UM PAÍS NO ESPELHO (Racismo!)
Hilário Franco Júnior*
O futebol não é mais racista que outras áreas da
sociedades:
é só sua caixa de ressonância
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Arouca - volante do Santos Futebol Clube |
Na terça-feira, a
diretoria do Santos pediu ao Ministério Público Estadual a instauração de
inquérito policial para identificar os autores das ofensas racistas contra o
volante Arouca no jogo com o Mogi Mirim, no dia 6, pelo Campeonato Paulista.
Quando, há cerca de um
mês, o jogador Tinga, do Cruzeiro, foi alvo de injúrias racistas no Peru a
opinião pública brasileira ficou indignada. E sentiu-se reconfortada por viver
numa democracia racial. Até que na semana passada se percebeu que o rei estava
nu. No dia 5 o árbitro Márcio Chagas da Silva foi vítima de manifestações
racistas em Bento Gonçalves (RS); no dia seguinte foi a vez do volante Arouca,
do Santos FC, em Mogi Mirim (SP); três dias depois, a do lateral Assis, do
Uberlândia, em Patos de Minas (MG). Nesses episódios os ofensores não foram,
portanto, nem vizinhos preconceituosos nem agressivos habitantes das
metrópoles. Foram brasileiros comuns de pequenas cidades. As autoridades e a
opinião pública viram-se, então, obrigadas a olhar de frente para um problema
antigo que se fingia não nos dizer respeito.
Assim surpreendidas,
para combater o problema recorreram às clássicas tentativas que se têm revelado
anódinas. Interditar estádios ou enchê-los de faixas contra o racismo talvez
acalme a consciência de algumas pessoas, mas talvez também exacerbe o
ressentimento de outras. A punição pecuniária para o clube envolvido poderia
ser mais útil se aplicada corajosamente, mas o foi de forma tímida e em somente
um caso, com o Esportivo de Bento Gonçalves multado em R$ 30 mil (e cinco jogos
de interdição do estádio). O castigo esportivo talvez se revelasse eficaz em
ocorrências semelhantes - perda automática de x pontos, eliminação da
competição em caso de reincidência - não fosse vetado pelo corporativismo dos
clubes e pelos interesses político-financeiros de federações e confederações.
As medidas repressivas
não bastam; é preciso sobretudo identificar as raízes do problema. Na Europa os
episódios racistas no futebol são igualmente de trato difícil, mas ao menos
parecem mais fáceis de serem compreendidos. É quase previsível, por exemplo,
que na Itália em longa crise econômica e institucional e mais de 2,3 milhões de
cidadãos desempregados, ocorram reações xenófobas diante da chegada a cada ano de
milhares de africanos ilegais e de assimilação complexa. Por contraste, o caso
do Brasil pode causar espanto - os alvos de racismo não são estrangeiros ou
indivíduos de cidadania recente, e sim de uma já longínqua ascendência
africana. Aumenta a estupefação, sobretudo para observadores europeus, nosso
suposto igualitarismo racial cuja melhor expressão estaria justamente no
futebol.
A realidade é, mostram
os fatos, bem mais nuançada. Não é inútil lembrar que no começo do século 20
havia rejeição a negros e mestiços no futebol brasileiro. A plena entrada deles
nesse palco, a partir da década de 1930, deveu-se mais ao reconhecimento de seu
talento esportivo que de seus direitos sociais. Situação que em certa medida se
prolonga até hoje. Também à questão racial se aplica a célebre definição que
Sérgio Buarque de Holanda deu do brasileiro como homem cordial, isto é, diz a
etimologia, ligado às coisas do coração, às emoções profundas, escondidas por
um comportamento na aparência generoso e caloroso que revela, porém,
dificuldade no estabelecimento de relações sociais maduras, na adesão à
civilidade que implica certa coerção.
Ora, como espaço
privilegiado da emoção o futebol não poderia deixar de sintetizar e manifestar
algumas tensões sociais latentes. Ele não é nem menos nem mais racista que
outros domínios da sociedade brasileira (ou italiana, ou qualquer outra). É seu
espelho, sua caixa de ressonância. Um episódio de discriminação ocorrido, por
hipótese, num bar ficará restrito ao conhecimento de poucas pessoas; se o palco
for um estádio de futebol, o fato ganhará larga publicidade. Diz o noticiário
que Arouca foi ofendido por "três ou quatro torcedores"; Assis, por
um único. Números, portanto, não superiores aos de cenas de desrespeito racial
em um hipotético bar, baile ou parque. É evidente que todo ato racista é
condenável independentemente da quantidade de pessoas que o pratiquem, mas
também independentemente do local em que ocorre: ele não é mais incivilizado
por se dar em um estádio.
Comentando os
acontecimentos da semana passada, o ex-craque Raí observou que, se o racismo
"passar impune no futebol, com certeza passará impune na sociedade".
É verdade. No entanto, o inverso também o é, e com mais razão. No futebol o
racismo é ambíguo: os mesmos torcedores que ofendem o jogador negro do time
adversário aplaudem o negro do próprio time. Onde nasce e prospera o racismo é
na sociedade. Inclusive com conceitos e práticas que o reforçam mesmo
pretendendo o contrário. Proclamar a suposta superioridade da mestiçagem ou reservar
cotas raciais na universidade pública alimenta pelo avesso aquilo que se quer
combater. O inverso de um racismo é outro racismo. A tessitura das malhas
sociais num país com a história e o perfil do Brasil é complexa. Precisa ser
pensada e debatida de forma profunda e contínua, não apenas emocional e
emergencial.
* HILÁRIO FRANCO
JÚNIOR É PROFESSOR APOSENTADO DA USP. AUTOR DE A DANÇA DOS DEUSES. FUTEBOL, SOCIEDADE, CULTURA
(COMPANHIA DAS LETRAS) E, PELA MESMA , EDITORA, DANDO TRATOS À BOLA - ENSAIOS, SOBRE
FUTEBOL (NO PRELO).
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 16 de março de 2014 – Pg. E3 – Internet:
clique aqui.
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