E você, o que pensa?!
Morte e fome no governo do anticristão
Vinicius Torres Freire
Jornalista e Mestre em Administração Pública pela Universidade Harvard (EUA)
Estados
e Supremo Tribunal Federal improvisam governo da vacina, Congresso está em
pane, Bolsonaro avança
“O
mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo
aproximar-se, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as arrebata e dispersa,
porque ele é mercenário e não se importa com as ovelhas” (João 10,12-13).
Está no Evangelho de João, aquele que Jair Bolsonaro cita de modo blasfemo, como se fora um clichê mundano, sem entender o que quer dizer “a verdade vos libertará”, se é que leu o texto, que de qualquer modo não entendeu, dada a sua grosseria moral e intelectual.
No início da epidemia, esse homem não apenas abandonou os brasileiros a seu próprio azar, mas sabotou os esforços de quem se bateu para não entregar as pessoas ao lobo da praga. Outra vez agora, o que restou de decência e razão no país se organiza a fim de vacinar o povo, proteger as pessoas que trabalham nos hospitais e salvar da morte pelo menos os nossos avós, de início.
A maioria dos governadores, prefeitos e o Supremo Tribunal Federal tentam improvisar um governo nacional pelo menos no que diz respeito à emergência da saúde. A desgraça recrudesceu, as mortes outra vez passam das mil por dia. É possível que entre o Ano Novo e o que alguns cristãos chamam da festa de Reis, 6 de janeiro, pelo menos 200 mil brasileiros tenham morrido de Covid-19. Em São Paulo, as internações e mortes aumentaram na casa de 60% desde o início de novembro.
A iniciativa de criar ao
menos um governo para as vacinas é um arranjo precário, o que se tenta salvar
do incêndio. Para piorar, o Congresso ou pelo menos o arranjo que continha os
piores arreganhos de Bolsonaro está em pane. O Parlamento pode cair sob seu
controle ou influência maior na eleição de fevereiro para os comandos da Casa.
Uma perna do sistema de governo improvisado para limitar a destruição
bolsonarista está para ser cortada. Bolsonaro, pois, ganha força para tocar
seu projeto de destruição.
É o anticristão, em todos os sentidos da palavra, no aumentativo do substantivo e no adjetivo.
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Jair Bolsonaro em manifestação antidemocrática em Brasília, quando o Brasil perdia milhares e milhares de vidas para a Covid-19. Ele não escondia seu desejo de golpe! |
* desmoralizando a vacinação,
* disseminando dúvidas sem fundamento de modo a
alimentar o desvario que é sua razão de ser e poder. Faz assim com qualquer
instituição ou ideia racional.
* Tenta desmoralizar as eleições, imitando Donald Trump
feito um sabujo rábico.
* Nega e estimula a destruição do ambiente, até
agora o projeto mais bem-sucedido.
* Difunde a ideia de que o morticínio também pelas
armas de fogo é uma solução para o problema da violência.
Não são abstrações, são suas medidas ou propagandas mais recentes.
No submundo em que vive, tenta manipular com cada vez mais afinco os órgãos de polícia e fiscalização (como a Receita). Espalha agentes da Abin pelos ministérios. Depois de ser obrigado a parar com os comícios golpistas, toca seu projeto de destruição de modo mais insidioso.
Se o Congresso cair sob a influência de Bolsonaro, será pior [vencendo o seu candidato à presidente da Câmara dos Deputados, o deputado federal do PP por Alagoas Arthur Lira]. Mesmo a fantasia de “reformas” escorre pela vala suja. O capitão da extrema direita jamais se importou com isso. A fim de atacar João Doria, negou até privatização de um entreposto federal de alimentos, a Ceagesp.
Sem governo e com o Congresso em pane, não haverá socorro para os milhões que cairão em pobreza ainda maior com o fim dos auxílios. Não há plano de recuperação econômica em geral, nem mesmo para as contas do governo, “ajuste” que para os donos do dinheiro grosso justificou a eleição do capitão da extrema direita, o mercenário de João, que passeia pelo Brasil dizendo baixezas e mentiras com seu esgar demoníaco.
Fonte: Folha de S. Paulo – Mercado – Sexta-feira, 18 de dezembro de 2020 – Pág. A13 – Internet: clique aqui (acesso em: 18/12/2020).
Liberalismo de
destruição
Angela Alonso
Professora de Sociologia da USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
Moto
do presidente tem sido pôr abaixo tudo que o Estado brasileiro erigiu
O presidente é um legítimo
liberal em seu apreço à autonomia dos indivíduos como superior ao bem-estar
coletivo. Pode-se acusá-lo de muita coisa, nunca de inconsistência.
O individualismo egocêntrico, autorreferido, é uma constante em sua vida pública.
É liberal ao estilo hobbesiano, ao imaginar a sociedade como guerra de todos contra todos. Escapa, contudo, da solução de o Leviatã, a criação de um Estado que zele pelos cidadãos. Sua preferência é o permanente estado de natureza, uma guerra ininterrupta. Cada um que cuide de si.
Bolsonaro não é o liberal que constrói instituições, é um liberal da destruição. Seu moto tem sido pôr abaixo tudo o que o Estado brasileiro erigiu desde a redemocratização.
Trata de pôr abaixo a cidadania democrática. Dos direitos humanos, sempre escarneceu, o de minorias, ataca sistematicamente. Vê os direitos sociais como formas de estímulo à vagabundagem. O auxílio emergencial, que lhe insufla a popularidade, é obra do Congresso, sem sua adesão ou a do arquiliberal ministro da Economia.
O presidente é um demolidor de instituições. É certo que teve predecessores nelas próprias, nas políticas como nas jurídicas, que desde 2016, vêm produzindo interpretações tortas e meio envergonhadas das leis. Já o presidente o faz sem pejo. Desafia a Constituição, burla os outros Poderes, o Legislativo, o Supremo, os governadores de estado.
Seu liberalismo é o da ausência de Estado. Vem desmontando burocracias, órgãos, programas construídos e bem-sucedidos em vários governos. Paradigmática foi a longa vacância no ministério da Saúde, como o é a condução da pandemia.
Bolsonaro exclui a solidariedade de sua cesta de valores.
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ANGELA ALONSO - autora deste artigo |
É uma visão reacionária do mundo, mas nem por isso deixa de se conciliar com o liberalismo, na versão lockeana da sagração da propriedade. Liberais norte-americanos e brasileiros a usaram para defender a escravidão, afinal, o escravo era também uma commodity.
O liberalismo bolsonarista combate pela militarização dos cidadãos para que estejam aptos a proteger, com as próprias mãos, suas vidas e propriedades, donde o empenho em remover a taxação das armas.
É liberal também quando diz que cabe à iniciativa privada, não ao Estado, educar a nova geração. Aos pais competiria definir o que aos filhos convém saber ou ignorar, por exemplo, que a Terra é redonda.
Pode-se dizer que Bolsonaro não é liberal quando ataca a ciência, mas rigorosamente, o que defende é o mercado livre de ideias, no qual a opinião de pastor negacionista e cientista consagrado se equivalem. Cada um compre a sua.
É liberal quando transfere a cada indivíduo a decisão de se vacinar: “Devemos respeitar quem não queira tomar”.
Os antivacina contaminarão os
que, por doenças ou outras debilidades, estão impossibilitados de se imunizar.
O presidente é adepto da seleção natural, deixa perecerem os fracos. Liberal por omissão.
Fonte: Folha de S. Paulo – Poder / Colunas e Blogs – sexta-feira, 18 de dezembro de 2020 – Pág. A8 – Internet: clique aqui (acesso em: 18/12/2020).
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