O encontro de Jesus com um cego: É convivendo que os olhos se abrem
Evangelho do 4º Domingo
da Quaresma - Ano A
João 9,1-41
Carlos Mesters, Mercedes
Lopes e Francisco Orofino
O texto sobre o qual
meditamos é comprido. Mas é um texto muito vivo. Difícil de ser cortado pelo
meio. Trata da cura de um cego, a quem Jesus devolve a luz aos olhos. É uma
história cheia de simbolismo. Temos aqui mais um exemplo concreto de como o
Quarto Evangelho tira raio-X para revelar o sentido mais profundo que existe
escondido dentro dos fatos. É o sexto sinal, realizado em dia de sábado (Jo
9,14) e ligado à Festa das Tendas (Jo 7,2.37), que era a festa da água e da
luz.
As comunidades do
Discípulo Amado identificaram-se com o cego de nascença e com a sua cura. Cegas
desde o nascimento por causa da prática legalista da Palavra de Deus, elas
conseguiram enxergar a presença de Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. Para
chegar a isso, tiveram que fazer uma travessia, cheia de conflitos e de
perseguições. Por isso, pela descrição das várias etapas e conflitos da cura do
cego de nascença, descreveram também o itinerário espiritual que elas mesmas
percorriam, desde a escuridão da cegueira até à luz plena da fé esclarecida em
Jesus. Vejamos.
1. João 9,1-5: O ponto
de partida: cegueira a respeito do mal que existe no mundo
Ao verem o cego, os
discípulos perguntaram: “Quem pecou, ele ou os pais, para ele nascer cego?”
Naquela época, todo sofrimento era visto como castigo de Deus por algum pecado.
Esta mentalidade precisava ser combatida. Associar um defeito físico ao pecado
era uma das maneiras de os sacerdotes da Antiga Aliança manterem seu poder
sobre o povo. Para os saduceus e fariseus, um defeito físico ou uma doença eram
sinais da maldição de Deus sobre a pessoa. Jesus não era desta opinião e
corrigiu os discípulos. Não existe pecado na pessoa. “Nem ele nem os pais
pecaram, mas para que nele sejam manifestadas as obras de Deus!” Obra de Deus é
o mesmo que Sinal de Deus. Aquilo que para a época era sinal da ausência de
Deus, para Jesus vai ser sinal da sua presença luminosa no meio de nós. Ele
disse: “Enquanto é dia, tenho que realizar as obras do Pai que me enviou.
Quando vem a noite, já não dá mais para trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou
a luz do mundo.” O Dia dos Sinais começou a raiar quando Jesus realizou o
primeiro sinal em Caná. Mas o Dia está chegando ao fim e logo será Noite. A
noite é a morte de Jesus.
2. João 9,6-7: O sinal
do enviado de Deus
Jesus cuspiu na terra,
fez lama com sua saliva, aplicou sobre os olhos do cego e pediu que fosse
lavar-se na piscina de Siloé. O homem foi e ficou curado. Este é o sinal! João
comenta, dizendo que Siloé significa enviado. Jesus é o Enviado do Pai que
realiza as obras, os sinais do Pai. O sinal deste “envio” é que o cego começou
a enxergar.
3. João 9,8-14: A base
da fé é a humanidade de Jesus
A primeira reação veio
dos vizinhos e das pessoas chegadas. O cego era muito conhecido. Eles ficaram
na dúvida: “Será que é ele mesmo?” O cego respondia: “Sou eu mesmo!”
Perguntaram: “Como é que se abriram seus olhos?” O que antes era cego tem que
testemunhar: foi o Homem Jesus quem me abriu os olhos. O fundamento da fé em
Jesus é aceitar que ele é um ser humano igual a nós. Os vizinhos perguntaram:
“Onde está ele?” – “Não sei!” Eles não ficaram satisfeitos com as respostas do
cego. Para tirar tudo a limpo, levaram o homem até os fariseus, que eram as
autoridades religiosas. Aquele dia era um sábado! Em dia de sábado era proibido
exercer a medicina.
4. João 9,15-17: Jesus é
o profeta, ele responde às aspirações do povo
Diante da polêmica
criada pelo sinal de Jesus, o caso foi para as autoridades religiosas. O homem
agora testemunha o sinal de Jesus diante dos fariseus, contando tudo de novo. Cegos na
sua observância, alguns fariseus comentaram: “Ele não é de Deus, porque não
observou o sábado!” Não aceitavam que Jesus fosse um sinal de Deus por fazer
tal coisa num dia de sábado. Mas outros se questionavam: “Como é que alguém,
sendo pecador, pode realizar tais sinais?” Aí perguntaram ao cego: “E você, o
que nos diz a respeito de Jesus?” O homem avançou no seu testemunho. Agora,
para ele, Jesus “é um Profeta!”
5. João 9,18-23: Cegos
pelo preconceito da lei, os fariseus não aceitam o testemunho da lei
A terceira reação vem
dos pais. Os fariseus, agora chamados de judeus, não acreditavam que o rapaz
tivesse sido cego. Achavam que fosse uma fraude montada. Por isso mandaram
chamar os pais e perguntam: “Este é o filho de vocês? Ele nasceu cego? Se
nasceu cego, como é que agora enxerga?” Com muita cautela, os pais responderam:
“É nosso filho e ele nasceu cego! Como agora enxerga não sabemos, nem sabemos
quem o fez enxergar. Vocês interroguem a ele. Ele tem idade!” A cegueira dos
fariseus gerava medo no povo, pois quem fizesse a profissão de fé em Jesus como
Messias seria expulso da sinagoga. A conversa com os pais revelou a verdade,
testemunhada por duas pessoas. Mas as autoridades religiosas se negaram a
aceitá-la. A cegueira delas era maior que a evidência. Elas, que tanto
insistiam na observância da lei, agora não queriam aceitar a lei que declarava
válido o testemunho de duas pessoas (Jo 8,17).
