Para onde vão as revoluções no mundo árabe?

Juliane Von Mittelstaedt, Christoph, Alexander Smoltczyk, Bernhard Zand
Der Spiegel (Alemanha)

Os rebeldes avançaram para o centro de Damasco. Entraram na garagem do Palácio da Justiça e numa base da Guarda Republicana próxima ao palácio presidencial. Síria e Turquia posicionaram tanques e baterias antiaéreas na fronteira. "Estamos em guerra", disse, na terça-feira, o presidente sírio, Bashar Assad, quando se reuniu com seu recém-nomeado gabinete.
Mohamed Bouazizi no hospital na Tunísia - dezembro de 2010
Um ano e meio depois de o tunisiano Mohamed Bouazizi ter se imolado e do torpor do despotismo árabe ser interrompido, as visões otimistas do futuro ocorridas naqueles primeiros meses são hoje obsoletas. Os líderes de quatro países, Zine al-Abidine Ben Ali (Tunísia), Hosni Mubarak (Egito), Muamar Kadafi (Líbia) e Ali Abdullah Saleh (Iêmen), foram depostos, condenados ou mortos. Um quinto líder, o sírio Bashar Assad, ao que parece está travando uma batalha perdida pela sobrevivência.
Esperança e medo. 
A esperança de que o mundo árabe se tornaria democrático tão rapidamente quanto a Europa Oriental 20 anos atrás não se realizou. Mas os temores de que os países do Norte da África e do Oriente Médio mergulhariam no caos um após o outro também não se materializaram.
Em vez disso, o quadro é mais confuso do que nunca. Em Damasco e Alepo, uma burguesia secular - a mesma que apoiou os outros levantes - teme as consequências caso Assad seja derrubado. A família real que governa a vizinha Jordânia comporta-se como se não fosse afetada pelos tumultos gerais. O Iêmen, um país tribal que depôs seu presidente de longa data, está sendo exaltado como modelo de uma transição pacífica, apesar de a Al-Qaeda por vezes controlar províncias inteiras do país. E na Tunísia, a terra da Revolução de Jasmim, cinemas estão sendo destruídos e bordéis queimados.
Tradução: "Lá se vai o bairro!" - Nos cartazes: "Democracia", "Liberdade", "Tunísia".
A ascensão do Islã 
A Tunísia chegou relativamente longe. O país tem um Parlamento eleito, um governo dominado pelo partido islâmico Ennahda, um presidente secular e um Exército que monitora o processo de transição sem forçar sua passagem para o primeiro plano. Por ironia, é precisamente na Tunísia, onde a Primavera Árabe começou, que está ficando claro que a liberdade política não vem necessariamente acompanhada de liberdade cultural. A Tunísia sempre foi o mais ocidentalizado dos países árabes, um forte bastião contra a corrente islâmica da história árabe mais recente. Poligamia e casamentos de crianças foram proibidos, havia educação sexual nas escolas e o sistema de ensino era considerado o melhor da região. Filmes pornográficos leves eram exibidos em cinemas de Túnis e as prostitutas da região antiga da cidade pagavam impostos e tinham documentos emitidos pelo Ministério do Interior.
Mas, apenas alguns dias após a deposição de Ben Ali, uma autonomeada "polícia da moralidade" apareceu no bairro da luz vermelha de Túnis, onde os policiais atiraram coquetéis Molotov em bordéis e ameaçaram as mulheres. Duas semanas atrás, um grupo de salafistas invadiu a exposição Primavera das Artes. A violência foi desencadeada por um quadro em que formigas formavam as palavras "Graças a Deus".
No Egito, que seguiu as pegadas da Tunísia, o Islã político saiu fortalecido de uma revolução na qual ele não desempenhou nenhum papel, ao menos no começo. A Irmandade Muçulmana e os salafistas radicais venceram a primeira eleição parlamentar livre do país por grande maioria. Seus representantes extremistas fizeram uma declaração que, se fosse cumprida, transformaria o país numa república islâmica: a introdução incondicional da sharia, a lei islâmica. O Egito está vivendo uma luta entre instituições que poderia ser descrita, com reservas, como uma adoção egípcia do conceito de equilíbrio de poderes.
Sede por democracia na Líbia
Saif al-Islam Kadhafi 
Muamar Kadafi não deixou nem mesmo os fundamentos de um Estado operacional. O país realizou ontem suas eleições para um Congresso que nomeará um novo governo interino e um conselho encarregado de escrever o anteprojeto de uma Constituição. A votação já foi adiada uma vez. Mas o país não teve nenhum partido político em 40 anos. O que prosperou sob a fachada grotesca do "Estado das massas" do ditador foram regiões, cidades e tribos que moldam a imagem caótica de que o país hoje desfruta. No início de junho, uma brigada armada ocupou o aeroporto de Trípoli e, alguns dias depois, outra milícia prendeu funcionários do Tribunal Penal Internacional. Eles tinham visitado Saif al-Islam, o filho de Kadafi que está preso em Zintan desde novembro - 1 dos mais de 4 mil líbios mantidos prisioneiros por milícias por todo o país.
O ativista de direitos humanos Hana al-Gella admite que a Líbia está presa num círculo vicioso. "Não estamos realmente preparados para realizar eleições", diz. "Mas precisamos de um governo legítimo para superar o caos." Os líbios estão aparentemente decididos a ter uma democracia. Cerca de 80% dos eleitores qualificados registraram-se, 2.500 candidatos diretos concorreram além dos 1.200 representantes de mais de 140 partidos que foram virtualmente criados do dia para a noite. Eles competiram por 200 cadeiras num Parlamento que atuará por 18 meses e terá 2 objetivos: nomear um primeiro-ministro e uma comissão constitucional de 60 membros. À primeira vista, parece um bom começo.
Mas uma observação mais atenta revela alguns aspectos perturbadores. Em uma pesquisa realizada pela Universidade Oxford, um terço dos líbios disse preferir o governo de um homem forte. Muitos candidatos são empresários ricos, outros são testas de ferro de políticos - entre os quais, muitos representam a Irmandade Muçulmana, que também é vista como uma força vigorosa e bem organizada na Líbia.
E antes mesmo de ficarem visíveis na futura Assembleia líbia, a força dos partidos religiosos e a fraqueza dos seculares provocaram um conflito que pode colocar em risco a própria eleição. O país é formado por três regiões: Tripolitânia no oeste, Cirenaica no leste e Fezzan no sul. Os políticos do leste sentem-se sub-representados, pois obtiveram direito a somente 60 cadeiras, enquanto 101 cadeiras foram destinadas ao oeste. Na semana passada, um comboio carregando canhões antiaéreos bloqueou a estrada costeira entre Trípoli e Benghazi, deixando claro que a região oriental estava decidida a boicotar a eleição caso suas exigências não fossem atendidas.
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK.
Fonte: ESTADÃO.COM.BR - Internacional - 8 de julho de 2012 - 3h01 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,para-onde-vao--as-revolucoes-no--mundo-arabe--,897328,0.htm

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