Ouçamos quem entende!
Nosso combate à Covid-19 é insano
Atila Iamarino
Doutor em Ciências pela USP, fez pesquisa na Universidade de Yale (Estados Unidos), é divulgador científico no YouTube em seu canal pessoal e no Nerdologia
Repetimos
a mesma estratégia que falhou esperando resultados diferentes
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ATILA IAMARINO |
Agora que campanhas eleitorais estão fora do caminho, já se pode reconhecer: os casos voltaram a aumentar no Brasil. A Europa teve uma situação bastante controlada durante o verão e agora vê um aumento de casos no inverno que faz países pararem. Nós estamos seguindo um caminho mais parecido com o dos Estados Unidos, que tiveram muitos casos no começo do ano e durante o verão.
Enquanto escrevo, estados como Amazonas e Espírito Santo estão com ocupação crítica de leitos de UTI para Covid-19. Vitória, Rio de janeiro, Curitiba e Macapá passaram de 90% de ocupação. E a média diária de óbitos reverteu a tendência de queda e voltou a subir.
É hora de usarmos o
conhecimento construído para reforçar:
* uso de máscaras,
* distanciamento e
* intervir nas aglomerações que mais favorecem a alta
de casos, como locais fechados com pouca circulação de ar.
Só que não. O Ministério da Saúde, que deveria coordenar a ação do país contra a maior pandemia do século, segue com o jogo de empurra para estados e municípios. E volta a promover “tratamento precoce”.
Ministério da Saúde inoperante
Não existe tratamento precoce comprovado para Covid-19 com medicamentos. A melhor intervenção precoce que temos é o uso de máscaras e o distanciamento, que realmente reduz em a quantidade de vírus com que entramos em contato, diminui o contágio e as chances de desenvolver Covid-19 grave — tudo parte da recomendação que o Ministério da Saúde fez uma vez no Twitter, aparentemente por engano, já que apagou a publicação em seguida.
O vermífugo mais promissor para combater a Covid parece ser o voto, mas sua ação é bem mais lenta.
Um povo que se informa pelo WhatsApp
Parece que despregamos da realidade do conhecimento científico e estamos presos em um loop [= temporal onde nosso plano de combate inexistente não avança. Na ausência de uma campanha federal, o Ministério do WhatsApp continua sendo uma das maiores fontes de informação sobre Covid das pessoas, o que faz do Brasil o último país no mundo onde ainda se discute cloroquina, ivermectina e azitromicina como tratamento.
Na hora “h” nem Trump usou cloroquina
Nem Trump, que promoveu a cloroquina e cativou brasileiros, usou o remédio para malária quando teve Covid — pelo contrário, apelou para anticorpos produzidos em laboratório usando tecnologia de ponta e dispensou a UTI.
Falando em UTIs, a demanda por elas voltou a crescer. Em novembro, as UTIs para pacientes com Covid-19 de Manaus passaram de 85% de ocupação. Novamente. Essa é a cidade onde, segundo estudos de prevalência de anticorpos contra o vírus, estimou-se que mais da metade da população tenha contraído o novo coronavírus.
Se uma região tão atingida pela doença ainda tem casos aumentando e corre risco de ficar sem leitos, o que alimenta a imaginação de quem defende que o Brasil tem imunidade coletiva? Se nem a região mais atingida do país está livre da doença, quem estaria?
O melhor mecanismo para despertar imunidade protetora são vacinas, que estão dando resultados fantásticos — algumas passaram de 90% de eficácia. Mas a salvação que podem trazer demora para ser distribuída e depende das pessoas estarem vivas para serem vacinadas. Melhor controlarmos os casos até podermos contar com ela. E para isso precisamos seguir evidências científicas, não correntes de WhatsApp.
Fonte: Folha de S. Paulo – Saúde – Quarta-feira, 2 de dezembro de 2020 – Pág. B3 – Internet: clique aqui (acesso em: 02/12/2020).
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