6. João 9,24-34: O
discípulo não é maior que o mestre. O mestre foi rejeitado...
Chamaram de novo o cego
e disseram: “Dá glória a Deus! Sabemos que este homem é um pecador!” Dar glória
a Deus significava: “Peça perdão pela mentira que você nos pregou!” O cego
tinha dito: “Ele é um profeta!” Conforme os fariseus, ele deveria ter dito:
“Ele é um pecador!” Mas o cego era vivo. Ele disse: “Se ele é pecador, não sei.
O que sei é que eu era cego e agora estou enxergando!” Contra fato não vale
argumento! De novo, os fariseus perguntaram: “O que ele fez? Como abriu seus
olhos?” O cego respondeu com ironia: “Eu já disse a vocês! Vocês também querem
tornar-se discípulos dele?” Responderam: “Você, sim, é discípulo dele. Nós
somos discípulos de Moisés! Sabemos que Deus falou a Moisés. Mas esse Jesus,
nós não sabemos de onde é!” Novamente, com fina ironia, o cego disse:
“Espantoso! Vocês não sabem de onde ele é, e ele me abriu os olhos! Se este
homem não viesse de Deus, não seria capaz de fazer um sinal desses!”
Confrontado com a cegueira dos fariseus, a luz da fé cresceu dentro do cego.
Ele rompeu com a velha observância da Lei de Moisés, afirmando que quem lhe
abriu os olhos só pode ser alguém que veio de Deus. Esta profissão de fé
resultou em sua expulsão da sinagoga. Assim acontecia também no fim do século
I. Quem quisesse professar sua fé em Jesus tinha de romper laços familiares e
comunitários. Assim acontece até hoje. Quem decide ser fiel a Jesus, sofre e
corre o perigo de tornar-se um excluído.
7. João 9,35-38: A nova
comunidade: Jesus o acolhe e ele se entrega
Jesus não abandona quem
por causa dele padece ou é perseguido. Quando soube da expulsão, procurou o
homem e o ajudou a dar mais um passo, convidando-o a assumir sua fé no Filho do
Homem. Ele respondeu: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?” Jesus
respondeu: “Você está olhando para ele. Sou eu que estou falando com você!” O
cego exclamou: “Creio, Senhor!” E prostrou-se diante de Jesus. A atitude do
cego diante de Jesus é de total confiança e de inteira aceitação. De Jesus ele
aceita tudo. Esta é a fé que sustenta as comunidades do Discípulo Amado.
8. João 9,39-41: Uma
reflexão final
O cego, que não
enxergava, acaba enxergando melhor que os fariseus. As comunidades, que antes
eram cegas, descobrem a luz. Os fariseus, que pensavam enxergar corretamente,
são mais cegos que o cego de nascimento. Presos à velha observância, eles
mentem quando dizem que veem. O pior cego é aquele que não quer enxergar! Os
fariseus. Na verdade, continuam cegos.
O nome “EU SOU”
Para esclarecer o
significado da cura do cego de nascença, o Quarto Evangelho lembrou a frase de
Jesus: “Eu sou a luz do mundo!” (Jo 9,5). Em vários outros lugares e
oportunidades, repete esta mesma afirmação: EU SOU. O Evangelho de João, no seu
conjunto, é uma resposta para a pergunta inquietante feita pelos contemporâneos
de Jesus, tanto discípulos quanto
adversários: “Quem és tu?” (Jo 8,25) ou “Quem pretendes ser?”
(Jo 8,53). Para responder a essas questões e, ao mesmo tempo, revelar a
profunda identidade entre ele e o Pai, Jesus repete várias vezes a expressão:
Eu sou...:
- Eu sou o pão da vida (Jo 6,34.48).
- Eu sou o pão vivo descido do céu (Jo 6,51).
- Eu sou a luz do mundo (Jo 8,12; 9,5).
- Eu sou a porteira (Jo 10,7.9).
- Eu sou o bom pastor (Jo 10,11.14).
- Eu sou a ressurreição e a vida (Jo 11,25).
- Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6).
- Eu sou a videira (Jo 15,1) Eu sou rei (Jo 18,37).
- Eu sou (Jo 8,24.27.58).
Esta revelação de Jesus
atinge seu ponto alto numa discussão com os judeus em que ele afirma: “Quando
tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que Eu sou” (Jo 8,27). Na
publicação Raio-X da Vida [clique aqui], apresentamos uma lista incompleta dos títulos que
Jesus recebe no Evangelho de João e que traduzem a busca dos primeiros cristãos
em querer conhecer e amar Jesus. O título que melhor resume o resultado desta
busca é Eu sou (Jo 8,58). Este nome é como que o ponto de chegada após uma
longa caminhada. Eu sou é o mesmo que Javé, o nome que Deus assumiu no êxodo
como expressão da sua presença libertadora no meio do povo (Ex 3,15). Agora,
para as comunidades do Discípulo Amado, o verdadeiro rosto deste Deus é o rosto
de Jesus de Nazaré: “Quem me vê, vê o Pai!” (Jo 14,9). Mais tarde, no Antigo
Testamento, o nome sagrado Javé, que aparece quase 7 mil vezes no Antigo
Testamento, foi substituído pela palavra Senhor. Desde Pentecostes, os
discípulos e as discípulas chamam Jesus de Senhor (At 1,36; Fl 2,11; Jo 20,28).
Até hoje dizemos: nosso Senhor Jesus Cristo.
Fonte: CEBI - Centro de
Estudos Bíblicos - Notícias - Segunda-feira, 24 de março de 2014 - 11h47 -
Internet: clique aqui.
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