Homilia: Domingo da Epifania do Senhor
Noël Quesson
Evangelho: Mateus 2,1-12
Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo do rei Herodes...
Essas são as únicas palavras, bem curtas, pelas quais Mateus fala do Natal. É pouco! De fato, Mateus parece interessar-se muito pouco ao acontecimento enquanto tal, diferentemente de Lucas. Ao invés, Mateus busca, manifestamente, dar a seus leitores o "significado" deste nascimento. E ele nos fornece este significado na narrativa dos magos... que ele desenvolveu extremamente, e que, se prestarmos atenção, se apresenta como uma espécie de introdução a todo o evangelho segundo São Mateus.
... eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando: "Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer?"
Mateus aproxima, como dois elementos explosivos, os dois títulos: o rei Herodes... o rei dos judeus... Esta pergunta, que uns estrangeiros iam repetindo pelas estreitas ruas de Jerusalém, devia soar aos ouvidos dos judeus como um cruel sarcasmo. Compreende-se que ela disturbava o suspeitoso Herodes. Sabemos, pela história, que ele passou toda sua vida com medo de perder seu poder, e que ele via complôs por todos os lados, passando sua vida somente em "fortalezas", mandando matar seus três filhos, sua sogra e, inclusive, sua mulher. Somente por "história".
Mas o significado que Mateus dá a esse título de "Rei dos judeus" é muito mais profundo; o "Reino dos céus" será um de seus temas favoritos. Mateus, desde o início, anuncia o Rei desse Reino. Desde esta primeira página de seu evangelho, há uma coroa real em disputa: quem é, realmente, o "rei" dos judeus? Herodes, o governante poderoso, assassino e violento? Ou antes, Jesus, esse pequeno, fraco, desarmado, que morrerá vítima inocente? É na última página de seu evangelho, de acordo com um procedimento de inclusão literária muito habitual na literatura semítica, que Mateus dará novamente esse título a Jesus de "rei dos judeus". "Salve, rei dos judeus!" dirão os soldados (Mt 27,29). "Este é o rei dos judeus" fará escrever Pilatos acima da cabeça de Jesus crucificado, para indicar o "motivo de sua condenação" (Mt 27,37). "Se é o rei dos judeus, que ele desça da cruz" se desatarão a rir todos os escribas e grandes sacerdotes (Mt 27,37).
Desde o seu nascimento, nos sugere Mateus, Jesus não passa de um rei humilde, imagem do "Servo sofredor" de Isaías, esse "teu rei vem a ti, manso e montado num jumento" (Mt 21,5) para o seu triunfo passageiro dos ramos, este rei que não veio "para ser servido, mas para servir" (Mt 20,28), e que pedirá a seus amigos de "não dominar, mas se fazer servidores" (Mt 20,25-26). A realeza deste rei não é deste mundo, ela não se assemelha em nada àquela de Herodes: ela não se revela a não ser, paradoxalmente, na sua Paixão. O que queremos quando repetimos essas palavras em nossa oração: "Venha a nós o vosso Reino!"... "que convosco vive e reina para sempre".
Nós vimos a sua estrela no Oriente...
A Igreja coloca junto, hoje, desta narrativa da Epifania, um texto de Isaías escolhido entre os inumeráveis textos bíblicos que anunciavam a vinda do Messias como uma "luz". "De pé! Deixa-te iluminar! Chegou a tua luz! A glória do SENHOR te ilumina. Sim, a escuridão cobre a terra, as trevas cobrem os povos mas sobre ti brilha o SENHOR, sobre ti aparece sua glória. As nações caminharão à tua luz, os reis, ao brilho do teu esplendor" (Is 60,1-3). Recordamos desta luz messiânica cantada no tempo do Advento e na missa da noite de Natal: "O povo que andava na escuridão viu uma grande luz, para os que habitavam as sombras da morte uma luz resplandeceu. Pois nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado" (Is 9,1.5).
