O que está acontecendo com a política?

                                   Reacionários x progressistas

 Mariliz Pereira Jorge 

Acreditar que todos os votos que Trump está levando são movidos a ignorância e ódio é ingenuidade. Ou arrogância

Candidatos à Presidência dos Estados Unidos:
Joe Biden (esq.) e Donald Trump (dir.)

Não sabemos ainda quem será o próximo presidente dos Estados Unidos, pelo menos enquanto escrevo. O que ficou claro com a votação apertada é que o país está dividido. O mais simples é achar que, de um lado, estão os reacionários, e, do outro, os progressistas. Parte desses eleitores tem, sim, em Donald Trump o seu próprio reflexo. Se espremer, é puro suco de racismo, machismo, xenofobia, desprezo por instituições e ciência. 

É assustador para quem se acostumou nas últimas décadas a ver que:

* os direitos das minorias,

* a igualdade entre gêneros,

* os avanços sociais e

* as liberdades individuais pareciam conquistas inegociáveis.

Se depender da parte reaça, volta todo mundo para o armário. 

No entanto, acreditar que todos os votos que Trump está levando são movidos a ignorância e ódio é ingenuidade. Ou arrogância. É não entender que parte substancial dos eleitores tem preocupações diferentes das que nós, progressistas, temos. 

O aumento de votos entre negros e mulheres registrado pelo republicano mostra que os apelos dos movimentos identitários nem sempre comovem quem usufrui de suas conquistas. Tem mais: as pessoas primeiro querem emprego, comida na mesa, filho na escola, antes de discutir se falaremos "todos", "todas" ou "todes".

O que acontece nos Estados Unidos deveria ser lição aos partidos e políticos do centro e da centro-esquerda no Brasil.

A eleição de Trump, Bolsonaro e outros aspirantes a ditador nos dão a impressão de que embarcamos num retrocesso incontornável. Verdade que a ascensão desses tiranos pode diminuir o tamanho dos passos, mas o mundo anda para a frente. É um caminho sem volta. 

No dia em que os EUA começaram a contar votos, Oregon deu vitória ao democrata Joe Biden, e o estado foi o primeiro no país a descriminalizar o porte de pequenas quantidades de drogas, incluindo cocaína, heroína e metanfetamina. 

Fonte: Folha de S. Paulo – opinião/colunista – Quinta-feira, 05 de novembro de 2020 – Pág. A2 – Internet: clique aqui (acesso em: 06/11/2020). 

A sombra do populismo

 Maria Hermínia Tavares 

Ganhando ou perdendo eleições, o populismo está aí para ficar

Populistas que usam do povo para seus projetos autoritários:
Donald Trump (Estados Unidos) e Jair Bolsonaro (Brasil)

Se confirmada, a derrota de Donald Trump fará bem à democracia nos Estados Unidos e no mundo. Atestará que a corrosão das instituições representativas não é a única sina dos países que se entregaram a líderes populistas. Tendo ascendido pelo voto livre, podem ser por ele dispensados antes de consumar os seus projetos autoritários. 

Mas o provável resultado das eleições americanas não garante a transferência suave do governo para os democratas. E ainda que ocorra no final das contas, enfraquecerá, mas não erradicará, lideranças que, naquele país ou em qualquer outro, e não apenas nos dias que correm, se afirmam representantes do "povo verdadeiro" — o volk, no jargão nazista — em contraposição a elites cosmopolitas, surdas aos anseios das pessoas comuns. Em seu nome, os populistas agem para solapar as regras que limitam o poder dos governantes e garantem os direitos de todos, inclusive das minorias. 

A Itália oferece um exemplo da força e resiliência do fenômeno. Desde que o sistema de partidos do segundo pós-Guerra, ancorado na Democracia Cristã, veio abaixo nos anos 1990, políticos populistas, ora no governo, ora na oposição, tornaram-se participantes destacados da vida política do país. Casos de Silvio Berlusconi, Giuseppe Conte, Matteo Salvini, Beppe Grillo, à frente de diferentes partidos — Força Itália, Liga Norte, Liga, Movimento 5 Estrelas — com significativa projeção eleitoral. 

"O populismo é uma sombra permanente da moderna democracia representativa" diz o historiador alemão Jan Werner Müller, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Alimenta-se do que o filósofo italiano Norberto Bobbio chamou de promessas não cumpridas da democracia.

Populistas exploram expectativas frustradas e variados temores, reais ou imaginários:

* do desemprego,

* da destituição,

* dos imigrantes,

* dos negros,

* dos pobres,

* dos esquerdistas ateus. E se beneficiam da exposição às feias engrenagens da política por parte de um público mais informado. 

O fato é que, já há algumas décadas, a desconfiança dos cidadãos e m face de partidos, parlamentos e governos só faz crescer em todo o mundo democrático. No Brasil, a propósito, é assustadoramente elevada. Cidadãos insatisfeitos e desconfiados são mais sensíveis a políticos, tanto faz se de direita ou de esquerda, para os quais a vitória eleitoral é só o que conta, não passando de um estorvo os mecanismos de controle do poder típicos do sistema representativo. 

Ganhando ou perdendo eleições, o populismo está aí para ficar. Mas fará toda a diferença para a democracia sempre que for batido nas urnas. 

Fonte: Folha de S. Paulo – opinião – Quinta-feira, 05 de novembro de 2020 – Pág. A2 – Internet: clique aqui (acesso em: 06/11/2020).

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