COMO CHEGAMOS A ISSO ? ? ?
«Estejam preparados para viver com as consequências dessa
escolha; se o pior acontecer, vocês não vão poder dizer que não sabiam»
Entrevista
com Rodrigo Guimarães Nunes
Doutor em Filosofia pelo Goldsmiths College,
Universidade de Londres, e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro (PUC-Rio).
Atualmente é professor visitante na Brown
University, Estados Unidos, período em que trabalha no seu novo livro, Beyond the Horizontal. Rethinking the Question of Organisation [tradução livre: Além
do horizontal. Repensando
a questão da organização], que será publicado em 2019 pela
editora inglesa Verso.
Vitor Necchi
“Um desastre em câmera lenta”
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RODRIGO GUIMARÃES NUNES |
Rodrigo
Nunes atualmente é professor visitante
em uma universidade nos Estados Unidos. À distância, revela como vê o
processo político em curso no Brasil: “Um
desastre em câmera lenta”. Avalia que, desde quando foram definidas as
candidaturas, estava claro que existia a possibilidade de vitória da extrema
direita: “Os sinais estavam todos aí, e a cada nova rodada dava para ver a
probabilidade crescer”.
Para
compreender a situação atual, Nunes
afirma que “é tremenda” a responsabilidade da direita mais moderada e de
setores como a mídia e o Judiciário. A origem mais
recente do bolsonarismo começa no primeiro governo Lula. “No auge do
pacto lulista, quando o boom das commodities serviu para criar uma situação em
que mais ricos e mais pobres ganhavam,
a oposição não tinha como dizer que as coisas iam mal; todo mundo estava
vivendo melhor que no governo FHC.” Naquele
momento, restou à oposição uma única linha de ataque: “requentar as paranoias
anticomunistas da Guerra Fria ou explorar pânicos morais envolvendo pautas como
aborto e diversidade sexual”, diz em entrevista concedida por e-mail à IHU
On-Line.
Ao
tentar explicar o sucesso eleitoral de um candidato que se notabilizou por um discurso de ódio, preconceito e declarações violentas
e que enaltece a ditadura e a tortura, Nunes salienta: “Não vamos esquecer que este discurso vem sendo gradualmente normalizado
faz tempo, ou por não ser punido legalmente, ou por ser minimizado como
‘polêmico’ quando na verdade é, nos
termos do ordenamento jurídico brasileiro, criminoso”.
Ao
analisar a comunicação cultivada pelo
candidato à presidência Jair Bolsonaro, à frente nas pesquisas eleitorais,
observa que ela é característica da
extrema direita e consiste em
desmentir-se constantemente:
“Você afirma um absurdo, nega, diz que
foi mal interpretado, depois faz tudo de novo”.
Com essa tática, consegue “mandar
mensagens para os elementos mais radicalizados da base, bem como para a elite econômica, ao mesmo tempo
em que alimenta uma confusão sobre
as verdadeiras ideias ou objetivos do líder”.
O
entendimento da situação atual passa por lembrar não apenas a não condenação da
tortura e dos crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura de 1964, mas
também pela memória de “dois crimes
contra a humanidade que estão na fundação do Brasil: o genocídio indígena e a
escravidão”. Conforme o professor, essa lembrança não consiste em um gesto
meramente retórico, porque “quando você vê que uma parte da população se
ressente profundamente de qualquer ganho de direitos por outra parte da
população, percebe que isso não é trivial”.
Para
Nunes, “uma das coisas mais poderosas que se pode dizer agora àqueles de quem
somos próximos e que pretendem votar em Bolsonaro: estejam preparados para viver com as consequências dessa escolha; se o
pior acontecer, vocês não vão poder dizer que não sabiam”.
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Gravura do artista e viajante alemão Johann Moritz Rugendas, integra sua obra "Voyage pittoresque dans le Brésil" (1835). Nome da gravura: "Nègres a fond de Calle" |
Confira
a entrevista:
IHU
On-Line – Qual é sua percepção de quem está acompanhando as eleições de longe?
