Caindo na real...
“Ser vacinado não nos isenta de andar de máscara pelos próximos dois anos”
Aline Mazzo
Jornalista
Entrevista
especial com Margareth Dalcomo
Graduada pela Escola de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (1978) e doutora pela Unifesp (1999), pesquisou a tuberculose e criou o ambulatório do Centro de Referência Professor Hélio Fraga, da Fiocruz, o qual dirigiu de 2009 a 2012. É membro do Comitê Assessor em Tuberculose do Ministério da Saúde e de comissões da Boston Medical School, da Organização Mundial da Saúde e do Banco Mundial. Na pandemia de Covid-19, assessorou o Ministério da Saúde na gestão Luiz Henrique Mandetta.
Para
a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, país perdeu o “timing” na
organização da vacinação contra a Covid-19
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MARGARETH DALCOLMO |
Em entrevista à Folha, ela critica o obscurantismo do discurso oficial a respeito da gravidade da pandemia, destaca o trabalho dos pesquisadores e diz que é obrigação de toda a comunidade acadêmica vir a público para esclarecer as dúvidas da população, inclusive em relação às vacinas.
A pesquisadora ainda alerta que os cuidados como uso de máscara de proteção, distanciamento social e evitar locais fechados deverão permanecer pelos próximos dois anos, mesmo após a chegada da vacina. “São medidas civilizatórias.”
Eis a entrevista.
Muitos pesquisadores afirmam que o Brasil
está atrasado no plano de vacinação. Qual impacto que a demora nessa
organização da imunização terá sobre o controle da pandemia?
Margareth
Dalcolmo: Nós temos um atraso no “timing” das providências. Há
oito meses, assim que a epidemia eclodiu, as vacinas começaram a ser produzidas.
Isso é uma coisa inédita. Nunca se produziu tanto em tão pouco tempo. Foram
usadas plataformas de vacinas completamente novas.
O Brasil fez uma coisa
muito boa, que foi investir em um processo de transferência de tecnologia e de
nacionalização da vacina junto à
AstraZeneca através da Fiocruz, que é, sem dúvida, louvável.
Por outro lado, deixamos
de prestar atenção nas outras vacinas que estavam em produção no mundo. E, hoje, há vacinas que já estão sendo aprovadas e
nós não temos cronograma nem acordos de cooperação para sua compra.
Então, hoje, quando nós vemos
o nosso ministro adiantar que vai ter uma compra de 70 milhões de doses junto à
Pfizer, é estranho. Porque, até onde sabemos, o que temos assegurado são 8,5
milhões de doses.
Por outro lado, há a vacina da Sinovac, junto ao Instituto Butantan. As vacinas não podem ser para um estado só. Elas têm de ser incorporadas ao PNI [Programa Nacional de Imunização].
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INSTITUTO BUTANTAN - São Paulo: produção da Coronavac |
Estamos vivendo um momento de
grande paradoxo. Se por um lado o Brasil tem grande tradição, reconhecida
internacionalmente, de saber vacinar, pois o PNI é muito estruturado e
organizado, por outro temos a preocupação com a logística e a aquisição de
insumos. Haverá várias vacinas, e a logística é diferente para cada uma delas.
Já a questão dos insumos é
preocupante. Não porque não
consigamos comprar 300 mil seringas e agulhas — se a produção brasileira não
der conta, há condições de adquirir no mercado externo, mas o mundo inteiro
está atrás da mesma coisa, o que deve aumentar os custos. Isso poderia
ter sido tratado antes.
E há uma desigualdade evidente em relação às vacinas. O Canadá, por exemplo, já está com cinco doses de vacina para cada habitante, por exemplo. Eles vão doar as doses excedentes para o consórcio Covax Facility, que deve destiná-las aos países mais pobres — o que, certamente, não é o caso do Brasil.
A
sra. previu o janeiro mais triste da história. O que ainda é possível fazer
para evitar um desastre?
