Um catolicismo pós-paroquial
O futuro de nossa Igreja
Gabriele Höfling
Site alemão – “katholisch.de”
Entrevista com Michael Ebertz
Sociólogo da Religião e Teólogo, na Alemanha
Apela às igrejas para que mudem radicalmente
sua oferta às pessoas, a fim de responder adequadamente aos diferentes grupos
sociais e ambientes. Em qualquer caso, Ebertz vê o conceito de paróquia como
superado
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MICHAEL EBERTZ |
Eis a entrevista.
Professor
Ebertz, você está familiarizado com os ambientes sociais. A partir de um estudo
da Universidade de Freiburg de 2019, sabemos que o número de membros da Igreja
cairá pela metade até 2060. Como os dois fatores - a natureza dos ambientes e o
encolhimento da Igreja - estão ligados?
Michael Ebertz: O
prognóstico do estudo a que se refere não levou em consideração a diferenciação
dos ambientes. Baseia-se puramente em dados de desenvolvimento demográfico e,
acima de tudo, questiona o que a prevista diminuição do número de membros
significa para a dimensão financeira da Igreja.
O estudo, encomendado pela
Conferência Episcopal, foi conduzido por um departamento universitário de
economia financeira. Os ambientes não desempenham nenhum papel - e isso por si
só levanta algumas dúvidas.
Por que a diferenciação de ambientes não é levada em consideração, o que, aliás, já foi bem investigado? Isso me deixa com raiva. A Igreja, ou pelo menos alguns de seus representantes, parecem ignorar as descobertas das ciências sociais, especialmente as pesquisas sobre ambientes. Parecem prevalecer aspectos de quantidade e não de qualidade.
A
diminuição do número de membros até 2060 é uma reação a escândalos como os
abusos ou a Igreja está enfrentando uma sociedade em mudança - assim como os
partidos, por exemplo?
Ebertz: Claro, os abandonos
têm muito a ver com os escândalos. Surpreendentemente, ainda existem muitas
pessoas que não têm intenção de sair, simplesmente porque pensam "não é
assim que se faz".
Ao mesmo tempo, especialmente os
jovens estão se afastando: eles não estão mais envolvidos, não frequentam
os serviços religiosos. Talvez ainda façam batizar seus filhos, mas é só
isso. Não há mais linfa vital para a Igreja. A Igreja foi substancialmente
cancelada pelas gerações mais jovens, especialmente pelos jovens adultos.
Vive-se por ambientes, não por território.
O
que a Igreja pode aprender com o conhecimento sociológico dos ambientes?
Ebertz: Deveria
renunciar à sua onipresença em nível territorial. Deveria dizer adeus à
ideia de ser quase análoga ao estado e abranger todo o país com as suas
paróquias. Hoje em dia, essa é uma abordagem errada. Além disso, a Igreja
deveria aumentar a sua atratividade.
Deveria oferecer às pessoas de diferentes ambientes “estações de
reabastecimento espiritual”.
Lugares onde podem obter "alimento espiritual", algo para a sua vida. Para visitar esses lugares de vida, as pessoas estão dispostas até mesmo a percorrer longas distâncias.
O
que mais a Igreja poderia aprender desses ambientes?
Ebertz: Deveria
focar menos no coletivo e mais no indivíduo com suas relações, preocupações e
necessidades. Sabemos que a religião não tem nenhum papel na vida cotidiana de
muitas pessoas, que, de fato, se movem em ambientes sem religião.
Mas quando a vida é interrompida,
como no caso de uma separação, querem conforto e orientação, precisam de
redenção. Nas transições importantes da vida, como os casamentos,
querem um símbolo desse evento que é tão importante para eles - por exemplo, um
casamento na igreja.
Nessas situações fora do cotidiano,
a Igreja deveria estar muito mais presente. Deveria se parecer com uma
espécie de força-tarefa móvel, mais que ser uma igreja estática que
espera que as pessoas venham às paróquias.
Aliás, ao contrário da crença popular, muitas paróquias não estão disponíveis para todos. Certos ambientes dominam - alguns grupos específicos seguram toda a paróquia em suas mãos. Especialmente os tradicionalistas, a classe média e os conservadores consolidados. Essa apropriação de ambientes ocorre em todo lugar, por exemplo até nos centros juvenis municipais: mesmo que em teoria se destinam a todos os jovens, na realidade são muitas vezes dominados por um ambiente muito específico. Outros jovens nem mesmo chegam perto.
O
que significa tudo isso agora: tábula rasa, fazer desaparecer todas as
paróquias e em seu lugar um centro juvenil aqui e um centro familiar ali?
Ebertz: Não vamos
fingir que isso ainda não aconteceu. Muitas paróquias desapareceram - é o
que está acontecendo em muitas dioceses.
