2º Domingo da Quaresma – Ano A – HOMILIA
Evangelho:
Mateus 17,1-9
4 Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom
ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para
Moisés e outra para Elias”. 5
Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua
sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus
todo o meu agrado. Escutai-o!”
6 Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito
assustados e caíram com o rosto em terra. 7
Jesus se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos e não tenhais medo”.
8 Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém,
a não ser somente Jesus. 9 Quando
desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não conteis a ninguém esta visão até
que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”.
![]() |
"Transfiguração" - pintura de Giovanni Bellini (1487-1495) |
ESCUTAR JESUS
O centro desse relato
complexo, chamado tradicionalmente de “A
transfiguração de Jesus”, é ocupado por uma voz que vem de uma estranha “nuvem
luminosa”, símbolo que se emprega na Bíblia para falar da presença sempre
misteriosa de Deus que se manifesta e se oculta a nós, ao mesmo tempo.
A voz dez estas
palavras: “Este é o meu Filho, o amado, meu predileto. Escutai-o”. Os discípulos não devem confundir Jesus com
ninguém, nem sequer com Moisés e Elias, representantes e testemunhas do
Antigo Testamento. Somente Jesus é o Filho querido de Deus, aquele que tem o
seu rosto “resplandecente como o sol”.
Porém, a voz acrescenta
algo mais: “Escutai-o”. Em outros tempos, Deus havia revelado a sua vontade
por meio dos “dez mandamentos” da Lei. Agora,
a vontade de Deus se resume e concretiza em um só mandamento: escutai a Jesus.
A escuta estabelece a verdadeira relação entre os seguidores e Jesus.
Ao ouvir isto, os
discípulos caem por terra “cheios de espanto”. Estão sobrecarregados por aquela
experiência tão próxima de Deus, porém estão, também, assustados pelo que
ouviram: poderão viver escutando somente a Jesus, reconhecendo somente nele a
presença misteriosa de Deus?
Então, Jesus “aproxima-se
e, tocando-0s, lhes diz: Levantai-vos. Não tenhais medo”. Jesus sabe
que eles necessitam experimentar sua
proximidade humana: o contato de sua mão, não somente o resplendor divino
de seu rosto. Sempre que escutamos Jesus no silêncio de nosso ser, suas
palavras nos dizem: Levanta-te, não
tenhas medo.
Muitas pessoas somente
conhecem Jesus por ouvir. Seu nome lhes resulta, talvez, familiar, porém o que
sabem dele não vai muito além de algumas recordações e impressões da infância.
Inclusive, ainda que se chamem cristãos, vivem sem escutar em seu interior a
Jesus. E, sem esta experiência, não é possível conhecer sua paz inconfundível
nem sua força para animar e sustentar nossa vida.
Quando um crente se
detém a escutar, em silêncio, a Jesus, no interior de sua consciência, escuta
sempre algo como isto: “Não tenhas medo.
Abandona-te com toda simplicidade no mistério de Deus. Tua pouca fé basta. Não
te inquietes. Se me escutas, descobrirás que o amor de Deus consiste em estar
sempre te perdoando. E, se crês nisto, tua vida mudará. Conheceras a paz do
coração”.
No livro do Apocalipse
pode-se ler assim: “Olha, estou à porta e bato; se alguém ouve minha voz e me abre a porta,
entrarei em sua casa”. Jesus bate à porta de cristãos e não cristãos.
Podemos abrir-lhe a porta ou podemos rejeitá-lo. Porém, não é a mesma coisa
viver com Jesus e sem ele!
MEDO DE JESUS
[...]
É difícil esconder isso,
mas na Igreja temos medo de escutar Jesus. Um medo soterrado que nos está
paralisando ao ponto de impedir-nos, atualmente, de viver com paz, confiança e
audácia atrás dos passos de Jesus, nosso único Senhor.
Temos medo da inovação, porém não do imobilismo que nos está
distanciando, cada vez mais, dos homens e mulheres de hoje. Costuma-se dizer que a
única coisa que temos de fazer nestes tempos de profundas mudanças é conservar
e repetir o passado. O que existe atrás
deste medo? Fidelidade a Jesus ou medo de pôr em “odres novos” o “vinho
novo” do Evangelho?
Temos medo de umas
celebrações mais vivas, criativas e expressivas da fé dos crentes de hoje,
porém nos preocupa menos o tédio
generalizado de tantos bons cristãos que não podem sintonizar-se nem vibrar
com aquilo que se está celebrando. Somos mais fiéis a Jesus observando minuciosamente
as normas litúrgicas, ou nos dá medo “fazer memória” dele celebrando nossa fé
com mais verdade e criatividade?
Temos medo da liberdade
dos fiéis. Inquieta-nos que o povo de Deus recupere a palavra e diga, em voz
alta, suas aspirações, ou que os leigos assumam sua responsabilidade escutando
a voz de sua consciência.
Em alguns, cresce o
receio diante de religiosos e religiosas que buscam ser fiéis ao carisma
profético que receberam de Deus. Temos medo de escutar o que o Espírito possa
estar dizendo a nossas igrejas? Não temos medo de extinguir o Espírito no povo
de Deus?
Em meio à sua Igreja,
Jesus continua vivo, porém necessitamos sentir com mais fé sua presença e
escutar com menos medo suas palavras: “Levantai-vos.
Não tenhais medo”.
Tradução do espanhol
por Telmo José Amaral de Figueiredo.
Comentários
Postar um comentário