A esperança não morreu
O que aprendemos com a pandemia
Dom Odilo Pedro Scherer
Cardeal-Arcebispo de São Paulo (SP)
Temos
o privilégio de seguir avante e motivos para erguer os braços para o céu em
prece
Lamentamos os sofrimentos
dos que foram atingidos pelas doenças, sobretudo pela pandemia de covid-19, e
nos solidarizamos com eles. Fizemos
luto por tantos que perderam a batalha para o vírus e nos sensibilizamos com
seus familiares e pessoas próximas. Não desconhecemos as lutas e angústias
dos pobres, duramente atingidos e deixados na insegurança econômica. De
muitas formas, eles foram e ainda estão sendo socorridos.
Lamentamos
os desencontros ideológicos no debate sobre a pandemia e as maneiras de enfrentar
a enorme crise sanitária. Infelizmente, a dor e a angústia das pessoas foram
objeto de exploração emotiva e de enfrentamentos ideológicos estéreis, até com
ondas de agressividade.
Mas é preciso reconhecer que nem tudo foi ruim neste ano, que nos deixa muitas lições importantes. No distanciamento e até isolamento social, necessários para evitar a disseminação do vírus, buscamos novas formas de comunicação, de encontro e interação de pessoas, grupos e organizações. As possibilidades de comunicação virtual mostraram-se especialmente úteis e acabamos descobrindo que o virtual não precisa ser necessariamente frio ou irreal.
A insegurança econômica das pessoas, decorrente da perda do trabalho, ensinou-nos a olhar mais para o próximo, atentos aos seus sofrimentos e angústias. Muitas iniciativas solidárias foram promovidas e até a política econômica do governo teve de se curvar e ajustar para socorrer as necessidades básicas da população, aceitando que o melhor investimento é aquele que se volta para o cuidado das pessoas.
A pandemia obrigou-nos a ficar em casa, o que não estávamos mais acostumados a fazer. As famílias tiveram mais tempo para si e para conviver e muitos pais puderam estar ao lado dos filhos por tempo mais prolongado e redescobriram aspectos do convívio familiar relegados a um segundo plano pelo ritmo frenético da vida. E os doentes, mesmo não podendo ser visitados nos hospitais, como antes, tiveram novas formas de atenção e proximidade com eles.
Este tempo estranho nos
ajudou a valorizar mais as pessoas, de uma maneira que antes talvez não as
tivéssemos percebido. De repente, fez falta o velório com abraços,
histórias familiares e rezas. Não foi fácil despedir-se dos falecidos sem se
aproximar deles.
Percebemos
melhor nossa fragilidade e a fugacidade da vida e compreendemos a preciosidade
da vida, de cada instante.
Aprendemos a valorizar mais a saúde e os hábitos simples e cotidianos para cuidar dela. Os profissionais da saúde nunca foram tão valorizados e que admirados!
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Dom Odilo Scherer em visita à Comunidade da Missão Belém, no Haiti, América Central, em janeiro de 2013 - Ele é o autor deste artigo |
A procura de soluções para a superação da pandemia levou o mundo a uma corrida sem precedentes na pesquisa científica, para encontrar vacinas eficazes de combater o vírus insidioso. Graças a esse esforço, vamos fechando o ano mais próximos de soluções para essa crise sanitária. Grandes crises e desafios são, geralmente, oportunidades fecundas para a ciência e o desenvolvimento tecnológico.
Este tempo de pandemia levou
muitos a se questionarem sobre o sentido da vida e sobre os rumos dados a ela
no ritmo distraído do dia a dia.
Em
muitos cresceu o desejo de orientar a vida mais para a prática do bem e a busca
de Deus.
A consciência de nossa finitude ajuda a abandonar alienações ilusórias e arroubos de soberba e pretensão de onipotência e a buscar com mais humildade a verdade a respeito de nós mesmos e do mundo.
Creio que, apesar das marcas individualistas da cultura contemporânea, nos apercebemos melhor da nossa interdependência e do destino comum que nos envolve. Crescemos em solidariedade e fraternidade ao longo deste ano e estamos menos sós e mais abertos ao próximo, como indivíduos e como sociedades e povos. Caímos na conta de quanto ainda precisamos avançar na superação de preconceitos, injustiças estruturais e violências primitivas. E o Papa Francisco, com a sua carta encíclica Fratelli Tutti, indicou o caminho da fraternidade e da amizade social como solução para os muitos problemas que parecem insolúveis no convívio da grande família humana.
Se o ano não foi bom, certamente, ele nos deixou ensinamentos importantes e úteis para seguirmos avante, passo a passo, com esperança. Agora é não deixar cair no esquecimento as lições de vida que um ano de sofrimentos e angústias nos deixa. Se não fosse por outros motivos, já seria válido valorizar tanta dor e tanto sofrimento superados e honrar as vítimas que ficaram pelo caminho. Temos o privilégio de seguir avante e temos motivos para erguer os braços para o céu em prece. Deus não está longe de nós!
O Natal se aproxima: é um convite para celebrar a fraternidade universal, mesmo sem podermos reunir multidões para festejar.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Espaço Aberto – Sábado, 12 de dezembro de 2020 – Pág. A2 – Internet: clique aqui (acesso em: 12/12/2020).
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