Há no tema da estrela todo um significado, que São Pedro explicitará quando falará da Fé como "levantar-se a estrela da manhã em vossos corações" (2Pd 1,19). Esta estrela representa a luz de Deus, a graça de Deus, a ação de Deus no coração e espírito de todo ser humano, e que guia todo homem para o Cristo. Sim, Deus via com amor os magos pagãos que caminhavam para Jesus. Em minha vida, há também uma graça que me guia em direção a Jesus. Eu tenho coragem de segui-la até onde ela me conduz?
... e viemos prostrar-nos diante dele.
"Prostrar-se!" Este verbo, utilizado três vezes nesta passagem por Mateus, indica a atitude profunda desses magos pagãos. Eles vêm para "adorar".
E eu? Prostro-me às vezes? Diante do quê? Diante de quem? Que significado dou à minha prostração no momento da elevação durante a missa? Os jovens, atualmente, reencontram este grande gesto da prostração, onde o homem, reconhecendo a sua pequenez, se esparrama completamente pelo solo numa adoração com todo o seu ser.
Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém. Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer.
No coração da narrativa da Epifania, Mateus propõe duas "atitudes", que tornaremos a encontrar constantemente ao longo de seu evangelho:
- De um lado, a "recusa" dos chefes políticos e religiosos judeus. Eles deveriam ser os primeiros a reconhecer o Messias. Ora, o que eles fazem? Eles "têm medo", eles "se inquietam". Eles não se movem! Eles vão procurar, desde o início, matar Jesus. Acreditamos já ouvir o grande grito de tristeza que Jesus lançará sobre Jerusalém: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos como uma galinha reúne seus pintainhos debaixo das asas, mas não quisestes!" (Mt 23,27.37).
- Doutro lado, em contraste, "a acolhida" feita por esses magos pagãos. Menos preparados, entretanto, para reconhecer o Messias, são eles que o procuram, que se movem, e que, longe de "se inquietar", experimentam "uma grande alegria". Acreditamos já poder ouvir a própria conclusão do evangelho de Mateus: "Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações..." (Mt 28,19).
Certamente, os "magos" representam todos os pagãos (e todos os incrédulos) de todos os tempos. E nessas palavras não colocamos algum sentido pejorativo, ao contrário! Eles são numerosos entre os nossos amigos, que são perfeitamente sinceros em suas convicções, que possuem uma vida correta, têm o sentido de justiça e do serviço aos outros, que têm uma vida familiar exemplar, e executam perfeitamente suas responsabilidades profissionais. Entretanto, eles não conhecem Jesus Cristo, no sentido forte. A Epifania é a festa de todos aqueles que não conhecem Jesus, de todos aqueles cuja fé é diferente da nossa, e que Deus ama, e que Deus ilumina, e que Deus atrai a ele pela sua graça invisível. Mas nós, como os julgamos?
... pois assim foi escrito pelo profeta: "E tu Belém, terra de Judá... de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo".
Por que, digam-me, a estrela não conduziu os magos, já que era o caso, diretamente a Belém, junto a Jesus? Por que esse desvio por Jerusalém, pelos "escribas e os sacerdotes"? Porque Deus é fiel às suas promessas e, se a salvação é oferta a todos, ele vem por intermédio dos judeus (Romanos 9).
Esse desvio por Jerusalém tem um significado, ele também. É que não se pode fazer a economia da "Palavra de Deus", da "Escritura", senão por um encontro explícito com Cristo. E nós? Meditamos incansavelmente a Palavra? Os "escritos"?
Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes... retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho.
O "culto" é uma das funções essenciais da Igreja: o verdadeiro culto é aquele de "consagrar a Deus o fruto do trabalho do homem e da terra", e portanto, finalmente, todos os valores dos quais vivem as civilizações. O encontro com Cristo transforma uma vida: uma outra estrada se abre...
Que boa notícia, Senhor!
Tradução do francês: Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
Fonte: Noël Quesson. Parole de Dieu pour Chaque Dimanche. Année A. Limoges: Droguet et Ardant, 1983. pp. 42-46.
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