Uma voz profética avisa-nos...
A religião popular:
única esperança contra
o domínio do deus
Mercado
Entrevista
com: Harvey Cox
Teólogo batista – nascido em 19 de março de
1929 em Malvern, Pensilvânia (Estados Unidos)
Andrea Monda
L'Osservatore
Romano
Vaticano:
19-01-2019
«O
mercado é uma contradição direta do Deus cristão.
Não
premia a compaixão ou a ternura»
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HARVEY COX |
Fala de forma muito clara,
como sempre fez, Harvey Cox, noventa anos, teólogo batista, que em
meados dos anos 1960 foi muito popular com alguns ensaios brilhantes e
imprudentes, como A cidade secular (mais de dois milhões de
livros vendidos – edição brasileira: Academia Cristã, 2014), A festa dos
foliões [edição brasileira: Editora Vozes, 1974] até The seduction
of the Spirit (A sedução do espírito) em que ele prospectou uma
teologia da religião popular.
É justamente esta dimensão
popular que aproximou as especulações do teólogo estadunidense com o magistério
do Papa Francisco: «Entre as intuições mais importantes que nos propôs o
Papa Francisco estão o seu respeito e sua exaltação da "religião
popular". Se esta conseguir evitar ser devorada e domesticada pelo
Mercado, pode ser a arma mais preciosa das pessoas comuns para resistir aos
projetos imperiais do deus Mercado».
O rosto do velho teólogo se
parece muito com o Obi-Wan Kenobi, interpretado por Alec Guinness
em Star Wars, e ao reler suas respostas cabe pensar que a semelhança não
é apenas física. O Mercado é um verdadeiro império, contra o qual os homens,
aliás, os povos, devem se rebelar e resistir. Então Cox-Kenobi viaja
o mundo para despertar a esperança e convidar as pessoas a praticar um «ateísmo»
sadio contra a religião hoje dominante; e, ocasionalmente, ele passa também
pela Itália, assim como fez em Trento em 18 de outubro de 2016 com uma
conferência que as Edizioni Dehoniane publicaram no ano seguinte sob o título Il
Mercato Divino. Come l’economia è diventata una religione (O Mercado
Divino. Como a economia se tornou uma religião), um texto que ele quis dedicar
ao Papa Francisco.
Entramos em contato com ele
depois de ter sido divulgada a notícia, em 4 de janeiro último, relativa ao
fato que o FMI, Fundo Monetário Internacional, declarou que a dívida pública
e privada mundial triplicou em comparação com 1950, atingindo um recorde
de 184 trilhões de dólares, equivalente a 225 por cento do PIB global,
pelo que a dívida per capita é de US$ 86.000, duas vezes e meia a renda média
per capita.
Pedimos-lhe um comentário com
relação a esses números impressionantes e ele prontamente respondeu: «É
difícil ver como o nosso sistema econômico atual possa sobreviver ao gigantesco
colapso que, devido à grande acumulação da dívida, agora parece
inevitável, e mais perto do que distante. Mas a questão cruel é quem vai
sofrer mais por essa calamidade? Os ricos encontrarão maneiras de escapar?»
Vamos partir de longe para
raciocinar junto com este Cavaleiro Jedi da teologia e precisamente a
partir daquela aguda e amarga afirmação do historiador britânico Arnold
Toynbee em seu ensaio A humanidade e a mãe-Terra que destaca como o
Ocidente tem colocado nos altares Francisco, o Pobrezinho de Assis, que abraçou
a Irmã Pobreza, mas depois preferiu seguir o pai de Francisco, Bernardone, o
rico comerciante de tecidos de Assis.
Eis
a entrevista.
De Francisco de Assis ao Papa Francisco: o
senhor é um teólogo protestante, mas percebeu no atual Pontífice um elemento
que o incentivou novamente a travar uma «boa batalha» e para mim parece que
esse elemento é a ALEGRIA, a mesma alegria que movia o santo de Assis e que
agora impele o Papa a lembrar aos cristãos que não podem se resignar à
depressão que nasce de se sentir presos em sistema desumano criado pelo deus
Mercado. Se o cristão tem uma Boa Notícia, não pode deixar de anunciá-la com
alegria, mesmo que isso signifique se tornar uma consciência crítica contra a «religião»
que hoje impera, a do Mercado. Esse elemento de alegria está de alguma forma
ligado à teologia lúdica ilustrada em seu ensaio «A festa dos foliões»?
Harvey Cox: Sim, penso que na Evangelii gaudium o Papa
Francisco certamente restaurou um elemento da importante dimensão «lúdica»
do Evangelho cristão e da vida cristã. Isso é precisamente o que eu tinha
em mente em meu ensaio de 1969. Às vezes parecia ter desaparecido de nossas
vidas, e é por isso que eu gosto de São Francisco e do Papa Francisco (e os
nossos irmãos pentecostais). Na Evangelii gaudium, o Papa evitou o tom
de reprovação que estraga tantos comentários teológicos sobre a distância entre
ter demais e ter muito pouco. Em vez disso, ele nos convida a entrar em uma
vida alegre de compartilhamento e reciprocidade.
