HAJA PAPA!
Paul
Baumann*
O intenso fascínio dos fiéis por Francisco - ou por qualquer outro pontífice - não é bom para o catolicismo, segundo o autor
Papa Francisco com jovens fazendo selfie |
Para
que servem os papas? Nestes 25 anos que venho escrevendo sobre catolicismo,
aprendi que são bons para os "paparazzi" e para dar um toque de
exotismo nos noticiários noturnos da TV. Ocasionalmente, claro, também servem
para produzir páginas e páginas na imprensa: "Homem do Ano" da Times;
capa da revista Rolling Stone; dez mil palavras de defesa acusatória na New
Yorker sob o título "O Primeiro Ano de um Papa Radical".
Aparentemente, há qualquer coisa com os papas que a mídia popular, normalmente
indiferente à autoridade religiosa, considera quase irresistível - e, por isso,
de tempos em tempos os papas têm até me levado à televisão para comentar essa
ou aquela ação ou declaração papal.
Os
papas modernos também ajudam a criar empregos para historiadores e biógrafo. A
cada semana surge um fato na vida de Jorge Mario Bergoglio, ou uma coletânea de
seus bate-papos. Senão, como saberíamos que o papa Francisco já foi leão de
chácara (qualificação essencial, presume-se, para um guardião da ortodoxia...)?
Neste primeiro aniversário da elevação de Bergoglio ao trono de Pedro, choverão congratulações e elegias. Até certo ponto não é difícil compreender a atração - afinal não sobraram muitos celibatários ou monarcas absolutistas, menos ainda um que pode se vangloriar de ter bilhões de fiéis. Mas há algo de estranho no flerte entre o vigário de Cristo e a mídia obcecada por celebridades. E não há como não se admirar com o fascínio secular pelo papado que esse namoro sugere. Num mundo de opções ilimitadas contrabalançadas por conflitos aparentemente insolúveis, eis um homem e uma crença que pregam a renúncia às coisas mundanas e prometem justiça extraterrena! Estaria o papa oferecendo simplesmente uma fuga da carga que as responsabilidades da liberdade moderna acarretam ou propõe ele uma alternativa real? Para muitos católicos, essa questão continua importante. Que o digam as igrejas não tão vazias como os rumores fazem crer.
Independentemente
do que as pessoas achem que o papa Francisco está oferecendo, ele não é mágico.
Não pode alterar o curso da história secular, ou pôr fim às divisões
ideológicas que se aprofundam, simplesmente reafirmando os poderes (na verdade,
um tanto anêmicos) do papado. Nessa perspectiva, a excessiva atenção dada ao
papa, embora talvez boa para os negócios, não o é para a Igreja. E por que não?
Porque ela estimula a ilusão de que os males da Igreja podem ser curados por um
homem, especialmente por um novo homem.
De
fato, nenhum papa tem esse poder, graças a Deus! Lembremos que o primeiro deles
era um homem de uma fraqueza lendária, que negou seu Deus três vezes antes de o
galo cantar. E o papa mais recente, Bento XVI, de um intelecto superior e
devoção inspiradora, ainda que obsoleta, saiu de cena subjugado pelas intrigas
palacianas do Vaticano. João Paulo II, sem dúvida, foi um superastro da mídia e
podemos dizer que teve um papel histórico no colapso da União Soviética. Mas
mesmo ele não conseguiu lidar efetivamente com o maior desafio enfrentado por
sua Igreja: o escândalo dos abusos sexuais no clero.
A
verdade é que, quanto mais o mundo exalta a Igreja Católica com os olhos
centrados no papado - e mais a conversa entre católicos é monopolizada por
especulações sobre as intenções de um homem -, menor a probabilidade de a
Igreja ir além das confusões e conflitos que a têm preocupado desde o Concílio
Vaticano II (1962-1965). A Igreja precisa desesperadamente recuperar seu
equilíbrio cultural e espiritual, encontrar a solidez e a grandeza de sua missão
e culto. E precisa ainda de uma renovada presença pública, que transcenda, e
muito, a mera lealdade ao papa. Sem esse equilíbrio e autodomínio, a Igreja não
encontrará sua verdadeira voz. Mas, na busca dessa voz os católicos terão de se
voltar não para Roma, mas um para o outro - pois é aí que estão os problemas e
as soluções.