Como está vendo o processo?
Rodrigo Nunes – Como um desastre em câmera
lenta. Uma das características da tragédia é que o destino dos personagens se
desenrola inexoravelmente a partir de atos que fazem sentido individualmente,
mas cuja concatenação conduz ao pior resultado possível – e esta lógica, visível para o espectador, é
invisível aos personagens, que vão se enredando cada vez mais nos efeitos
de suas escolhas. Não vou dizer que previ que estaríamos tão próximos de uma
vitória da extrema direita, porque “previsão” em política é só um cálculo de
probabilidades; mas desde quando foram
definidas as candidaturas, estava claro que a possibilidade existia. Porque
estas estavam destinadas a ser eleições marcadas por um forte sentimento antissistêmico[1];
porque não existia uma candidatura forte da direita mais moderada; porque o PT
tinha votos suficientes para passar no primeiro turno, mas uma rejeição que
dificultava a vitória no segundo; porque o establishment[2] político e
econômico já começava a sinalizar acomodação com a hipótese Bolsonaro. Os
sinais estavam todos aí, e a cada nova rodada dava para ver a probabilidade
crescer.
E
tudo isso resulta de decisões que os
diferentes agentes tomaram porque eram vantajosas para eles, logo “racionais”.
Assim, o PSDB decidiu em 2016 não correr o risco de repetir 2005 – quando
achava que bastava deixar o Mensalão “sangrar” Lula, mas este se recuperou – e
embarcou na aventura do impeachment.
Aí o desastre do governo Temer enterrou
o PSDB e ajudou o PT a recuperar alguma popularidade, pondo Lula na dianteira
da corrida presidencial. O Judiciário então acelerou o julgamento de Lula para
tirá-lo do páreo. O cálculo era que
Bolsonaro tinha um teto baixo e logo seria ultrapassado por uma candidatura da
direita mais moderada. Mas agora Lula tinha votos suficientes para passar
do primeiro turno e, sem candidato
próprio, o PT corria o risco de ser dizimado no Congresso. Então, pensando na sobrevivência do partido, Lula
escolheu a candidatura própria e manobrou para que o PSB não apoiasse Ciro
Gomes. O PT ofereceu a vice-presidência para Ciro, mas este via que sua
grande oportunidade era como terceira via, porque as duas candidaturas mais
fortes também tinham alta rejeição. Este ativo, ele calculou, seria
neutralizado se ele integrasse a chapa do PT.
Então o PT tinha votos para
chegar no segundo turno, mas uma rejeição proibitiva quando chegasse lá; e Ciro tinha dificuldade
de passar para o segundo turno, mas, chegando lá, tinha boas chances, pois
tinha menor rejeição. Os dois avaliaram
que dava para tentar ganhar sem o apoio um do outro e pagaram para ver. E
todo o tempo o cálculo deles era o mesmo de todos os analistas e toda a classe
política: que Bolsonaro murcharia, que a polarização seria com o PSDB. Mas como o PSDB foi quem mais encolheu nestas
eleições, logo ficou claro que,
se a aposta deles desse errado, o custo
não era uma vitória de Alckmin, mas entregar a presidência a Bolsonaro.
Todo
mundo sabia dos riscos e todo mundo agiu racionalmente, buscando maximizar seus
interesses a partir das informações que tinha. O resultado está aí.
IHU
On-Line – Faltou grandeza a Lula e a Ciro?
Rodrigo Nunes – Que discutamos estas coisas
em termos de qualidades pessoais – se este tem ou não tem grandeza, se aquele
tem ou não tem direito de querer ser candidato – já dá a dimensão do problema. Como decisões tão importantes, com efeitos
nas vidas de todos, ficam na mão de indivíduos? Como que nós, que
constituímos a base eleitoral da esquerda, não temos nenhuma interferência
nisso? Isso diz muito sobre as
estruturas partidárias (ou falta delas), sobre a necessidade de reorganização
da esquerda, mas também sobre nós. Iniciativas como o Quero Prévias até tentaram constituir um contraponto às direções
partidárias para forçar o debate, mas não funcionou – seja pela maneira como
isso foi feito, seja porque toda a incerteza dos últimos anos tornou as pessoas
mais, e não menos, dispostas a passar cheques em branco para as lideranças.
