Sagrada Família de Jesus, Maria e José – Ano B – HOMILIA
Evangelho: Lucas 2,22-40
Para ouvir a narração deste Evangelho, clique sobre a imagem abaixo:
Teólogo espanhol
Uma família muito diferente
A liturgia da Igreja dedica o domingo seguinte ao dia de Natal, para propor aos cristãos a recordação da família de Jesus como o modelo cabal, e o melhor exemplo do que deve ser e como deve ser uma família perfeita. O que tem a sua lógica. Porque, se estamos recordando a Virgem Maria, São José e o Menino Jesus, que família mais exemplar podemos propor aos cristãos e, em geral, a qualquer sociedade onde a instituição familiar esteja vigente? O que – se todo este assunto é pensado a partir das convicções de um crente – resulta bastante razoável.
No entanto, tudo isso
traz consigo também um problema.
O problema consiste em que esta «idealização» da «Sagrada Família»
é isso: uma representação ideal.
Porém, esse ideal corresponde à realidade ou, melhor, corresponde ao que as pessoas de mentalidade mais conservadora quiseram que fosse o real?
Nos evangelhos da infância, já se relatam coisas que, se aconteceram tal como relatadas, foram fatos que transtornaram a convivência, se é que era uma família de seres humanos. Maria ficou grávida sem que seu esposo, José, o soubesse. Este homem esteve a ponto de abandonar sua mulher. Quando o menino nasceu, imediatamente, viram-se ameaçados até o ponto de terem de sair correndo como fugitivos para um país distante, no qual ficaram não se sabe quanto tempo.
Ademais, a fuga para o Egito costumava-se fazer, na Antiguidade, de modo que aquilo era o que se chamava [em grego] de anachóresis, que era a fuga para o deserto daqueles que eram perseguidos pelas autoridades. Eram autênticos «fugitivos». E, quando já viviam em Nazaré, aconteceram coisas que não se compreendem facilmente, por exemplo, o menino ficar em Jerusalém sem dizer nada a seus pais, algo que estes não compreenderam.
E o mais grave que aconteceu nessa família ficou patente e notório quando Jesus deixou sua casa e sua família. E se pôs a dizer e fazer coisas, que as autoridades religiosas viram que eram um perigo e um assunto grave. Por isso, seus parentes diziam que Jesus estava louco (Mc 3,21) e não creram nele (Jo 7,5), de forma que até o desprezaram quando ele voltou ao seu povo, em Nazaré (Mc 6,1-6) e até os compatriotas quiseram matá-lo (Lc 4,22-30).
A família é a instituição fundamental para que nós, seres
humanos, quando vimos a este mundo, nos integremos na sociedade e sejamos bons
cidadãos.
A família deve satisfazer a necessidade de carinho e de educação
nos valores fundamentais, sobretudo, os «Direitos Humanos».
Porém, não nos esqueçamos que a família é, em suas origens, uma «instituição econômica», que garante e sobre ela se legaliza o direito de propriedade. Daí, o perigo de que o interesse econômico se sobreponha aos demais interesses e valores.
Há de se cuidar dos valores da família. Porém esses valores se asseguram quando se cuida com esmero do carinho, do respeito, do bom trato, da bondade. Tendo em conta que estes valores não se asseguram quando a família se «politiza» até ser origem de conflitos e divisões.
Biblista espanhol
Jesus: sinal de contradição
Simeão é um personagem cativante. Nós o imaginamos quase sempre como um sacerdote idoso do Templo, mas nada disso é contado no texto. Simeão é um bom homem da cidade que guarda no coração a esperança de um dia ver «o conforto» de que tanto precisam. «Movido pelo Espírito de Deus», ele subiu ao Templo no momento em que Maria, José e seu menino Jesus estavam entrando.
O encontro é comovente. Simeão reconhece na criança, que aquele pobre casal de judeus devotos traz consigo, o Salvador que ele tem esperado por tantos anos. O homem está feliz. Num gesto ousado e maternal, «toma o filho nos braços» com muito amor e carinho. Bendiz a Deus e abençoa os pais. Sem dúvida, o evangelista o apresenta como modelo. É assim que devemos receber o Salvador.
Mas de repente ele se vira para Maria e seu rosto muda. Suas palavras não pressagiam nada reconfortante: «Uma espada transpassará sua alma». Esta criança em seus braços será um «sinal de contradição»: fonte de conflitos e confrontos. Jesus fará com que «alguns caiam e outros se levantem». Alguns o acolherão e a sua vida adquirirá uma nova dignidade: a sua existência será repleta de luz e esperança. Outros o rejeitarão e sua vida será desperdiçada. A rejeição de Jesus será sua ruína.
Ao tomar uma posição perante Jesus, «a atitude de muitos
corações se tornará clara». Ele revelará o que existe dentro das pessoas.
O acolhimento desta criança exige uma mudança profunda.
Jesus não vem para trazer tranquilidade, mas para gerar um doloroso
e conflituoso processo de conversão radical.
É sempre assim. Também hoje. Uma Igreja que leva a sério a sua conversão a Jesus Cristo nunca será um lugar de tranquilidade, mas de conflito. Um relacionamento mais vital com Jesus não é possível sem dar passos em direção a níveis mais elevados de verdade. E isso é sempre doloroso para todos.
Quanto mais nos aproximamos de Jesus, melhor veremos nossas inconsistências e desvios; o que é verdadeiro ou falso em nosso cristianismo; o que é pecado em nossos corações e nossas estruturas, em nossas vidas e nossas teologias.
Traduzido do espanhol por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
Fontes: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: Comentario al evangelio diario – 2020. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2019, páginas 455-456; Iglesia de Sopelana – José Antonio Pagola Homilias – Internet: clique aqui (acesso em: 26/12/2020).
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