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Papa Francisco abraça uma fiel |
A
fixação no papado banaliza a fé dos católicos, cuja vasta maioria, ao longo da
história, teve pouco conhecimento, e nenhum contato, com algum papa.
Tradicionalmente o papado era o tribunal de última instância na decisão sobre
desacordos entre os fiéis. Mas no século passado ele se transformou na via de
primeira instância, determinado a se imiscuir em todas as disputas teológicas
ou eclesiásticas. Se freiras americanas estão flertando com novos estilos de
ministério, o Vaticano interfere; se traduções de textos litúrgicos têm uma
linguagem um pouco inclusiva, ele censura. Essa ingerência infantiliza os
bispos, que parecem mudar de tom (e de traje) em resposta a cada novo modismo
papal. E os bispos, por seu lado, exigem deferência do clero e dos leigos. As
consequências são muito claras: como em qualquer organização vertical, as
iniciativas locais não têm base de apoio ou fracassam por falta de liderança, e
a apatia domina os bancos das igrejas. O impasse e a paralisia institucionais
são a regra. Os seminários estão vazios e a vocação clerical é escassa.
Teologicamente
o papa deveria simbolizar a unidade da Igreja, mas nas últimas décadas ele tem
simbolizado principalmente as esperanças e apreensões conflitantes dos
católicos em lados opostos da divisão religiosa e cultural da Igreja. João
Paulo II e Bento XVI tentaram disciplinar as tropas desregradas nos seminários,
presbitérios, universidades e paróquias. Católicos liberais procuraram manter-se à distância e aguardar - e hoje, cansados de décadas de reprimendas dos
autoproclamados católicos "ortodoxos", começam a recuperar seu
espaço, encorajados por Francisco e pelo que parece ser uma mudança de atitude
(não de política) em Roma. Mas Francisco, apesar de seu evidente charme e
estilo pastoral veemente, não terá muito mais sorte do que os predecessores
teologicamente mais ansiosos em atenuar os conflitos ideológicos da Igreja.
Como seus admiradores descobrirão, mesmo a mais cativante liderança papal - e o
encanto está muito mais nos olhos do observador - não consegue resolver as
divisões do catolicismo.
Essas
divisões, e as disputas que provocam, são incomodamente familiares:
- O que um católico "praticante" pensa do controle artificial da natalidade,
- da homossexualidade e do casamento entre pessoas do mesmo sexo;
- do divórcio;
- do sacerdócio exclusivamente masculino e do celibato dos padres;
- da laicidade, especialmente das mulheres, no processo decisório da Igreja;
- da relação entre papas e bispos;
- do pluralismo religioso; e
- o abuso sexual por parte de clérigos e a irresponsabilidade da hierarquia?
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George Lindbeck - teólogo luterano |
Como
isso é possível? A resposta está nos próprios documentos. De um lado, as
proclamações do Vaticano II abriram novas e surpreendentes possibilidades de os
católicos se relacionarem entre si e com aqueles que estão fora da Igreja.
"As alegrias e esperanças, aflições e angústias dos homens nesta era,
especialmente os pobres ou os que estão de alguma maneira atormentados, também
são as alegrias e esperanças, as aflições e angústias dos seguidores de
Cristo", insistiram os bispos no Vaticano II, num espírito sem precedentes
de ecumenismo. Ao mesmo tempo, porém, o concílio reafirmou definitivamente o
absolutismo católico do passado. O eminente teólogo luterano George Lindbeck,
observador protestante oficial no Vaticano II, descreveu o dilema que foi
criado afirmando que "ambiguidades fundamentais e extremas nas mais
abalizadas declarações do Concílio - sobre a infalibilidade papal, as relações
com outros cristãos e o desafio de reconciliar a tradição católica com a Bíblia
- permitiram às pessoas em lados diferentes no tocante a cada tema nevrálgico
encontrarem um amplo apoio textual para suas interpretações. Quando a lei
suprema da terra autoriza diretamente posições rivais, talvez contraditórias, e
não oferece nenhuma maneira de solucionar as disputas, o conflito é inevitável,
e insolúvel se mudanças não forem realizadas na lei suprema", concluiu
Lindbeck com autêntico pesar.