IHU
On-Line – Muitas análises têm responsabilizado a esquerda pela situação, mas
qual o papel de outros segmentos políticos?
Rodrigo Nunes – A responsabilidade da direita mais moderada e de setores como a
mídia e o Judiciário no que está acontecendo é tremenda.
Se
quisermos buscar as origens mais recentes do bolsonarismo, veremos
que suas sementes começam a ser
plantadas já no primeiro governo Lula. No auge do pacto lulista, quando o boom das commodities[3] serviu
para criar uma situação em que mais ricos e mais pobres ganhavam, a oposição
não tinha como dizer que as coisas iam mal; todo mundo estava vivendo melhor
que no governo Fernando Henrique Cardoso [FHC]. A única linha de ataque
possível para a oposição naquele momento era requentar as paranoias anticomunistas da Guerra Fria ou explorar pânicos morais envolvendo pautas
como aborto e diversidade sexual.
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JOSEPH RAYMOND MCCARTHY (1908-1957) Senador Republicano pelo Estado de Wisconsin (Estados Unidos): 1947-1957 |
Órgãos de imprensa
semanalmente levantavam grandes acusações sem nenhuma prova: Cuba teria financiado a
campanha de Lula, os ministros do STF estariam sendo grampeados... E os líderes
da oposição “responsável” emprestavam sua credibilidade a estas histórias,
aparecendo na imprensa para comentar que, se verdadeiras, as acusações eram
muito graves etc. Organizações como o Instituto
Millenium injetaram fortunas em discursos que misturavam pregação ultraliberal e macarthismo[4] delirante;
houve um boom editorial deste tipo de literatura. Paralelo a isso, a direita mais moderada também incentivou
pânicos morais como o famigerado “kit gay” e foi trazendo o discurso religioso conservador, que já crescia com
os representantes do eleitorado evangélico, para o centro do debate. Tudo isto
foi abrindo o mainstream[5] cada vez mais a um conservadorismo moral militante, a discursos de extrema direita e à
lógica das teorias da conspiração.
Invariavelmente,
a escolha do PT
foi buscar a conciliação. Assim, ao invés de tentar regular o setor
inteiramente desregulado que é a mídia, ele
foi fazendo concessões; da mesma forma, buscou alianças com a bancada do boi, da bala e da Bíblia, abrindo mão
de pautas e aumentando a penetração da agenda conservadora. Isso não serviu
para nada quando estes setores embarcaram entusiasticamente no impeachment.
Além
disso, fomentou-se um ativismo jurídico que,
sob a cobertura de dar respostas rápidas à opinião pública, exacerbou a
insegurança jurídica e interferiu diretamente no processo político. Quando um juiz de primeira instância grava
uma conversa da presidente da República e a torna pública sem medo de sofrer as
devidas punições legais, é porque ele sabe que está blindado.
Como
coroação dessa irresponsabilidade, veio o impeachment.
E durante todo o tempo em que se semeava
confusão, o cálculo era claramente que, ao final de todas as manobras, as eleições cairiam no colo do PSDB, e a elite
política poderia se recompor.
A
lógica era incitar forças perigosas a fim de explorá-las em benefício próprio.
No fim, essas forças engoliram a direita
mais moderada, e o establishment
agora faz que não é com ele: denuncia o
caos que ajudou a criar, estabelece uma falsa equivalência entre Haddad e
Bolsonaro, e se prepara para negociar um lugar à mesa do provável novo governo.
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Sessão da Câmara dos Deputados (Brasília - DF) de 18 de abril de 2016 na qual foi aprovado o impeachment da presidente Dilma Rousseff por 367 votos contra 137 |
IHU
On-Line – O senhor escreveu que as chicanas que caracterizaram o processo de impeachment deram um reforço de
legitimidade institucional a um espírito de vale-tudo. Isso é suficiente para
explicar o clima que se instaurou no país?
