeto de um mundo onde reine Deus e sua justiça.
Isto quer dizer que os seguidores de Jesus são chamados a:
* pôr verdade onde há mentira,
* a introduzir justiça onde há abusos e crueldade com
os mais fracos,
* a reclamar compaixão onde há indiferença e
passividade diante dos que sofrem.
E isto exige construir comunidades onde se
viva com o projeto de Jesus, com seu espírito e suas atitudes.
Seguir Jesus assim traz consigo, mais cedo ou
mais tarde, conflitos, problemas e sofrimento. Há de se estar disposto a arcar com as reações e resistências daqueles
que, por uma razão ou outra, não buscam um mundo mais humano, tal como o
quer esse Deus revelado em Jesus. Querem outra coisa.
Os evangelhos conservaram uma chamada realista de Jesus aos seus seguidores.
O escandaloso da imagem somente pode provir dele: «Se alguém quiser vir atrás de
mim... carregue sobre os ombros sua cruz e siga-me». Jesus não lhes
engana. Se o seguem de verdade, terão que compartilhar de seu destino.
Terminarão como ele. Essa será a melhor prova de que seu seguimento é fiel.
Seguir Jesus é
uma tarefa apaixonante: é difícil imaginar uma vida mais digna e nobre. Porém, tem um preço. Para seguir Jesus, é importante «fazer»:
* fazer um mundo mais justo e
mais humano;
* fazer uma Igreja mais fiel
a Jesus e mais coerente com o Evangelho.
No entanto, é tão importante ou mais «padecer»:
* padecer por um mundo mais
digno;
* padecer por uma Igreja mais
evangélica.
Ao final de sua vida, o teólogo Karl Rahner (jesuíta alemão: 1904-1984)
escreveu assim: «Creio que ser cristão é a tarefa mais humilde, a mais simples
e, às vezes, aquela pesada “carga leve” da qual fala o evangelho. Quando um
carrega com ela, ela carrega com um, e quanto mais se vive, tanto mais pesada e
mais leve se tornará. Ao final somente resta o mistério. Porém é o mistério de
Jesus».
Traduzido do
espanhol por Telmo José Amaral de
Figueiredo.
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