Pouco
mudou nos quase 40 anos desde que o teólogo luterano fez essa avaliação. Mas
ele também advertiu que uma tentativa precipitada para resolver as ambiguidades
do Vaticano II seria um grave erro, fosse em nome dos reformadores da Igreja ou
dos tradicionalistas. Na opinião de Lindbeck, uma solução estava muito distante.
A crise não poderia terminar pela ação de um único papa, e ainda hoje não pode.
Neste momento os católicos conservadores estão em busca de portos seguros,
determinados a não serem prejudicados pelo reinado reputadamente
"progressista" de Francisco. Como seus rivais liberais durante os
últimos papados, os conservadores estarão lá, ávidos para retomar seu
"merecido" lugar na frente da fila da comunhão quando o papa que
desdenham sair de cena.
A
persistência de tais divisões nos lembra que os católicos precisam encontrar
uma maneira de viver com e sobreviver a suas contínuas disputas e, mais
importante, conviver com o próximo.
Talvez seja exatamente isso que o papa
Francisco esteja tentando dizer ao rebanho com seu empenho em mudar o enfoque -
afastando-se de Roma e voltando os olhos para os pobres e aflitos; deixando a
questão sobre quem vive nos apartamentos papais para olhar para quem está
dividindo o pão em ambientes mais modestos; e sair - o que é mais cativante -
do papamóvel para usar um Renault usado.
Lex
orandi, lex credendi é um dos mais veneráveis ensinamentos da Igreja. Numa
tradução aproximada, significa que o culto da Igreja determina sua teologia,
ou, como ensina o catecismo, "a lei da oração é a lei da fé: a Igreja crê
quando ora". Sejam quais forem seus desacordos ideológicos, os católicos
encontrarão a unidade e um relacionamento menos anacrônico com o papado se
praticarem juntos sua fé - ou não a encontrarão definitivamente. E isso
significa que o casal do mesmo sexo a seu lado no banco da Igreja poderá dar um
exemplo mais fiel de testemunho cristão do que você imaginaria possível. Ou
talvez a ardente devoção de um entusiasta da missa em latim o leve a reavaliar
algumas tradições da Igreja que há muito tempo você descartou como irrelevantes
e estéreis. Seja como for, a unidade e a vitalidade renovada da Igreja será - e
deve ser - uma dádiva que os fiéis oferecem ao papa, não o inverso.
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO.
* PAUL BAUMANN,
EDITOR DO JORNAL AMERICANO COMMONWEAL,
DE CATÓLICOS LAICOS, ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA A REVISTA ONLINE SLATE.
Fonte:
O Estado de S. Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 16 de março de 2014 – Pg. E8
– Internet: clique aqui.
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REFLETINDO...
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REFLETINDO...
UM ANO DE PONTIFICADO
Dom Luiz Demétrio Valentini
Bispo Diocesano de Jales - SP
Já
foram feitas muitas análises do primeiro ano de pontificado do Papa Francisco.
A intenção não é fazer aqui mais uma. Mas simplesmente conferir qual o novo
panorama eclesial que resulta deste primeiro ano com o Papa Francisco.
Olhando
a partir deste primeiro aniversário, as propostas do Papa Francisco vão se
definindo. Ele conseguiu retomar o impulso de renovação da Igreja, levantado
pelo Concílio, e agora direcionado por algumas iniciativas renovadoras, ainda
claramente muito tímidas.
Uma
das atitudes do novo Papa, foi pedir que todos rezassem por ele. Agora, no seu
primeiro aniversário de papa, ele volta a insistir na mesma tecla.
Aos
poucos vai ficando claro qual o motivo desta insistência. Não é só porque, como
todos nós, ele também precisa da graça de Deus para cumprir sua missão. Mas
certamente é também porque ele se dá conta do desafio que assumiu, de retomar o
processo de renovação da Igreja, com todas as implicações que isto suscita.
Na
verdade, são tantas as frentes que se abrem quando se trata de mudar a Igreja,
para que ela esteja mais de acordo com o Evangelho de Cristo e próxima ao homem
de hoje.
Ninguém
se atreve a mudar a Igreja, sem contar com o apoio da própria Igreja!
