Europa, salve-se quem puder
VINICIUS TORRES FREIRE
Secessão na zona do euro começa a entrar em debate; mais bancos passam a fugir da dívida pública italiana
O IMPENSÁVEL tornou-se uma hipótese: o euro pode ter entrado em fase de liquidação. Desde ontem, a mídia financeira na Europa passou a noticiar rumores de que o núcleo rico e/ou menos endividado da eurozona pensa na secessão monetária. Ou seja, em se livrar de alguns países-problema, como a Grécia.Como amputar países-membros? Qual utilidade imediata de tal medida? Mistério. Mas a boataria é ruidosa e confirmada por diplomatas em Bruxelas, Paris e Lisboa.
Faz uns dois meses, surgira uma conversa sobre "euro norte" e "euro sul". O "sul" seria o cercado onde seria posta a Europa do Mediterrâneo, afora a França, e Portugal.
A história não foi levada a sério, dadas as intenções manifestas da Alemanha de manter intacta a zona do euro, o que, em outras palavras, indicava a crença alemã de que conseguiria enquadrar a Grécia e de que a terapia daria resultado.
Mas o pacote de "socorro" (socorro!) à Grécia mal durou de julho a outubro. Os donos do dinheiro grosso, os "mercados", não acreditaram nem que a União Europeia conseguiria arrumar € 1 trilhão para bancar os países semiquebrados nem que o "perdão" da dívida grega daria certo (se é que os "mercados" aceitariam de fato perder mais ou menos metade do dinheiro enterrado na Grécia). Tal descrença e Silvio Berlusconi [foto ao lado] empurraram a Itália para o abismo. Salvar a Itália, se é que possível, custaria tanto que a impensável secessão do euro entrou no radar.
Antes disso, os líderes de União Europeia, Alemanha, França e o Banco Central Europeu tentam as últimas cartadas: ou seja, intervenção nos governos grego e italiano.
A Comissão Europeia deu um ultimato aos parlamentares gregos, exigindo compromisso com o pacote de julho, sem o que a Grécia não verá a cor da nova parcela do empréstimo. Além do mais, a União Europeia tentou nomear um interventor como premiê, Lucas Papademos, ex-vice presidente do BCE.
No caso da Itália, "sugerem" sem sutileza que o país desista de fazer eleições tão cedo ou antes de se comprometer com o pacote de "reformas" prometido por Berlusconi (privatizações, liberalização do mercado de trabalho, reforma previdenciária etc). Além disso, tentaram empurrar outro eurotecnocrata para o posto de premiê. Trata-se do ultraliberal Mario Monti, comissário europeu para duas pastas econômicas menores entre 1995-2004.
Ao que parece, os líderes da eurozona talvez consigam fazer gregos e italianos engolir as "reformas", mas não vão nomear os interventores que desejavam. De qualquer modo, vai funcionar?
Apesar de hiperendividada, a Itália não é um caso financeiro perdido, pelo menos não no curto prazo. Mas a inépcia europeia no tratamento da Grécia levou o mercado a fugir da Itália também. O problema italiano agora não é bem o custo alto (os tais 7%) que teria de pagar para refinanciar sua dívida (não está tendo de pagar isso, agora).
Importa mais o impacto dessa desconfiança da dívida italiana sobre a banca. Bancos usam a dívida soberana (do governo da Itália) como garantia para empréstimos que tomam. Se a dívida vale menos, pegam menos dinheiro. Logo, ficam menos dispostos a comprar dívida do governo italiano (a emprestar).
É uma espiral da morte.
Fonte: Folha de S. Paulo - Mercado - Quinta-feira, 10 de novembro de 2011 - Pg. B4 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1011201109.htm
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Juros da dívida de Itália ultrapassam 7%.
''Este é o caminho para o fim do euro'', afirma Krugman
esquerda.net
09.11.2011
Os juros das dívidas de Itália, Espanha e França dispararam. As bolsas estão afundando em todo o mundo. O economista Paul Krugman [foto ao lado], prêmio Nobel da Economia em 2008, diz que “este é o caminho para o fim do euro” e defende que a “salvação do euro depende de uma mudança radical na política do BCE”.