[Nota:
Isso não ocorre, apenas, na Europa, mas já se começa a notar no Brasil, por
exemplo, onde o aspecto territorial perde o sentido e o ambiental predomina,
como é o caso nas cidades mais populosas.]
Na arquidiocese de Friburgo, haverá
apenas 36 grandes paróquias no futuro, enquanto hoje existem mais de 1.000. Mas
com um conceito inteligente de desenvolvimento da Igreja, sob essas
grandes paróquias, que já não serão mais orientadas segundo o princípio
territorial, poder-se-iam criar “hotspots de ambiente espiritual”.
[Nota: Hotspot é um termo inglês que pode significar várias
coisas. Aqui, essa palavra é empregada com o seguinte significado: um ponto de
encontro, um ponto de contato para pessoas com determinados interesses em
comum.]
Com toda certeza um hotspot para
os tradicionais com veneração de santos, procissões e rosários; mas por
favor também um hotspot para os socioecológicos que ainda
acreditam numa sociedade melhor do futuro e que, se não forem interceptadas,
irão migrar para um novo tipo de “religião da natureza”. Mas também um hotspot
para o ambiente jovem acelerado. Jovens que estão
em busca de significado e tendem a combinar ideias e práticas cristãs e
não-cristãs em uma colagem espiritual.
Se a Igreja se dirige aos
diferentes ambientes de acordo com as suas necessidades, em vez de tentar
de alguma forma de comunitarizá-los numa Igreja local sob o domínio dos
ambientes aí presentes, então também poderia voltar a crescer.
Querer sempre alcançar a todos é um
dos princípios orientadores mais letais de nossa Igreja - assim
como a palavra "comunidade". Obscurece mais do que esclarece, exclui
mais pessoas do que acolhe.
É necessária uma proximidade sadia em vez de uma confusão de
ambientes.
Você tem esperança de que a Igreja efetivamente se reoriente e se concentre mais nos ambientes?
Ebertz: Eu sou
bastante cético quanto a isso. Seriam necessários bispos corajosos que
utilizassem adequadamente processos de desenvolvimento da Igreja - ou
poder-se-ia também dizer: processos de reestruturação e desmantelamento.
Certamente há oportunidades na atual reestruturação dos sistemas operacionais pastorais. Poderia haver experimentos, ou seja, simplesmente tentar alguns hotspots espirituais de ambiente. A ciência poderia observar e avaliar isso para que as experiências possam ser úteis em outro lugar. Tratar-se-ia de criar bons exemplos através da experiência.
Como
a pandemia afeta os ambientes e quais são as consequências para a Igreja?
Ebertz: O
Coronavírus foi uma grande provocação para a Igreja - basta pensar na experiência
do impedimento da assembleia litúrgica dominical. Mas as celebrações
digitais são, pelo menos em parte, bem-sucedidas.
O tamanho da comunidade de culto
aumentou em alguns lugares, embora nem todos os membros da Igreja estejam
conectados à Internet. Eu mesmo participei de tais celebrações, onde as pessoas
também puderam acessar os chats e, assim, participar ativamente. Pessoas
de regiões muito diferentes se reuniram.
Uma possibilidade do meio digital é a amplitude - e de se comunicar com pessoas que poderiam não ter se interessado pelas celebrações da Igreja anteriormente. Mas atenção: mesmo aí, muitas vezes ainda domina a ideia de comunidade, em última análise, a Igreja local, em vez de adaptar os formatos de culto digitalizados a ambientes específicos de uma forma que vá além da dimensão local. Mas há outro fato a ser levado em consideração.
Qual?
Ebertz: Estou
surpreso que, depois do Coronavírus, as celebrações presenciais sejam consideradas
a panaceia. Como se não houvesse mais nada. Também nesse caso os ambientes não
são levados em consideração.
Certos ambientes não servem para
uma celebração presencial. Não sabem como se comportar ali. Isso também
significa que as celebrações presenciais excluem.
Portanto, o que poderíamos aprender com o Coronavírus poderia ser multiplicar
os formatos de celebração e de culto.
Os formatos digitais poderiam ser
utilizados para alcançar aqueles ambientes que se definem exclusivamente de
maneira digital.
E as celebrações religiosas são
apenas um exemplo. O decano da cidade de Frankfurt, Johannes zu Eltz, por
exemplo, começa o dia com um impulso espiritual online todas as manhãs.
Por meio da digitalização e das
mídias sociais, existem enormes oportunidades não só de multiplicar
quantitativamente a presença comunicativa, mas de oferecê-la especificamente
para os ambientes.
Há um potencial de crescimento para a Igreja de conectar as pessoas com o evangelho, independentemente do que fizerem com isso. De toda forma, a Igreja não tem mais esse (poder de) controle.
Entrevista reproduzida por Settimana News, 29-07-2021 (na Itália). A tradução do italiano é de Luisa Rabolini.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 27 de julho de 2021 – Internet: clique aqui (Acesso em: 28/07/2021).
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