2º Domingo da Quaresma – Ano A – HOMILIA

Evangelho: Mateus 17,1-9

Naquele tempo, 1 Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. 2 E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. 3 Nisto apareceram-lhe Moisés e Elias, conversando com Jesus.
4 Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. 5 Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!”
6 Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. 7 Jesus se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos e não tenhais medo”.
8 Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. 9 Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
"Transfiguração" - pintura de Giovanni Bellini (1487-1495)

ESCUTAR JESUS

O centro desse relato complexo, chamado tradicionalmente de “A transfiguração de Jesus”, é ocupado por uma voz que vem de uma estranha “nuvem luminosa”, símbolo que se emprega na Bíblia para falar da presença sempre misteriosa de Deus que se manifesta e se oculta a nós, ao mesmo tempo.

A voz dez estas palavras: Este é o meu Filho, o amado, meu predileto. Escutai-o. Os discípulos não devem confundir Jesus com ninguém, nem sequer com Moisés e Elias, representantes e testemunhas do Antigo Testamento. Somente Jesus é o Filho querido de Deus, aquele que tem o seu rosto “resplandecente como o sol”.

Porém, a voz acrescenta algo mais: Escutai-o. Em outros tempos, Deus havia revelado a sua vontade por meio dos “dez mandamentos” da Lei. Agora, a vontade de Deus se resume e concretiza em um só mandamento: escutai a Jesus. A escuta estabelece a verdadeira relação entre os seguidores e Jesus.

Ao ouvir isto, os discípulos caem por terra “cheios de espanto”. Estão sobrecarregados por aquela experiência tão próxima de Deus, porém estão, também, assustados pelo que ouviram: poderão viver escutando somente a Jesus, reconhecendo somente nele a presença misteriosa de Deus?

Então, Jesus “aproxima-se e, tocando-0s, lhes diz: Levantai-vos. Não tenhais medo. Jesus sabe que eles necessitam experimentar sua proximidade humana: o contato de sua mão, não somente o resplendor divino de seu rosto. Sempre que escutamos Jesus no silêncio de nosso ser, suas palavras nos dizem: Levanta-te, não tenhas medo.

Muitas pessoas somente conhecem Jesus por ouvir. Seu nome lhes resulta, talvez, familiar, porém o que sabem dele não vai muito além de algumas recordações e impressões da infância. Inclusive, ainda que se chamem cristãos, vivem sem escutar em seu interior a Jesus. E, sem esta experiência, não é possível conhecer sua paz inconfundível nem sua força para animar e sustentar nossa vida.


Quando um crente se detém a escutar, em silêncio, a Jesus, no interior de sua consciência, escuta sempre algo como isto: “Não tenhas medo. Abandona-te com toda simplicidade no mistério de Deus. Tua pouca fé basta. Não te inquietes. Se me escutas, descobrirás que o amor de Deus consiste em estar sempre te perdoando. E, se crês nisto, tua vida mudará. Conheceras a paz do coração”.

No livro do Apocalipse pode-se ler assim: Olha, estou à porta e bato; se alguém ouve minha voz e me abre a porta, entrarei em sua casa. Jesus bate à porta de cristãos e não cristãos. Podemos abrir-lhe a porta ou podemos rejeitá-lo. Porém, não é a mesma coisa viver com Jesus e sem ele!


MEDO DE JESUS

[...]
É difícil esconder isso, mas na Igreja temos medo de escutar Jesus. Um medo soterrado que nos está paralisando ao ponto de impedir-nos, atualmente, de viver com paz, confiança e audácia atrás dos passos de Jesus, nosso único Senhor.

Temos medo da inovação, porém não do imobilismo que nos está distanciando, cada vez mais, dos homens e mulheres de hoje. Costuma-se dizer que a única coisa que temos de fazer nestes tempos de profundas mudanças é conservar e repetir o passado. O que existe atrás deste medo? Fidelidade a Jesus ou medo de pôr em “odres novos” o “vinho novo” do Evangelho?

Temos medo de umas celebrações mais vivas, criativas e expressivas da fé dos crentes de hoje, porém nos preocupa menos o tédio generalizado de tantos bons cristãos que não podem sintonizar-se nem vibrar com aquilo que se está celebrando. Somos mais fiéis a Jesus observando minuciosamente as normas litúrgicas, ou nos dá medo “fazer memória” dele celebrando nossa fé com mais verdade e criatividade?

Temos medo da liberdade dos fiéis. Inquieta-nos que o povo de Deus recupere a palavra e diga, em voz alta, suas aspirações, ou que os leigos assumam sua responsabilidade escutando a voz de sua consciência.

Em alguns, cresce o receio diante de religiosos e religiosas que buscam ser fiéis ao carisma profético que receberam de Deus. Temos medo de escutar o que o Espírito possa estar dizendo a nossas igrejas? Não temos medo de extinguir o Espírito no povo de Deus?

Em meio à sua Igreja, Jesus continua vivo, porém necessitamos sentir com mais fé sua presença e escutar com menos medo suas palavras: “Levantai-vos. Não tenhais medo”.

Tradução do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola – Segunda-feira, 10 de março de 2014 – 18h44 – Internet: clique aqui.

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