Juros das dívidas da Itália ultrapassaram a barreira dos 7%, mas a subida atingiu significativamente também os juros das dívidas de Espanha e França. Krugman numa nota publicada nesta quarta feira no jornal The New York Times, responsabiliza os “líderes europeus” pela política adotada.
Os juros da dívida de Itália ultrapassaram os 7%, chegando até a 7,6%, enquanto os da dívida espanhola atingiram os 5,84%, aproximando-se da barreira dos 6%. A diferença entre os juros da dívida francesa e da dívida alemã bateram também um recorde, atingindo pela primeira vez 148 pontos base (1,48 em percentagem). A diferença dos juros da dívida espanhola em relação à alemã atingiram os 400 pontos base (4%), enquanto os da dívida italiana chegaram aos 500 pontos.
Os índices bolsistas caíram igualmente em toda a Europa e também em Nova Iorque. Em Lisboa, o índice bolsista PSI-20 voltou a cair 1,25%, com as ações dos bancos a atingirem novos mínimos históricos.
Krugman na sua nota considera ainda que a política adotada este ano pelo Banco Central Europeu vai ficar para a história como um “exemplo clássico de idiotice política”. E, concluindo, diz que acha difícil acreditar que o euro falhe, mas considera igualmente difícil que a Europa faça o que “é necessário para evitar a falência”.
Krugman defende que a “salvação do euro depende de uma mudança radical na política do BCE”.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - 10/11/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=49276
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A Força do Silêncio
Junior Velani *
A companhia de flamenco “Antônio Gades”, que recentemente se apresentou em diversas capitais brasileiras, misturando a tradição da dança flamenca com o modernismo introduzido pelo seu fundador, produz sons no silêncio, ou seja, emite-os simplesmente ao dançar, por meio dos passos firmes de seus bailarinos, que, sem o acompanhamento da música, e movidos pelo sangue quente e olhares certeiros, captam o público de uma forma intensa.
Intensidade e sangue quente também não têm faltado na reunião do G-20, que se realiza [realizou] em Cannes, na França. No entanto, os líderes das principais potências mundiais não demonstram mais nenhuma firmeza nos seus passos. Barack Obama, dos Estados Unidos, mantém a aparência da prosperidade, com o sorriso largo e a desenvoltura de um grande bailarino, mas, ao lado de Ângela Merkel, da Alemanha, e Nicolas Sarkozy, da França, vem sofrendo com o descompasso dos demais líderes europeus na busca de soluções para a crise econômica mundial.
O presidente do governo espanhol, José Luis Zapatero, embora conheça a tradição flamenca como ninguém, uma vez que a dança é um dos símbolos do seu país, perdeu a agilidade e a desenvoltura na execução dos movimentos que caracterizam um típico bailarino flamenco, e, assim como o primeiro ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, dá os primeiros passos de um fado melancólico embalado pelas políticas de resgate econômico que lhe foram impostas.
A Itália, por sua vez, vê o seu primeiro ministro, Silvio Berlusconi, perder completamente o apoio do seu público e sinalizar um arremate (nomenclatura usada para configurar o fechamento de uma movimentação de corpo na dança): já informou que não concorrerá mais ao cargo nas próximas eleições em fevereiro de 2012 [acaba de demitir-se]. Que entre na dança, Angelino Alfano, ex-ministro da Justiça e atual secretário geral do partido “Povo da Liberdade” italiano – seu provável sucessor!
Assim como pregava Antônio Gades [foto acima], ao revolucionar a dança flamenca, será fundamental que os líderes dos principais países extraíam da “dança” a sua essência, refutando os virtuosismos e o que for supérfluo, para evitar um sonoro silêncio no baile da economia mundial.
* Junior Velani é contador e advogado, diretor do Grupo Velani, São José do Rio Preto, SP.
Fonte: Velani - Contabilidade e Assessoria - Sexta-feira, 11 de novembro de 2011 - Internet: http://blogvelani.blogspot.com/
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