Em seu ensaio de 1965, A
Cidade Secular, afirmava que «O projeto de Deus na história consiste em “desfatalizar”
(defatalize) a vida humana, colocando a vida do homem nas
próprias mãos do homem e dar-lhe a terrível responsabilidade de governá-la»;
hoje o programa do cristão é o de desfatalizar o Mercado, tirar a aura
sacra do Mercado, desabsolutizá-lo?
Na época, eu pensava na «desfatalização»
da vida humana, não no deus Mercado, mas considero que seja uma descrição
apropriada do que os cristãos (e os outros) precisam fazer. Hoje muitos
pensam no Mercado como uma espécie de força não-humana ou sobrenatural, assim
como o destino. É bom lembrar que o primeiro cristianismo nasceu em um
mundo onde as forças espirituais dominantes para a maioria das pessoas eram o
fado ou o destino. O Mercado, como o destino, nos é apresentado como o poder
dominante de nosso tempo, ao qual devemos nos adequar e que devemos aceitar,
por mais distorcidos que possam ser os seus movimentos. É por isso que o
Papa o chamou de «mercado divinizado». Mas o mercado é uma contradição direta
do Deus cristão. Não premia a compaixão ou a ternura. Além disso, não é uma
força sobre-humana independente. Foi criado pelos seres humanos e é, portanto,
de acordo com a expressão bíblica, um ídolo.
O mercado permaneceu como a única instituição
que não está em crise em relação a outras como a família, a nação, a tradição,
a religião, o campo e a cidade. De fato, todas as identidades entraram em
crise: o gênero, colocado em crise pela teoria de gênero; a família, hoje
desintegrada; nas cidades todos emigraram do campo, mas com o resultado de grandes
centros urbanos burocratizados onde se vive em completo anonimato; a religião
foi colocada sob dura crítica pela laicidade. Essa crise da identidade gera uma
reação que faz renascer, sob diferentes formas, a PRAGA DO FUNDAMENTALISMO:
*
o fundamentalismo nacionalista (populismo);
*
aquele religioso (até os extremos do terrorismo);
*
aquele científico (a ciência tem as respostas para todos os problemas e não
existe outra verdade senão a científica) e
*
aquele econômico.
A religião do Mercado é uma religião fundamentalista?
Como se pode responder ao seu desafio?
Harvey Cox: A religião do mercado é, de fato, uma religião
fundamentalista em um sentido importante: não aceita nenhuma evidência que
possa questionar ou minar a sua frequentemente afirmada «realidade». As
depressões vêm, mas o Mercado resiste. Um número infinito de pessoas está
morrendo de fome, mas permanece imperturbado: «Amanhã será melhor. Basta
ter paciência». É inútil discutir com os acólitos do Mercado. O que
precisamos são mais pessoas dispostas a abraçar o Deus de alegria e
compaixão, para mostrar um tipo alternativo de vida que está
disponível e que se tornará mais convidativo quando no fim o Deus Mercado
fracassará, algo que, acreditamos, certamente irá acontecer.
A principal característica do Mercado é sua
tendência a crescer, uma tendência infinita. É a antiga história da serpente
que insinua na mente do homem a dúvida e o desejo de que se possa comer tudo?
Harvey Cox: O Mercado e o câncer têm uma característica em
comum: ou crescem ou morrem. Mas um sistema econômico/cultural/religioso
que dependa do crescimento infinito não pode sobreviver em um planeta finito. O
nosso pobre planeta explorado e maltratado já está começando a nos
dizer, em termos inequívocos, que está se aproximando de seus limites.
Começamos a entrever o crepúsculo do deus Mercado.
O senhor afirma que, como qualquer boa
religião, até mesmo aquela do mercado tem um escritório dedicado à «propaganda
fide»; sob esse aspecto, desempenham um papel importante a publicidade tão
invasiva e o fenômeno da globalização. O Papa falou de globalização da
indiferença, um outro padre jesuíta, Adolfo Nicolas, de globalização da
superficialidade (também facilitada pelas redes sociais): as duas coisas
estão interligadas em uma mistura completamente negativa, ou a globalização tem
uma alma que é ainda pode ser salva?
Harvey Cox: Nenhum escritório de propaganda religiosa jamais teve
algo que sequer chegasse perto do alcance e da astúcia da publicidade moderna
do deus Mercado. Ela é intrusiva, persistente, inevitável e global, gerando uma
comunidade pseudo global, que na verdade está cada vez mais dividida entre
os poucos que estão no topo e uma crescente maioria que se encontra abaixo.
Os missionários do deus Mercado usam todos os meios para aumentar sua
fatia de participação, incluindo, principalmente, a insegurança sexual e
a confusão espiritual das pessoas. O deus Mercado insiste em nos dizer
que devemos comprar agora: não refletir. Mas, no fundo, as suas promessas são
vazias e insatisfatórias. E, de fato, é assim que devem ser, porque amanhã
devemos continuar a comprar e a consumir.
Traduzido do italiano por Luísa Flores
Somavilla. A versão original encontra-se, clicando aqui.
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