JUVENTUDE – Urgente!
Em que a igreja precisa avançar em sua
relação com as juventudes?
Pe. Maicon
Malacarne
Coordenador
de pastoral na Diocese de Erexim (RS),
especialista
em juventude no mundo contemporâneo e
membro da
Comissão Nacional de Assessores da Pastoral da Juventude (CNBB)
Pensar a evangelização das juventudes
significa pensar, também, um paradigma de Igreja. Precisamos ter coragem de
conversar sobre isso
Talvez
seja interessante iniciar tendo clareza
do que significa “Igreja”. O papa Francisco vive uma eclesiologia e, a
partir dela, propõe um caminho. Suas práticas e pregações, inclusive a
convocação do Sínodo sobre “juventude,
fé e discernimento vocacional”, estão alicerçadas num “modelo” de
Igreja. O Concílio Vaticano II cunhou a
concepção “Igreja – Povo de Deus” (Lumen Gentium [LG] n. 9). Passou a
tratar, assim, do que diz respeito a todas as pessoas. A Igreja está “dentro do mundo” e se faz, nele, sacramento, sinal do
Reino de Deus (LG 13). Trata-se de todos os batizados, com seus dons,
carismas, serviços e ministérios, estarem com os pés no chão da vida, abertos às realidades e iluminados pelo Espírito, numa mística profundamente pascal.
A Igreja, povo de Deus, tem
desafios enormes na missão com as juventudes. Nas muitas reuniões comunitárias, nas assembleias,
congressos e conversas afins, apresenta-se a enorme preocupação para com essa
categoria social. Claro que pensar a
evangelização das juventudes significa pensar, também, um paradigma de Igreja.
Precisamos ter coragem de conversar sobre isso. Quando o Papa Francisco pede
uma “Igreja
pobre e para os pobres” ele se posiciona eclesiologicamente também
com as juventudes que vivem as “pobrezas” em todos os sentidos. Não é por
acaso, também, que na convocação do Sínodo ele diz: “também a Igreja deseja colocar-se na escuta da vossa voz, da vossa
sensibilidade, da vossa fé; até mesmo das vossas dúvidas e das vossas críticas
[…]. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o
ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores” (carta do papa aos
jovens na apresentação do Documento preparatório do Sínodo).
Penso,
com isso, em 3 desafios urgentes que
se apresentam e já encontram eco nesse Sínodo: 1)
abertura e diálogo com o universo juvenil; 2) superação
dos doutrinamentos; e 3) acreditar em processos
de educação na fé.
1) Abertura e
diálogo com o universo juvenil. Toda evangelização pressupõe diálogo.
Correlaciona-se, assim, com a educação. A igreja dialógica e aberta tem o
desafio de agir coletivamente no que se refere aos problemas comuns que tocam
os jovens. Não há questões “intocáveis”.
Temas como o sexo, o aborto, o feminismo, a homossexualidade
precisam encontrar espaço para serem
conversados. Não dá para negar que há muitos grupos eclesiais que conseguem
dialogar com maturidade sobre esses temas, no entanto, na maioria das vezes
ainda são tabus. “Fazei ouvir vosso grito” é trazer para o centro as questões do universo juvenil que ficam na
“periferia do diálogo”. O diálogo exige sempre movimentos: escutar e falar. Falar sem “doutrinar”. E a fala precisa estar em profunda conexão com a vida. A práxis
(prática refletida) é a referência do diálogo. Abrir-se e dialogar com as
juventudes também significa participação
dos jovens em todos os espaços eclesiais. Verifica-se, em muitos lugares,
que os jovens são “mão de obra” na
execução de momentos da vida comunitária – arrumar mesa, carregar símbolos,
ajudar na festa – e, praticamente, não
participam da tomada de decisões. Não se trata de dizer que os jovens não
possam fazer isso, todo serviço amoroso é importante e necessário, o problema é
“ficar” nesses setores e fechar outros. A evangelização das juventudes
necessariamente deve ser com participação
ativa no diálogo, na palavra e nas tomadas de decisões da Igreja. As
comunidades eclesiais precisam abraçar essa tarefa evangélica e política que
parte das realidades mais específicas da vida juvenil e trazem-nas para o
centro da roda eclesial dando vez e voz aos sujeitos envolvidos.