Rodrigo Nunes – Não só o impeachment, mas uma série de
intervenções que veio antes e depois. Por seu caráter errático e frequentemente parcial – ora céleres e rigorosas, como no julgamento de Lula, ora lentas ou “matadas no peito”, como no
tratamento dispensado a Aécio Neves ou na atuação pífia do Tribunal Superior Eleitoral - TSE –, elas
contribuíram para desmoralizar ainda
mais o Judiciário e as instituições como um todo. Nossas instituições
sempre foram madrastas com a maioria da população; mas quando o vale-tudo é
liberado mesmo no topo da pirâmide do sistema político, isto gera um efeito em
cadeia cujo resultado é a generalização de um misto de anomia[6] e
voluntarismo[7].
Anomia, porque a grande função das instituições, que é
garantir a previsibilidade dos processos políticos e sociais, é abandonada;
tudo se torna imprevisível porque tudo é reduzido às relações circunstanciais
de força, à lei do mais forte. E voluntarismo
porque, num quadro assim, cresce a
demanda justamente pela força – por indivíduos que saltem por sobre a lei e
imponham um resultado unilateralmente, sem qualquer mediação.
Historicamente,
anomia e voluntarismo não só são a
combinação da qual nasce o fascismo[8], mas também aquela que o sustenta, que ele
precisa fomentar para existir. É o coquetel do qual se alimenta uma
liderança autoritária como Bolsonaro. E daí para que a força deixe de ser exercida
por dentro das instituições e passe também às ruas, virando violência física, é
só um passo.
Para
além da instabilidade institucional, o impeachment foi profundamente
deseducativo do ponto de vista da prática democrática. Ao fazer uma
gambiarra para premiar a demanda por um “terceiro turno” das eleições...
...
o impeachment
ensinou, para uma parcela da população que pouco tinha participado da política
até ali, que a democracia não é um espaço de negociação das diferenças, mas uma
arena em que é legítimo quem se julga maioria exigir a gratificação imediata do
próprio desejo, sem diálogo, procedimentos ou instituições.
Disso resulta, por um lado, o desejo de uma mão forte, de alguém capaz
de impor sua vontade unilateralmente; e, por outro, uma lógica de não negociação com a diferença cujo limite é, mesmo se
nem todos se dão conta disso, a eliminação física do outro: “ou você deixa de ser diferente, ou você
deixa de ser”. É para este horizonte que falas sobre “acabar com o ativismo” e “eliminar
os vermelhos”, para não falar da violência contra jornalistas e população
LGBTQ[9], apontam.
Esta
demanda por gratificação imediata está clara em dois elementos do
discurso do bolsonarismo. Primeiro, nessa frase recorrente em todos estes
episódios de violência que têm acontecido, “essa farra vai acabar”. É
como se dissessem: “esse tempo em que era preciso negociar meus desejos, em
que eu precisava abrir mão do meu gozo, está chegando ao fim”. Segundo, na concepção
mágica da política que se expressa na frase “se ele não der certo, a
gente tira e bota outro no lugar”.
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Pichação racista encontrada em um dos banheiros do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP |
IHU
On-Line – O que explica o sucesso eleitoral de um candidato que se notabilizou
por um discurso de ódio, preconceito e declarações violentas contra pessoas
LGBTs, mulheres, negros e índios, que enaltece a ditadura e a tortura? Como
milhões de pessoas conseguem votar em alguém que atenta contra a própria
existência de pessoas?
