Algo complicado!
Dizer adeus aos pais
Vera Iaconelli
Doutora em psicologia pela USP – Diretora do Instituto Gerar, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e “Criar Filhos no Século XXI”
O
que fazemos com a perda de nossos pais e mães define nossas vidas
O intervalo entre o que eles nos deram e nossos anseios é o espaço que usamos para justificar a melancolia pelo que acreditamos que poderíamos ter sido, mas não fomos. Se eles tivessem ficado mais em casa, se tivessem mantido o casamento ou se separado, se nos escutassem mais ou nos incentivassem mais, ou gostado um pouco mais de nós, hoje seríamos bem sucedidos e felizes.
Com quem comparamos nossos pais, cada vez que tentamos justificar nossas frustrações? Com os pais dos outros — idealizados por não serem os nossos —, mas, acima de tudo, com nossos próprios pais durante nossa infância.
O mais encantador ao ver uma criança brincando é perceber sua total entrega ao presente, ao aqui e agora. Observando-a entretida, veremos que, de tempos em tempos, ela se volta à procura do olhar de seus cuidadores. Afinal, não custa nada checar se o céu continua sobre nossas cabeças. E os pais costumam estar ali, mais ou menos atentos, mais ou menos de saco cheio.
Quando uma onda chega, alguém vem resgatá-la, no mais das vezes. Um ser gigante, que com apenas uma mão a salvará do afogamento ou, no mínimo, do caldo. De sorte que a criança mal chega a crer verdadeiramente no perigo, pois a garantia e a responsabilidade estão nas mãos do outro.
Mal sabem elas como temem e sofrem os adultos que por elas zelam, fazendo cara de que tudo está sob controle. Nunca é demais reforçar a importância dessa sensação de segurança para que haja o que chamamos de infância —condição que não existe para grande parte das crianças brasileiras, apesar dos esforços hercúleos de seus pais.
Já na adolescência, entra em jogo a necessidade de enfrentar desafios e perigos, embora não acreditemos totalmente nos riscos envolvidos. Fase na qual se arrisca muito tentando descobrir, afinal, de quem são os superpoderes.
Reconhecer que os pais só fazem o possível nos remete ao desamparo humano — que, insisto, não deveria ser perceptível no comecinho da vida. Para driblar a insuportabilidade da vida damos um jeito de deslocar os superpoderes para um deus, cujas características podem ser mais ou menos toscas.
Há versões do divino mais sutis e éticas e outras nas quais se renova votos em um homem branco onipotente arbitrando cada passo de nossas vidas, distribuindo privilégios para os filhos bajuladores e dando cascudos nos outros. Que não se assanhem os ateus: Freud já apontava, no belíssimo “O Futuro de uma Ilusão”, as fantasias onipotentes de garantia e verdade absoluta que podem se esconder nos cientistas.
Foi Freud também quem afirmou que a morte de um pai é das maiores perdas vividas, só superada pelo impensável luto de um filho. Está aí a obra prima “A Interpretação dos Sonhos”, escrita sobre o abalo da perda de seu pai, para testemunhar o destino que o criador da psicanálise deu para seu sofrimento.
Continua sendo surpreendente que a perda previsível e necessária dos pais possa ser a derrocada psíquica de muitos adultos, eles mesmos já pais de outros adultos. O reconhecimento da fragilidade dos pais —velhos, doentes ou mortos— leva muitos a se reinventarem. Alguns menos honestos consigo mesmos saem à caça de substitutos dos pais onipotentes da infância para colocar em seu lugar. Não raro, pagamos coletivamente o preço da fantasia de que haveria entre nós messias.
Fonte: Folha de S. Paulo – Saúde / Colunas e Blogs – Terça-feira, 15 de dezembro de 2020 – Pág. B3 – Internet: clique aqui (acesso em: 15/12/2020).
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