Como agir, agora, na pandemia?
A vida (e a morte) vem em ondas
Daniel Martins de Barros
Psiquiatra e professor colaborador do Departamento e do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)
Não
cabe mais negar o problema, mas não é possível - ou preciso - impor medidas
extremamente radicais
Verdade é que conforme o número de casos foi diminuindo à medida em que as pessoas tomavam os devidos cuidados, essa rixa não estava mais na ordem do dia. Mas com esse aumento de infecções e mortes novamente ouve-se o discurso da indignação e condenação moral daqueles que baixaram demais a guarda e alimentaram essa nova onda, que pouco importa se vamos chamar de primeira, segunda, o que for.
Já falei antes e volto a
insistir: não vai adiantar. Não funcionou antes, não funcionará agora.
Se
quisermos enfrentar unidos esse novo coronavírus é preciso encontrar o que
temos em comum, não o que nos separa.
Agora temos essa chance no horizonte, conforme os extremos vão cedendo e se aproximando do bom senso. Não é otimismo, é constatação: na Europa, medidas menos restritivas do que no início do ano têm sido eficientes para derrubar as taxas de transmissão.
Na outra ponta, o negacionismo está tão fora da pauta que até o presidente Bolsonaro abandonou o discurso da gripezinha. Não cabe mais negar o problema, mas não é possível - ou preciso - impor medidas extremamente radicais.
O aumento de casos se deu
em grande parte por uma conjunção de dois fatores:
1º) As pessoas não aguentavam mais as medidas muito
restritivas e
2º) foram retomando as atividades, mas isso aconteceu justamente quando a percepção de risco estava mais baixa, levando-as a abrir mão dos cuidados essenciais. Numa pesquisa informal em minhas redes sociais, 90% das pessoas tinham conhecimento de eventos ferindo os protocolos de segurança.
Intervenções que buscam alterar o comportamento das pessoas falham por diversos motivos. Algumas simplesmente são inócuas.
Outras funcionam na hora, mas apresentam efeitos colaterais que anulam sua eficácia. E há ainda aquelas cujos efeitos negativos vêm no longo prazo: a gente até muda, mas com o tempo essas mudanças levam a reações mais prejudiciais do que antes. O famigerado efeito sanfona que acompanha todos os regimes vem daí: após perder peso por restringir demais a dieta, a própria restrição leva a pessoa a comer em excesso posteriormente. Comer com moderação é mais eficaz do que dietas rigorosas.
As quarentenas muito restritas, impedindo qualquer contato social, levaram a resultado semelhante. Um estudo deste ano mostrou que ansiamos por pessoas mais ou menos da mesma forma que ansiamos por comida: os cérebros de voluntários que foram impedidos de comer durante dez horas apresentaram respostas análogas aos cérebros de quem foi impedido de interagir socialmente pelo mesmo período. Assim como é mais fácil se manter na linha comendo com moderação, com pequenos esforços trazendo mais resultados que grandes sacrifícios, o mesmo raciocínio pode ser aplicado em nosso regime de contatos sociais.
Hoje sabemos que a maioria das pessoas contaminadas não passa a doença para outras, mas que a pandemia se expande em eventos onde há muita gente, pouca ventilação, contato próximo e baixo uso de máscaras.
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DANIEL MARTINS DE BARROS Psiquiatra autor deste artigo |
Às vezes, temos a sensação
que as pessoas não aguentam mais falar em pandemia, mas isso não é verdade.
Elas não aguentam mais ouvir ameaças, mas ainda estão sedentas por informação. Que aproveitemos esse novo aumento de casos para
ajudá-las a recalibrar sua percepção de risco e retomar os cuidados adequados e
sustentáveis no tempo. Só assim temos chance de acabar com esse vai e vem de
onda.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Saúde – Segunda-feira, 30 de novembro de 2020 – Pág. A13 – Internet: clique aqui (acesso em: 01/12/2020).
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