2º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho:
João 2,1-11
Naquele
tempo:
1
Houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava presente.
2
Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento.
3
Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: «Eles não têm mais vinho».
4
Jesus respondeu-lhe: «Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não
chegou».
5
Sua mãe disse aos que estavam servindo: «Fazei o que ele vos disser».
6
Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação que os judeus costumam
fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros.
7
Jesus disse aos que estavam servindo: «Enchei as talhas de água». Encheram-nas
até a boca.
8
Jesus disse: «Agora tirai e levai ao mestre-sala». E eles levaram.
9
O mestre-sala experimentou a água, que se tinha transformado em vinho. Ele não
sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que
tinham tirado a água.
10
O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: «Todo mundo serve primeiro o
vinho melhor e,
quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu
guardaste o vinho melhor até agora!»
11
Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e
manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele.
Manuel Barbosa, Joaquim
Garrido e José Ornelas Carvalho
Padres dos Sacerdotes
do Coração de Jesus (Dehonianos)
O
AMBIENTE
Este texto pertence à “seção
introdutória” do Quarto Evangelho (que vai de 1,19 a 3,36). Nessa seção, o
autor apresenta um conjunto de cenas (com contínuas entradas e saídas de
personagens, como se estivéssemos no palco de um teatro), destinadas a
apresentar Jesus e o seu programa.
O autor declara
explicitamente (cf. Jo 2,11) que o episódio pertence à categoria dos
“signos” (“semeiôn” em grego): trata-se de ações simbólicas,
de sinais indicadores, que nos convidam a procurar, para além do episódio
concreto, uma realidade mais profunda para a qual aponta o fato narrado.
O importante, aqui, não é que Jesus tenha transformado a água em vinho; mas é apresentar
o programa de Jesus: trazer para a relação entre Deus e o homem o vinha da
alegria, do amor e da festa.
MENSAGEM
O episódio narrado é, pois,
uma ação simbólica que aponta para algo mais importante do que o próprio fenômeno
concreto descrito. Que realidade é essa?
O cenário de fundo é o de
um casamento. Ora, o cenário das bodas ou do noivado é um quadro onde se
reflete a relação de amor entre Javé e o seu Povo. Dito de outra forma,
estamos no contexto da “aliança” entre Israel e o seu Deus.
A essa “aliança” vem, em
certa altura, a faltar o vinho. O
“vinho”, elemento indispensável na “boda”, é símbolo:
* do amor entre o esposo e a esposa (cf. Ct 1,2; 4,10; 7,10; 8,2. Recordar, a propósito,
como Isaías compara a “aliança” com uma vinha plantada pelo Senhor, que não
produziu frutos – cf. Is 5,1-7), bem como
* da alegria e da festa (cf. Eclo 40,20; Ecl
10,19).
Constata-se, portanto, a
realidade da antiga “aliança”: tornou-se uma
relação seca, sem alegria, sem amor e sem festa, que já não favorece o
encontro amoroso entre Israel e o seu Deus. Esta realidade de uma “aliança”
estéril e falida é representada pelas “seis talhas de pedra destinadas à
purificação dos judeus”. O número seis evoca a imperfeição, o
incompleto; a “pedra” evoca as tábuas de pedra da Lei do Sinai e os corações
de pedra de que falava o profeta Ezequiel (cf. Ez 36,26); a referência à “purificação”
evoca os ritos e exigências da antiga Lei que revelavam um Deus susceptível,
zeloso, impositivo, que guarda distâncias: ora, um Deus assim pode-se temer,
mas não amar.
As talhas estão “vazias”, porque todo este aparato era inútil e
ineficaz:
não servia para aproximar o homem de Deus,
mas sim para o afastar desse Deus difícil e distante.