2) Evitar
doutrinamentos.
Logicamente a Igreja como instituição milenar tem uma doutrina, uma Tradição
que apresenta para nós um caminho. Não vejo problemas em dialogar sobre o
caminho. A atitude de abertura e diálogo deve evitar qualquer tipo de
“doutrinamento” no sentido bem específico. Antes
de tudo vem a vida. “Enfiar” alguns
sistemas definidos ou esquemas de ação na cabeça dos jovens é autoritarismo. Toda forma autoritária de evangelizar mais
divide do que congrega, formando “melhores e piores” ou “puros e impuros”
conforme um código doutrinal de pureza. Há
que se ter cuidado também com uma evangelização por “convencimento”.
Convencer não é educativo. Ação e
constante reflexão é que vão ajudar no crescimento e no acompanhamento da
fé. Aqui, gostaria de trazer presente essa urgência
de uma ação evangelizadora com a juventude: acompanhamento.
O Papa, na oração do Sínodo, pede por adultos
que tenham coragem de acompanhar: guias sábios. Não se trata de adultos que
doutrinem, mas que acompanhem, que estejam próximos, que dialoguem com as
alegrias e tristezas das juventudes. Percebe-se uma crescente escassez desse
ministério ao acompanhamento a juventude. Certamente não é uma tarefa fácil
quando se exige:
* um caminhar junto,
* uma abertura às questões mais humanas,
* uma atitude de potencializar os jovens, “escondendo-se” a si mesmo.
Adultos
doutrinadores de jovens, talvez, hajam aos montes.
3) Acreditar e
potencializar processos de educação na fé. Aproximamos bastante a tarefa de
evangelizar com a educação. Toda evangelização
é uma ação educativa. Abrir-se, dialogar, evitar doutrinamentos, participar,
acompanhar os sujeitos (além de
outras) são tarefas de uma educação na
fé. Penso que também se coloque para a Igreja o desafio de ter clareza desses processos de educação na
fé que ajudam a pensar pontos de partida, de chegada e possibilidades de
caminhos para os jovens. Cada jovem é um
e único. Nisso também está a resposta a um projeto de vida, ao
discernimento vocacional, como pede o Sínodo. Não é colocar tudo no “mesmo saco”, mas pensar e agir com cada jovem na sua especificidade, levando em
conta a heterogeneidade desse universo. O caminho de educação na fé precisa ser
sempre integral: olhar as juventudes no seu todo e nas suas relações (consigo,
com o outro, com Deus, com o mundo, com a organização). Não há como crescer e
amadurecer a fé sem pensar uma
trajetória – não estamos prontos – “estamos
sendo” diz Paulo Freire. Viver isso é mais do que uma técnica, é uma espiritualidade que brota do seguimento a
Jesus e começa, às vezes, pelo campo afetivo, pela aproximação, pela amizade,
pela festa e vai crescendo, amadurecendo e se tornando estilo e projeto de
vida.
PADRE MAICON MALACARNE Autor deste artigo |
Para
concluir, é importante dizer que esses (de tantos) desafios precisam estar
alicerçados num elã, numa mística profundamente
comprometida com o Reino de Deus. Para além da técnica que é muito
importante, está na raiz de toda
evangelização uma espiritualidade que
vai se traduzindo:
* em amor às juventudes,
* simpatia às suas características,
* bem-querer,
* afeto e
* compromisso.
Nasce,
assim, uma ação libertadora e que supera toda alienação. É a mística de “tocar as feridas” como o
teólogo checo Tomáš Halík sugere para transformar todas as coisas.
Observação:
eu, padre Telmo José Amaral de Figueiredo, realizei algumas correções
ortográficas, gramaticais e informativas no presente artigo.
Comentários
Postar um comentário