Um crime contra todos nós!
Propor vacinação só em março e alcançar no máximo 1/3 da população em 2021 é um crime
Gonzalo Vecina
Médico, fundador e ex-presidente da ANVISA. Ex-secretário municipal da saúde de São Paulo e professor do mestrado profissional da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EAESP/FGV) e da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP)
Nossos
governantes não querem assumir o papel para o qual foram escolhidos
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Foto: Alex Silva / Estadão |
Tempos de realismo fantástico. Estamos vivendo uma pandemia provocada por um vírus letal que veio da destruição ambiental provocada pelo homem na Ásia. Uma parte das pessoas que se infectam morre.
A mentira oficial
Não há remédios para tratar a doença. Apesar de o Secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde ter declarado que deve ser iniciado o tratamento o mais precocemente possível. Com os medicamentos que todos sabemos quais são. E que está CIENTIFICAMENTE comprovado que o isolamento social não funciona. Faltou declarar que, de acordo com seu chefe, as máscaras devem ser evitadas, pois os vírus gostam de pessoas mascaradas.
Não interessa se é uma
nova onda ou não, estamos vivendo um recrudescimento da epidemia. O número de casos está aumentando no País. Hospitais
estão ficando cheios e, em algumas cidades, é preciso escolher quem vai viver,
quem não será atendido...E por quê? Porque estamos na rua e nos encontramos com
o vírus. Porque nossos governantes não querem assumir o papel para o qual
foram escolhidos: governar, liderar, propor alternativas. Porque não queriam
ter prejuízos eleitorais e não quiseram voltar atrás em flexibilizações
irresponsáveis.
E um dia após as eleições propuseram o que já deveriam ter feito há quinze dias!
O que está ocorrendo não é
surpresa. Não é fruto dos cientistas mal intencionados. A epidemia se
alimenta de encontros e enquanto o vírus circular e existir pessoas que não
tiveram a doença ou não foram vacinadas, teremos casos e mortes.
Os
casos e as mortes poderiam ser evitados pela ação dos governantes que estão
falhando e, em uma democracia, quando governos falham, devem ser chamados à
responsabilidade e cobrados.
Isso ainda não ocorreu. A
justiça não seguiu seu curso na identificação dos responsáveis pelas mortes e
pelo sofrimento.
O plano proposto de
vacinação que parte da existência de uma única vacina e da ficção do Covax
Facility [Acesso Global de
Vacinas COVID-19] é de um cartorialismo criminoso. Ignorar que somente
no País tivemos quatro vacinas em testes e provavelmente exitosas e que
deveriam ter merecido um esforço de negociação do governo é inaceitável.
Propor
que iniciemos a vacinação em março e que no máximo alcancemos um terço da
população em 2021 significa não realizar nenhum mínimo esforço de tentar
oferecer alternativas à população. É uma pública capitulação. É um crime.
Mesmo em Macondo. Cadê as luzes?
Nota:
* MACONDO é uma aldeia fictícia de vinte casas de barro e taquara onde se passa toda a história da família Buendía, narrada no livro Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Longe de ser pacífica, a vila é um efervescente lugar de conflitos sociais, guerras, greves e rebeliões. Ainda assim, a mágica do local, a hospitalidade do povo, as festas na casa da família Buendía podem levar o leitor à sensação de que o vilarejo é pacífico.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Saúde – Quinta-feira, 3 de dezembro de 2020 – Pág. A12 – Internet: clique aqui (acesso em: 03/12/2020).
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