Detenhamo-nos, agora, nas personagens
apresentadas:
a) Temos, em primeiro lugar, a “mãe”: ela “estava
lá”, como se pertencesse à boda; por outro lado, é ela que se apercebe do
intolerável da situação (“não têm vinho”): representa o Israel fiel, que já
se tinha apercebido da realidade e que esperava que o Messias pusesse cobro à
situação.
b) Temos, depois, o “mestre-sala”: representa os dirigentes
judeus, instalados comodamente, que não se apercebem – ou não estão
interessados em entender – que a antiga “aliança” caducou.
c) Os “serventes” são os que colaboram com o
Messias, que estão dispostos a fazer tudo “o que Ele disser” (cf. Ex 19,8)
para que a “aliança” seja revitalizada.
d) Temos, finalmente, Jesus: é a Ele que o Israel
fiel (a “mulher”/mãe) se dirige no sentido de dar nova vida a essa “aliança”
caduca; mas o Messias anuncia que é preciso deixar cair essa “aliança” onde
falta o vinho do amor (“que temos nós com isso?”). A obra de Jesus não será
preservar as instituições antigas, mas apresentar uma radical novidade.
Isso acontecerá quando chegar a “Hora” (a “Hora” é, em João, o
momento da morte na cruz, quando Jesus derramar sobre a humanidade essa
lição do amor total de Deus).
O episódio das “bodas de Caná” anuncia, portanto, o programa de
Jesus:
trazer à relação entre Deus e os homens o vinho da alegria, do amor
e da festa.
Este programa – que Jesus vai
cumprir paulatinamente ao longo de toda a sua vida – realizar-se-á em plenitude
no momento da “Hora” – da doação total por amor.
ATUALIZANDO
O EVANGELHO
Para o autor do Quarto
Evangelho, os “milagres” são sempre “sinais” que nos reenviam para além da materialidade dos fatos. Será bom olhar
com mais atenção esta água mudada em vinho. A água é um elemento vital.
Mas é, antes de mais, um elemento ordinário e bruto. A água encontra-se
na natureza, não precisa de ser fabricada. O vinho é fruto da vinha, mas
também do trabalho do homem, como dizemos na Eucaristia.
Jesus manda encher as talhas
de água, a água que é símbolo da nossa vida ordinária, de todos os dias. Jesus
toma esta água ordinária para a transformar. Não com uma varinha mágica,
mas com a força do Espírito Santo, com a força do amor. É porque este vinho
é melhor que o vinho dos homens.
Por este “sinal”, Jesus
quer vir ter conosco na nossa vida ordinária, para aí colocar a sua presença de
amor, o amor do Pai, o Espírito
Santo. Toma a nossa vida, com as nossas alegrias, os nossos amores, as nossas
conquistas humanas, importantes, mas tantas vezes efêmeras, com os nossos
tédios, os nossos dias sem gosto e sem cor, os nossos fracassos e mesmo os
nossos pecados, também eles ordinários.
E aí, Ele “trabalha-nos”
pelo seu amor, no segredo, para fazer brotar em nós a vida que tem o sabor do
vinho do Reino. Isto, Ele cumpre-o em particular cada vez que participamos
na Eucaristia. Façamos do “tempo comum” [da
liturgia] o tempo do acolhimento do trabalho em nós do Vinhateiro divino!
DEIXANDO
O EVANGELHO NOS QUESTIONAR
Devemos considerar as
seguintes questões:
1) Quando a relação com Deus assenta num jogo intrincado
de ritos externos, de regras e de obrigações que é preciso cumprir, a
religião torna-se um pesadelo insuportável que tiraniza e oprime. Ora, Jesus
veio revelar-nos Deus como um Pai bondoso e terno, que fica feliz quando pode
amar os seus filhos. É esse o “vinho” que Jesus veio trazer para
alegrar a “aliança”: o “vinho” do amor de Deus, que produz alegria e que nos
leva à festa do encontro com o Pai e com os irmãos. A nossa “religião” é
isto mesmo – o encontro com o Jesus que nos dá o vinho do amor?
2) O que é que os nossos olhos e os nossos lábios
revelam aos outros: a alegria que brota de um coração cheio de amor, ou o medo
e a tristeza que brotam de uma religião de pesadelo, de leis e de medo?
3) Com qual das personagens que participam da “boda”
nos identificamos: com o mestre-sala, comodamente instalado numa
religião estéril, vazia e hipócrita; com a “mulher”/mãe que pede
a Jesus que resolva a situação, ou com os “serventes” que vão fazer
“tudo o que Ele disser” e colaborar com Jesus no estabelecimento da nova
realidade?
Observação: adaptado ao português do Brasil e com algumas
edições por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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