Dalcolmo: Estamos num momento epidemiológico muito grave, esse
recrudescimento que houve do mês de outubro para cá vai resultar realmente em
uma segunda onda no Brasil. Vamos ter um fim e um começo de ano muito
tristes no país, com uma segunda onda estabelecida.
A doença se rejuvenesceu. Temos visto muito mais jovens ficarem doentes. Os jovens se acham invulneráveis, se aglomeram, estão trazendo a doença para dentro de casa. Entendo que esteja todo mundo muito cansado. Mas é uma epidemia longa, grave, desigual, que desnudou a desigualdade social obscena do Brasil.
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Bares lotados na região do Leblon, no Rio de Janeiro: descuido e irresponsabilidade! |
Quando você vê a fila de
pessoas esperando um leito para serem operadas, escândalos havidos em hospitais
de campanha, corrupção em compras emergenciais, a gente se constrange muito.
E temo que se não resolvermos
essa questão de insumos de uma maneira harmônica, mesmo sendo de
responsabilidade dos municípios, isso vai dar margem a outro tipo de
irregularidade, para não dar outro nome.
Se somarmos o que tem
previsto de compra de insumo federal, estadual e municipal, ultrapassa os 300
milhões ao que o ministro está se referindo. Para quê? Nós somos 200 milhões de habitantes. Não vamos conseguir
vacinar todo mundo. Não há vacina para todo mundo.
Aliás, não haverá vacina para todo mundo em todo lugar do mundo, porque se nós somarmos tudo o que vai ser produzido, vamos ter aproximadamente 2,7 bilhões de doses em 2021. Nós somos quase 8 bilhões de habitantes no planeta. A disputa por doses também é muito desigual. Sabemos que os países ricos vêm na frente e compram.
Se o país tivesse se antecipado nesses
processos, seria possível ampliar a quantidade de vacinados em 2021?
Dalcolmo: Acho que sim, pelo menos em questão de prazos. O
que está previsto no cronograma do Ministério da Saúde é um período contínuo de
16 meses. Isso é muito tempo, porque precisaríamos ter uma taxa de
população vacinada no ano de 2021 perto de 60%, para alcançarmos a célebre
imunidade de rebanho, de que todo mundo fala, mas que é um termo que só se
aplica à vacinação.
Se nós tivéssemos nos adiantado na aquisição de doses e insumos, e tivéssemos investido pesadamente na logística da vacinação, poderíamos alcançar isso. Entendo que o Brasil é complexo, mas temos tradição e expertise em vacinação. O Brasil sabe vacinar.
Pesquisa Datafolha de dezembro mostra
que 22% dos brasileiros não pretendem se vacinar contra a Covid-19, e esse
índice chega a 50% se a vacina for chinesa. A que a sra. atribui esse
descrédito da vacina?
Dalcolmo: A duas coisas. Primeiro, a um discurso muito
equivocado por parte de algumas autoridades. Um discurso que é um
desserviço ao Brasil e à opinião pública, que desacredita as vacinas.
Segundo, à ignorância. Ignorância no
sentido de não saber. E é aí que entra o nosso papel de médicos, cientistas e
pesquisadores de alertar e informar a população.
As
pessoas têm de entender que tudo vem da China. Não é que a vacina da Coronavac
é chinesa. A vacina da AstraZeneca (Oxford), cuja fábrica foi visitada
recentemente pela Anvisa, fica na China.
O insumo farmacêutico
ativo, chamado de IFA, que nós vamos receber agora para produzir a
vacina, vem da China.
A China é o maior produtor do
mundo de matéria-prima da indústria farmacêutica e da indústria de
biotecnologia. Por isso é uma questão de alertar a população.
Vejo
pessoas que ingenuamente dizem que só querem tomar a vacina inglesa. A vacina
inglesa também vem da China.
Esse preconceito não é arraigado. É um preconceito ingênuo alimentado por um discurso oficial obscurantista.
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Doses da vacina Coronavac chegando no aeroporto de Guarulhos, SP |
Quanto influencia a população o presidente
Jair Bolsonaro declarar que não tomará a vacina?