Rodrigo Nunes – Não vamos esquecer que este discurso vem sendo gradualmente
normalizado faz tempo, ou por não ser punido legalmente, ou por
ser minimizado como “polêmico” quando na verdade é, nos termos do ordenamento
jurídico brasileiro, criminoso. Não vamos esquecer, também, o quanto
elementos deste discurso foram nutridos pelo mainstream ao longo desse
tempo; há alguns anos, por exemplo, a moda eram os humoristas “politicamente
incorretos”, celebrados como tribunos da liberdade de expressão. Não
vamos esquecer, ainda, que os próprios governos petistas, especialmente durante
a gestão de Dilma, contribuíram para a minimização das questões ambiental e
indígena e se curvaram para o conservadorismo. Por último, não vamos esquecer
que as raízes de vários elementos deste discurso estão no desconforto real
sentido por diferentes setores diante de transformações ocorridas na última
década: o crescimento da visibilidade e das demandas de atores historicamente
excluídos. Quando ocorreu o impeachment, eu já dizia que o verdadeiro golpe
era contra estas tendências.
Bolsonaro
cultiva um tipo de comunicação característico da extrema direita, que consiste
em desmentir-se constantemente: você afirma um absurdo, nega, diz que foi mal
interpretado, depois faz tudo de novo. Trump faz muito isso. Esta tática
permite mandar mensagens para os elementos mais radicalizados da base, bem como
para a elite econômica, ao mesmo tempo em que alimenta uma confusão sobre as
verdadeiras ideias ou objetivos do líder. Assim, ele pode ser todas as
coisas para todas as pessoas: quem quer fascismo ouve fascismo, quem não
quer ouve só um arroubo espontâneo, quem deseja uma política ouve essa
política, quem deseja outra ouve outra.
Esta
tática dificulta a compreensão do próprio eleitorado bolsonarista. Até que ponto quem vota
nele o faz porque:
*
se sente inseguro,
*
está farto da política convencional,
*
deseja mudança e
*
realmente não acredita que ele represente maiores riscos, a não ser para os
corruptos e os criminosos?
Ou
acredita que ele representa riscos para a democracia e as instituições, mas que
estes são pequenos? Ou acredita que ele representa riscos razoáveis, mas está disposto a
corrê-los, porque avalia que os riscos são só para os outros? Ou efetivamente
deseja que ele seja realmente tudo aquilo que fala? Não há uma fronteira
absolutamente clara entre estes grupos, mas é evidente que seu eleitorado se
compõe de tudo isso. Há diferentes tipos de eleitores de Bolsonaro, que têm
motivações diferentes, e é preciso relacionar-se diferentemente com cada um
deles.
IHU
On-Line – É possível falar em fascismo?
Rodrigo Nunes – Há basicamente duas maneiras de pensar o fascismo. A) Uma é a da história e da ciência política; ela
consiste em montar uma lista de características que historicamente
caracterizariam o fascismo e comparar os fenômenos sob investigação com ela. Um
dos problemas dessa abordagem é que não há consenso sobre quais elementos devem
pertencer à lista.
B) Outra
abordagem vê o fascismo como uma questão de psicologia social; ele é da
ordem do desejo. Isso implica que, propriamente falando, não há fascistas,
mas desejos fascistas, e indivíduos que podem ser atravessados por esses
desejos em maior ou menor grau, de maneira mais ou menos consciente.
Importam,
aí, quatro características gerais dos desejos.
Primeiro,
eles são diretamente sociais: eles atravessam as pessoas ao invés de
estar dentro delas.
Segundo,
eles são, por isso mesmo, flutuantes e variáveis. A pesquisa comparando o
comício de Bolsonaro no último domingo com a manifestação pró-Lava Jato de 2017
mostra isso: são provavelmente as mesmas pessoas, mas elas agora se dizem
“muito conservadoras”. Quando eu criticava a ideia de “ascensão conservadora”
três anos atrás, era para dizer que se negamos a legitimidade dos
sentimentos antissistêmicos, se reduzimos todos que discordam de nós a condição
de fascistas, estamos perdendo diálogo com as pessoas e deixando espaços para
que estes sentimentos sejam disputados por práticas e discursos que podem, sim,
tornar-se fascistas. Daí também a pergunta, após a eleição de Trump, sobre
como lidar com a entrada de um discurso obsceno na política.