Por
isto, o Papa Francisco, que conseguiu “capitalizar” tanta admiração e tantas
adesões, esclareceu logo que a grande reforma precisa ter como sujeito a
própria Igreja, como povo de Deus que assume sua missão de viver o Evangelho, e
testemunhá-lo para os outros.
Portanto,
é uma tarefa de todos.
A
“nova evangelização” não se faz por
um gesto isolado de alguém, mesmo que seja um papa iluminado e decidido. Não se
repete mais a cena de Davi e Golias. Daquela vez, o gigante Golias foi
surpreendido pela pedra arremessada pelo jovem Davi. Por sua façanha, Davi foi
muito aplaudido pelo povo.
Hoje
não se repetem mais tais proezas. Mesmo que surja um outro Davi, hoje os Golias
usam capacete. E o que é mais complicado, os
Golias mudaram de lado, incorporaram as velhas estruturas eclesiais, que
oferecem as mais duras resistências às urgentes reformas de que a Igreja
necessita.
Para
não se sentir sozinho nesta grande empreitada, o Papa Francisco propõe uma
ampla “conversão pastoral”.
Esta
conversão pastoral tem sua dinâmica mais forte na proposta de uma “Igreja de portas abertas”, não só
para acolher os que ainda a procuram, mas sobretudo para sair ao encontro dos outros, tornando-se uma Igreja mais missionária.
Temos
que reconhecer que não é fácil fazer esta “conversão
pastoral”. Certamente, ela não
consistirá em aumentar as atividades pastorais, mas em dar-lhe um espírito
diferente, de mais abertura missionária e de proximidade com o povo.
Nestes
dias temos pela frente a celebração da Páscoa, a festa anual da renovação da
vida. Mas temos também pela frente a “conversão pastoral”, para a qual o Papa
nos convida com insistência.
Fonte: Diocese de Jales –
Artigos do Bispo
– 20 de março de 2014 – Internet: clique aqui.
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Haja
Papa! O debate sobre a excessiva atenção dada ao Papa Francisco
Michael Sean Winters*
National Catholic
Reporter
19-03-2014
"O Concílio
Vaticano II chamou nossa atenção para partilhar as alegrias, esperanças
tristezas e ansiedades. Tenho outra confissão a fazer. Fico cada vez mais
impaciente com as queixas dos católicos americanos ricos, urbanos e com
instrução, qualquer que seja a estirpe ideológica".
Michael
Sean comenta o artigo de Paul Baumann, editor do jornal americano Commonweal,
de católicos leigos, em artigo publicado pela revista online Slate.
É com grande relutância
que confesso ter achado o recente ensaio de Paul Baumann sobre o Papa Francisco
profundamente frustrante. Baumann é um grande intelectual católico e um
escritor muito melhor do que eu. Mas, nesta ocasião, receio que ele tenha sucumbido
ao desejo implacável da mídia de ser do contra, de fazer um argumento
contraintuitivo quando a intuição comum pode ser um guia bem melhor.
Por exemplo, ele
escreve:
“Nesse sentido, a
atenção excessiva dada ao papado, embora talvez seja boa para as empresas, não
é boa para a Igreja. Por que não? Porque ela encoraja a ilusão de que aquilo
que atinge a Igreja pode ser curado por um alguém, especialmente por um alguém
novo. Em verdade, nenhum papa possui este tipo de poder, graças a Deus.”
Estas são palavras de um
consultor de gestão, não de um intelectual católico. Não é uma ilusão, mas um
artigo de fé, que “aquilo que atinge a Igreja pode ser curado por um alguém”,
mas este alguém não é o Papa Francisco, e sim Jesus Cristo. De fato, mesmo um
observador desinteressado deve reconhecer que é a capacidade sagaz deste papa
em redirecionar nossa atenção para longe de si e em direção a Cristo que o faz
tão revolucionário.
