Análise da Crise Econômica Atual [Excelente síntese!]
Ettore Gotti Tedeschi *
Este texto do ex-presidente do IOR (Instituto para as Obras de Religião, Vaticano) é uma análise reservada encaminhada ao Secretário particular do papa Bento XVI, Mons. Georg Gänswein, em novembro de 2011. Ele emprega o recurso retórico de três perguntas para tornar mais didática e clara a sua apresentação.
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Ettore Gotti Tedeschi - ex-presidente do IOR |
O que provocou a atual crise econômico-financeira?
Resposta: Causou-a uma série de políticas econômicas adotadas progressivamente (nos últimos 30 anos) para sustentar o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) nos chamados países ocidentais em consequência da queda da natalidade. Não crescendo a população, o crescimento econômico pode acontecer (após intervenções sobre a produtividade) somente fazendo crescer o consumo per capita. Este crescimento do consumo per capita ocorreu:
a) deslocando (para a Ásia) a produção industrial, reimportada a menores custos para aumentar o poder de compra;
b) endividando as famílias (o famoso consumismo a débito [com o uso de crédito financeiro]). Este processo de endividamento progressivo se estendeu, em diversos modos, pelos vários países com um endividamento de todo o sistema econômico (das empresas, das instituições financeiras, dos estados). Somente nos últimos 10 anos antes da explosão da crise (de 1998 a 2008), o endividamento médio no mundo ocidental cresceu em cerca de 50 porcento. A eclosão da crise (em 2008) produziu efeitos variados nos diversos países de acordo com o modelo de endividamento provocado. Por exemplo, nos Estados Unidos o endividamento foi realizado, sobretudo, pelas famílias, enquanto na Itália, sobretudo, pelo Estado. A fim de tentar resolver o problema deste endividamento, nos Estados Unidos, se "nacionalizou", progressivamente, o débito (isto é, o Estado absorveu o excesso de débito salvando os bancos que estavam falindo porque as famílias não pagavam as dívidas). Na Europa, mas sobretudo na Itália, se "privatizou" o débito feito pelos governos, bancos e empresas, fazendo o cidadão pagá-lo (através de taxas zero de juros e, agora, com o espectro de uma "patrimoniale" [= imposto que incide sobre os bens imóveis e, mesmo, móveis dos cidadãos. É taxada a riqueza acumulada, mesmo após várias gerações]).
Segunda pergunta:
Como evoluiu esta crise nos últimos três anos?
Resposta: De 2008 até hoje, os países ocidentais endividados prometeram aos cidadãos, e procuraram com expedientes variados, reduzir o débito, sem consegui-lo. Não podiam consegui-lo porque faltavam, sobretudo, os fundamentos do crescimento econômico (o crescimento da população). Os Estados Unidos e os países europeus se recusaram a diminuir o débito através da opção (verdadeira e única) da austeridade (para reconstituir os fundamentos do crescimento e para absorver um crescimento anterior falso e insustentável, tornado débito não pagado) e tentaram vários caminhos. Admitindo que [esses caminhos] eram impraticáveis, quem era e é em posição superior (os Estados Unidos) buscou transferir os seus problemas para outros países menos fortes (europeus). Os bancos dos Estados Unidos, se supõe que para se recuperar e lucrar, começaram a especular sobre os títulos de Estado dos países mais endividados europeus. O primeiro país europeu colocado em dificuldade graças à especulação (obviamente, graças também a desequilíbrios de orçamento e alguns truques para entrar no Euro) foi a Grécia. A incerteza europeia na salvação da Grécia e o seu "default-guiado" [calote conduzido] criou desconfiança sobre a Europa nos mercados internacionais. Esta desconfiança provocou um custo maior progressivo do débito, quando a cada vencimento o débito público devia ser renovado. Mesmo um país como a Itália, que tem um equilíbrio patrimonial do Estado e uma forte poupança privada (que ultrapassa em 5 vezes o débito publico) e é potencialmente solvente, se acha em dificuldade na renovação das emissões, e se depara com a exigência de aumentar o custo dos juros a cada emissão (spread).
Terceira pergunta:
A que ponto da crise estamos hoje?
Resposta: Uma resposta sintética encontra-se num valor significativo e simbólico, ao mesmo tempo: em setembro [2011] os títulos de Estado italianos eram emitidos com taxa de 3,6 porcento, hoje a mais de 6 porcento, quase o dobro. Em julho deste ano, após as incertezas de salvamento da Grécia e o discurso de Obama [presidente dos EUA] sobre o possível calote dos bancos italianos, era evidente que todas as circunstâncias portavam um risco iminente para o nosso país e, por isso, a exigência de intervenções adequadas e imediatas. No entanto, não aconteceram. Não se quis reconhecer que a Itália, como país europeu que aceitou o euro e deveria observar coerentemente as regras impostas para ser "compliant" (conforme as regras acordadas), devia necessariamente respeitá-las para a estabilidade de todo o sistema. Estas regras tinham sido aceitas e não estavam mais em renegociação. Essas regras se concretizavam, e se concretizam, em necessárias reformas. Foi-nos solicitado, não tanto, de reduzir o débito público, mas sim, demonstrar de querer reduzi-lo aplicando reformas orientadas a um maior rigor nas contas e nas prospectivas para o crescimento (carta BCE [Banco Central Europeu]: reforma das aposentadorias, reforma nas leis trabalhistas, liberalizações, combate à evasão fiscal...).
Por que não o fizemos, não obstante o compromisso assumido?
Porque o nosso país [a Itália] tem como problemas estruturais exatamente aqueles onde nos pedem para aplicar as reformas (baixa produtividade, alta rigidez e custo do trabalho, alto gasto público para o welfare de Estado, alta economia subterrânea e evasão fiscal), onde vários setores sociais e políticos têm dificuldade em permitir acordos (sindicatos, partidos políticos, variados lobbies).
Tradução do italiano por Telmo José Amaral de Figueiredo.
* Ettore Gotti Tedeschi (nasceu em Pontenure, no dia 3 de março 1945) é um economista e banqueiro italiano. Foi, dentre outras funções no mercado financeiro, o principal executivo do banco Santander na Itália. De 2009 a 2012 desempenhou a função de presidente do Instituto para as Obras de Religão, o IOR, tido como uma espécie de "banco" do Vaticano.
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Fonte: Gianluigi Nuzzi. Sua Santità. Milano: Chiarelettere, 2012. pp. 247-249, nota 6 (edição impressa).
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