Terceiro,
também por isso, desejos podem entrar em reverberação ou feedback positivo:
quando aparece uma liderança que os galvaniza, quando eles ganham visibilidade
nos meios de comunicação, quando as pessoas os expressam publicamente, eles se
reforçam e expandem.
Quarto,
desejos são mais fortes que interesses: as pessoas são capazes de
desejar coisas que vão contra seus próprios interesses. Como dizia Spinoza, nós não desejamos algo porque é bom, nós achamos que algo é
bom porque o desejamos.
E o
que caracteriza este desejo? Um investimento no líder, na força e na vontade
como saídas para uma situação percebida como impasse e anomia. O incômodo
diante da diferença, que eu culpo pelo impasse e pela anomia, que me impedem de
ser feliz. E a condensação desse incômodo na figura de um OUTRO que precisa
ser suprimido ou eliminado para que eu possa obter minha felicidade.
É
neste sentido que o fascismo é fundamentalmente antidemocrático:
*
ele não suporta a ideia de ter de negociar, construir, mudar;
*
ele quer eliminar o incômodo, isto é, o outro.
A
isso se agrega todo tipo de interesse imediato e mesquinho, de pequenos ódios e
invejas cotidianos, que se tornam justificáveis na medida em que eu posso
culpar o outro por eles. Os dois primeiros filmes de Pablo Larraín sobre
a ditadura no Chile, Tony Manero e Post Mortem, são retratos
perfeitos disso.
Há
desejos fascistas à solta? É claro que há, e os episódios de violência das últimas semanas
mostram que há indivíduos inteiramente atravessados por eles. Lidar com isso é
como um trabalho de epidemiologia: é preciso tentar conter esses desejos e
essas pessoas, imunizar os demais contra eles, mobilizar os desejos e afetos
não fascistas que movem as pessoas contra eles. Porque, ainda segundo
Spinoza, afetos e desejos só podem ser neutralizados por afetos e desejos na
direção contrária.
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PAU-DE-ARARA Um dos métodos mais comuns de tortura durante a ditadura militar no Brasil |
IHU
On-Line – A não condenação da tortura e dos crimes cometidos pelo Estado
durante a ditadura de 1964 é determinante para se entender esta situação?
Rodrigo Nunes – Antes da memória da ditadura, temos a memória de dois crimes contra a
humanidade que estão na fundação do Brasil: o genocídio indígena e a escravidão.
Parece um gesto meramente retórico lembrar disso, mas quando você vê que uma
parte da população se ressente profundamente de qualquer ganho de direitos por
outra parte da população, percebe que isso não é trivial. Uma parte do
Brasil dá por ganho um direito sobre o tempo e os corpos de outras
pessoas que não é absolutamente normal em lugares como a Europa; ela acha que são os pobres, negros e indígenas que têm uma
dívida com ela e não o contrário. No fim, a elite brasileira é
acostumada a um grau de privilégios que só é compatível com uma república de
bananas – daí, justamente, que nossa história política seja atravessada por
golpes e viradas de mesa que vêm sempre de cima para baixo, nunca de baixo para
cima.
No
Canadá é costume, antes de eventos culturais ou acadêmicos, anunciar: “estamos
no território de tal tribo”. Parece uma mera formalidade, e em certa medida é;
mas um amigo canadense me disse: “é porque estamos há décadas fazendo esse
tipo de coisa que algo como Belo Monte não seria possível aqui”.
O direito à memória é
também o direito de não deixar esquecer, e isso se aplica não só a quem cometeu
os crimes, mas a quem ficou indiferente enquanto crimes eram cometidos.
Quando
os Hijos na Argentina fazem um protesto em frente ao edifício de um
torturador da ditadura, eles não estão apenas dizendo para a vizinhança: “aqui
mora um torturador”. Eles também estão dizendo: “muitos de vocês provavelmente
sabiam ou suspeitavam que o vizinho de vocês era um torturador e seguiram
cumprimentando-o no elevador durante anos”.
