Cinco mitos sobre a Primavera Árabe

FOUAD AJAMI
THE WASHINGTON POST 

Há muitos comentários sobre as causas do levante, em parte equivocados

Quando, há um ano, começou a Primavera Árabe, o mundo ocidental ficou chocado. Até então, superficialmente, a impressão geral era que a liberdade tinha deixado os árabes para trás e eles pareciam resignados com a tirania. Mas assim que os levantes começaram foi impossível contê-los, instalou-se a desordem e brotaram as promessas nas ruas do mundo árabe. Desde então, as rebeliões provocaram rios de comentários e lugares comuns sobre a Primavera Árabe - em parte bastante equivocados. Vejamos o que havia realmente por trás das revoltas.


1. O discurso de Barack Obama no Cairo, em 2009, foi um dos elementos que inspiraram a Primavera Árabe.


Nada poderia estar mais longe da verdade do que isso. Na época em que as rebeliões eclodiram, o romance entre árabes e muçulmanos e Obama havia se dissipado há muito tempo. O presidente americano esteve no Cairo em junho de 2009 prometendo um novo enfoque americano para o mundo árabe-muçulmano. Mas os aguerridos liberais do mundo árabe (e do Irã) não se deixaram enganar. Embora Obama prometesse "um novo começo para as relações entre os EUA e os muçulmanos em todo o mundo, com base nos interesses e no respeito mútuos", os árabes perceberam que o novo líder estava muito à vontade com a situação. Obama procurou melhorar as relações dos Estados Unidos com a Síria e o Irã, e tratou de enterrar rapidamente a "diplomacia da liberdade" de George W. Bush.
Os árabes rapidamente perceberam que o cosmopolitismo de Obama - o pai queniano, os anos passados na Indonésia - servia de disfarce para um político preocupado com os problemas internos do seu país.


2. Estas são as revoluções do Facebook e do Twitter.


O Facebook e o Twitter ofereceram aos jovens dissidentes a possibilidade de comunicar entre si para atropelar as autocracias. Quando Wolf Blitzer da CNN perguntou a Wael Ghonim, o jovem executivo do Google que simbolizava a revolta da Praça Tahrir no Cairo, o que aconteceria após a queda de Hosni Mubarak, Ghonim respondeu: "Pergunte ao Facebook". Foram homens e mulheres comuns que depuseram o faraó. Estas rebeliões foram inflamadas pelos elementos tradicionais: as multidões que saíam das mesquitas após as orações da sexta-feira nas cidades sitiadas da Síria; o teste das vontades entre regimes brutais e os indivíduos dotados de coragem suficiente para desafiar o poder; e os jovens de Deraa, Homs e Hama que venceram a cultura do medo e contestaram o despotismo.
Mohammed Bouazizi, o jovem verdureiro tunisiano que se imolou em dezembro de 2010, não tinha uma página no Facebook.
Ele tinha motivos de sobra para estar indignado e desesperado. Deveríamos deixar de valorizar tanto a tecnologia, afinal, a penetração da internet no mundo árabe ainda é modesta.


3. O governo Obama sacrificou Mubarak.


O presidente egípcio foi o responsável por sua própria queda. Washington supôs que Mubarak domaria a tempestade. O Egito, um país paciente, deu a Mubarak 30 anos. Em troca, o governante brincou com o seu povo e o menosprezou. Ele se instalou no topo de um regime sem lei e nunca designou um sucessor legítimo. (Até a pessoa mais obtusa sabia que ele pretendia transmitir o poder ao filho favorito.) Neste drama egípcio, os políticos de Washington limitaram-se ao papel de meros espectadores.


4. A queda de Saddam Hussein no Iraque inspirou a Primavera Árabe.


Por ter apoiado a guerra do Iraque, gostaria de poder fazer esta ligação. Mas o Iraque, contrariamente às esperanças e às afirmações dos conservadores que defendiam a guerra, não é relevante para a Primavera Árabe.
Quando os protestos começaram no final de 2010, o Iraque já não despertava a atenção do mundo árabe.
O sangue era derramado nas ruas do país, havia sectarismo, e poucos os árabes consideravam o primeiro-ministro Nuri al-Maliki um importante líder de uma nova cultura política.
A Praça Tahrir inspirou outros levantes, pois o Egito sempre foi um pioneiro na vida política e cultural árabe.
Ocorre que o Iraque é um lugar peculiar. São pouquíssimos os árabes de outras partes do mundo, se é que há algum, que poderiam se identificar com o levante naquele país.


5. As rebeliões comprometerão ainda mais as perspectivas do processo de paz árabe-israelense.


É verdade que baderneiros invadiram a Embaixada de Israel no Cairo depois da queda de Mubarak. Mas o entendimento árabe-israelense nunca chegou a florescer no tempo das ditaduras.
Os líderes das rebeliões árabes talvez não sejam defensores fervorosos da paz com Israel, mas hoje já reconhecem que as ditaduras usaram o conflito com Israel como um álibi conveniente para seus fracassos políticos e econômicos. 


* FOUAD AJAMI [foto acima] É MEMBRO SÊNIOR DA HOOVER INSTITUTION DA UNIVERSIDADE DE STANFORD.


TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA.


Fonte: O Estado de S. Paulo - Internacional - Quinta-feira, 19 de janeiro de 2012 - Pg. A14 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,cinco-mitos-sobre--a-primavera-arabe-,824499,0.htm

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