Dalcolmo: É um discurso equivocado e obscurantista que só
vai ser quebrado na medida que nós, de maneira consistente e transparente, dissermos
a verdade às pessoas.
Participei de uma live na última semana com uma enquete sobre quem tomaria a vacina. No início da live, só 40% diziam sim. Após as explicações, viramos esse placar subir para quase 90%. Isso só com esclarecimentos.
Entre os que desejam se vacinar, a
expectativa é a de que a vida volte ao que era antes após receber as doses. Mas
a sra. já afirmou que teremos que manter alguns cuidados. Quais e por quê?
Dalcolmo: Vamos ter de manter os cuidados por muito tempo. Esse
vírus não vai desaparecer da nossa vida nunca mais. Nada foi tão pandêmico
quanto ele.
No Brasil, não há um
município que não tenha caso registrado. O vírus vai ficar endêmico.
Portanto, o fato de ser vacinado não nos isenta de andar de máscara pelos
próximos dois anos, por exemplo. De termos cuidado com ambientes fechados, de
solicitarmos testes negativos para embarcar em voos internacionais.
Quando alguém ingenuamente diz que não vai se vacinar, também não vai viajar. Nem vai matricular criança na escola. São medidas que não são, ao meu juízo, coercitivas. Eu vejo essas medidas como civilizatórias. Pelos próximos dois anos, os cuidados precisarão ser mantidos.
O Brasil é um dos países que acumulam mais
mortes por 100 mil habitantes, embora essa conta seja liderada por países
europeus. Por que fomos especialmente atingidos?
Dalcolmo: Nossa situação epidemiológica não é semelhante à dos
países europeus, mas sim dos Estados Unidos, onde morreram de maneira desigual
as pessoas. Sabemos que a letalidade está relacionada a determinados fatores
de risco. Morreram mais pessoas idosas, obesas. Mas a letalidade foi
muito alta porque a epidemia pegou o Brasil desprevenido.
A
nossa maior arma, a mais potente de todas, que é o SUS, mesmo tendo
entrado tão combalido nessa briga foi quem realmente resolveu.
Também erramos muito no
distanciamento social. A falta de harmonia entre o discurso da comunidade
científica e o discurso oficial foi enorme. Um dizendo para usar máscara e
fazer distanciamento social e o outro dizendo que era uma gripe. Isso tudo
prejudicou muito e contribuiu para o aumento da mortalidade.
A letalidade, que é a morte por casos confirmados, foi alta porque continuamos a pagar o preço de testarmos muito pouco. O Brasil errou nisso desde o início. Nós testamos pouquíssimo, o que é um absurdo. A condução, de modo geral, deixou muito a desejar.
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A ignorância faz a festa do coronavírus em nosso país: o preço é a morte! |
As vacinas aprovadas, ou que estão em vias de
aprovação, são capazes de combater a variante do novo coronavírus identificada
no Reino Unido?
Dalcolmo: Essas mutações que foram detectadas no Reino Unido
estão entre muitas outras que já houve no Sars-CoV-2. Já há mais de 700
mutações verificadas, nenhuma delas modificou a taxa de patogenicidade, ou
seja, a capacidade de causar doenças mais graves pela Covid-19.
Essas variantes detectadas
no Reino Unido, na verdade são três, todas elas já haviam sido detectadas antes, mas é a primeira vez que elas são detectadas
conjuntamente no genoma.
Isso não causou aumento de
casos graves, mas um aumento da transmissão.
Essa transmissão, na verdade,
é muito mais atribuível às aberturas do que à própria cepa mutada. E a mesma
coisa pode acontecer no Brasil.
De
novo, chamo a atenção para que as medidas de contenção e de cuidado nesse fim
de ano se imponham.
Mas essa mutação não implica nenhuma modificação quanto à eficácia das vacinas, uma vez que as mutações observadas não têm a ver com a patogenicidade do Sars-CoV-2.
Fonte: Folha de S. Paulo – Entrevista da 2ª – Segunda-feira, 28 de dezembro de 2020 – Pág. A10 – Internet: clique aqui (acesso em: 29/12/2020).
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