Esta
produção pública de vergonha tem um efeito potente. Porque o fascismo
é um fenômeno de massa e, no meio da massa, as relações entre causa e
efeito se tornam mais tênues; ninguém se sente mais tão responsável. Uma
questão central da psicologia de massas sempre foi: como pode que pessoas
absolutamente comuns no meio de grandes grupos em ebulição façam coisas
absolutamente terríveis?
Mas
estatisticamente o mais comum não é que pessoas normais façam coisas horríveis,
mas que pessoas normais não façam nada horrível, mas também não façam nada
enquanto coisas horríveis acontecem a seu redor. Ao estabelecer uma relação,
ainda que retrospectiva, entre causa e efeito, e cobrir esta relação com o
afeto negativo da vergonha, o exercício do direito de não deixar esquecer deixa
uma marca para o futuro: “pense bem nas consequências de suas ações ou
omissões hoje, porque amanhã você poderá ser cobrado publicamente delas”.
Esta,
me parece, é uma das coisas mais poderosas que se pode dizer agora àqueles de
quem somos próximos e que pretendem votar em Bolsonaro: estejam preparados
para viver com as consequências dessa escolha; se o pior acontecer, vocês não
vão poder dizer que não sabiam.
IHU
On-Line – Como entender o fenômeno das “fake news”? As plataformas digitais
constituíram uma realidade paralela, com características próprias?
Rodrigo Nunes – Cada um de nós acredita em mais coisas do que pode comprovar
diretamente; eu nunca medi a distância daqui à Lua, mas acredito que temos
conhecimento verdadeiro dela. Por quê? Porque é a crença mais razoável: há
várias evidências indiretas que corroboram essa ideia.
O fenômeno
das “fake news” não é uma ou outra ideia falsa, mas a erosão do ambiente
de formação de crenças; ele funciona por saturação. Se você
satura o entorno das pessoas com informações falsas que se comprovam
mutuamente, ou com informações falsas que desacreditam as autoridades
nas quais elas normalmente acreditariam, você as desorienta, as faz confiar em mentiras e achar que todas as vozes
dizendo o contrário, mesmo as mais respeitadas, são parte de uma conspiração para esconder a verdade.
Mas
é preciso lembrar: esta saturação não começou nestas eleições, e ela foi
durante anos amplamente explorada pela direita mais moderada. “Especialistas”
cansaram de prever cataclismas que não se realizaram; quem passou os últimos
15 anos lendo [a revista] Veja já habita uma realidade paralela
faz tempo. O petismo também criou um aparato de notícias duvidosas, mas
este, sem ter ressonância na grande mídia, teve penetração restrita à
militância.
O
WhatsApp de hoje é apenas o espelho distorcido, rizomático e militante, que
reflete a exploração cínica destas táticas pelo mainstream. E nem tão
militante assim: como descobrimos na última semana, o alto engajamento
voluntário da campanha de Bolsonaro é sustentado por uma estrutura de
propaganda profissionalmente montada para este propósito.
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ÍNDIO REALIZA PROTESTO CONTRA O ASSASSINATO DE IRMÃOS SEUS |
IHU
On-Line – O que esperar de um governo Bolsonaro?
Rodrigo Nunes – No fim das contas, acredito que Bolsonaro é menos um fanático que um
oportunista. Como Trump, suspeito que ele deva terceirizar áreas
inteiras de seu governo aos lobbies do:
* mercado financeiro,
* da educação privada,
* das mineradoras,
* do agribusiness etc.
Isso,
obviamente, será desastroso para os pobres, para o meio ambiente, para os
indígenas, para os negros, para os LGBTQ. Mas também significa que, em algum
momento, ele não conseguirá mais ser todas as coisas para todo mundo: sua
agenda econômica prejudicará muita gente, seu discurso anticorrupção será
contradito por suas alianças no Congresso. O que acontecerá nesse momento? Ele
pode compensar radicalizando o elemento punitivo e violento de sua figura,
atiçando sua base contra um “inimigo interno” a ser eliminado. Os
resultados podem ser terríveis, comparáveis a um Duterte, das Filipinas.
O establishment
claramente já fez a aposta de que é possível controlá-lo. O caso de fraude
eleitoral que explodiu na semana passada ficará cozinhando em fogo lento para
chantageá-lo com o risco de anulamento da chapa. Ele aceitará a chantagem ou
apostará no caos para se fortalecer? É impossível prever agora.
IHU
On-Line – E o que esperar de um governo Haddad?
Rodrigo Nunes – Será um governo fraco, sob constante ameaça. Só espero
que a esquerda, diante disso, não repita o mesmo erro de achar que, porque o
governo é fraco, é melhor não se mobilizar. Porque, se não houver esquerda
na rua, a única base social mobilizada será da direita, e Haddad não terá
capital nenhum para negociar. Quando 2013 abriu um flanco à esquerda, o PT se
moveu ainda mais para o centro, enquanto a direita se organizava para disputar
as ruas e se deslocava para a extrema direita. No fim, enquanto a direita
radicalizava, o PT assumiu o papel de único que acreditava nas instituições, e
ficou com o mico. Sem uma esquerda independente para cobrar uma agenda, o
movimento em direção ao centro continuará – e o centro já demonstrou que não
está preocupado com a democracia ou as regras do jogo.
Ganhe
quem ganhar, o problema para a esquerda continuará o mesmo dos últimos
anos: finalmente começar o trabalho de se reinventar.
N O T A S
[1] –
Antissistêmico: quer dizer contra o
«sistema» político que predomina no país até o momento. Podendo significar,
também, contra o sistema econômico vigente, bem como, contra normas de
convivência e comportamento sociais.
[2] – Establishment:
palavra inglesa que significa a ordem ideológica, econômica, política e legal
que constitui uma sociedade ou um Estado. Pode ser também, como é o caso aqui
na entrevista, a elite social, econômica e política de um país.
[3] – Boom
das commodities: são duas palavras inglesas. A primeira, «boom»
significa aumento dos negócios. A segunda, «commodities» refere-se a
mercadorias de origem animal (carne, embutidos etc.), vegetal (madeira, soja,
açúcar etc.) ou mineral (minério de ferro, manganês etc.). Então, «boom das
commodities» significa um significativo aumento da venda de mercadorias de
origem animal, vegetal e mineral. No caso brasileiro, nosso maior comprador
atual é a China.
[4] – Macarthismo:
prática política que se caracteriza pelo sectarismo, notadamente anticomunista,
inspirada no movimento dirigido pelo senador Joseph Raymond McCarthy
1909-1957, durante os anos 1950, nos Estados Unidos. Consiste na prática de
formular acusações e fazer insinuações sem provas, comparável àquela que
caracterizou o movimento desencadeado pelo político norte-americano acima
mencionado.
[5] – Mainstream:
corrente dominante ou convencional de pensamento mais comum ou generalizada no
contexto de determinada cultura. A corrente dominante inclui toda a cultura
popular e cultura de massa, as quais são difundidas pelos meios de comunicação
de massa.
[6] – Anomia:
ausência de lei ou de regra, desvio das leis naturais; anarquia, desorganização.
Sociologicamente falando, seria o estado da sociedade em que desaparecem os
padrões normativos de conduta e de crença, e o indivíduo, em conflito íntimo,
encontra dificuldade para conformar-se às contraditórias exigências das normas
sociais (Houaiss).
[7] – Voluntarismo:
comportamento autoritário, voluntarioso (agindo segundo sua vontade, sem
considerar a vontade de outrem, com obstinação).
[8] – Fascismo:
movimento político e filosófico ou regime (como estabelecido por Benito
Mussolini na Itália, em 1922) que defende a prevalência, isto é, a
superioridade dos conceitos de nação, Estado e raça sobre os valores
individuais. Um regime político fascista é representado por um governo
autocrático, centralizado na figura de um ditador.
[9] – LGBTQ:
é a sigla de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais,
Travestis ou Transgêneros e Qeer, que são aqueles que
questionam sua identidade sexual para além do binômio masculino e feminino, o
qual é considerado um construto social.
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