No caso, Baumann não é
um consultor de gestão dos bons. Mesmo se restringirmos nosso olhar para apenas
o que é terrestre, creio que Baumann deixa escapar aqui aquilo que parece ser
um da das mais esterlinas reformas do papa: ele consulta as pessoas. Ele já
formou um Conselho dos Cardeais, de todo o mundo, para operar como verdadeiros
assessores papais, embora não sendo parte do tribunal papal. Já instruiu os que
preparam o próximo Sínodo para consultar e consultar amplamente sobre os
assuntos a serem debatidos. Já destituiu muitas das características do tribunal
papal que restringia o acesso a ele, que conferia demasiado poder aos que o
precediam e que o mantinham distante de tudo. O Papa Francisco parece saber que
ele não pode saber tudo o que há para saber, e está indo ao encontro dos demais
para solicitar seus conselhos. Outros podem estar na ilusão de que um alguém,
ou um novo alguém, possa consertar todos os problemas, porém Francisco parece
saber melhor.
A contrariedade e a
desatenção estranha para com a possibilidade de quaisquer influências divinas
persistem ao longo do artigo. Baumann assim se expressa:
“A Igreja precisa,
desesperadamente, recuperar seu equilíbrio cultural e espiritual; ela deve
encontrar uma densidade e riqueza de adoração e missão, além de renovar a
presença pública, que muito transcendem a mera lealdade ao papa. Ao carecer de
tal equilíbrio e da posse de si, a Igreja não consegue encontrar sua verdadeira
voz. Mas, para encontrar sua voz, os católicos terão que se voltar não a Roma,
mas em direção uns aos outros, que é onde os problemas e as soluções se
encontram.”
Com certeza, as
inquietações do autor são bem diferentes daquelas que mantêm acordado à noite o
cardeal Raymond Burke, mas o que ambos partilham é uma visão autorreferencial
da Igreja e do que a atinge. Baumann diz que a Igreja carece de “possuir a si
mesma”, mas o ponto central nas exortações do Papa Francisco é nos lembrar que
não pertencemos a nós mesmos ou para nós mesmos. Pertencemos a Jesus Cristo e
ao que é próprio dele, os pobres. Não precisamos nos voltar uns para os outros
tanto quanto precisamos nos voltar a Cristo e, então, e só então, perceber, com
o canto de nossos olhos, que estamos nesta Igreja juntos.
Aproximar as diferentes
opiniões da Igreja não é tarefa fácil. Mas, de novo, olhemos na lista feita por
Baumann a partir daquilo que nos divide:
“Estas divisões, e as
disputas que elas provocam, são tediosamente familiares. O que seria um
católico ‘fiel’ pensar sobre o controle de natalidade artificial; a
homossexualidade e o casamento homoafetivo; o divórcio; o sacerdócio
celibatário exclusivamente masculino; a possibilidade de se escolher os bispos;
o papel do laicato, especialmente o das mulheres, na mas tomadas de decisão da
Igreja; a relação entre os papas e bispos; o pluralismo religioso; e os abusos
sexuais praticados pelo clero e a irresponsabilidade da hierarquia? Estas e
outras questões vão ao cerne da autocompreensão católica que, embora uma igreja
conhecida por valorizar a disciplina e a unanimidade, continua estando
profundamente dividida em todas elas. Católicos de ambos os lados de cada uma
destas questões afirmam serem os verdadeiros herdeiros do Concílio Vaticano II.
Todos concordam que o Vaticano II promulgou a compreensão mais importante das
doutrinas da Igreja. No entanto, eles leram os documentos do Concílio em modos
opostos diametralmente.”
Tal como escrevi dias
atrás, creio que o papa esteja nos lembrando de que todas estas questões
derivam de nossos compromissos cristológicos e que, muitas vezes, temos nos
esquecido disso, sejamos da esquerda ou da direta. Sim, a esquerda e a direita
leram os textos conciliares de formas diferentes e chegaram a conclusões
diferentes. Todavia, o Papa Francisco parece querer nos lembrar que o que une
estes vários textos conciliares foi um compromisso de seguir a Jesus de forma
mais próxima e com nossos olhos abertos. Alguns veem coisas diferentes com seus
olhos. Alguns preferem manter seus olhos fechados, certamente. Porém, a questão
não é deixar as divergências nos cegar ao que é essencial: Estamos seguindo a
Jesus?
E, como Baumann
reconhece ao final de seu texto, o Papa Francisco está certamente nos lembrando
de que “aquilo que vai ao cerne da autocompreensão católica” não são estas
questões nostálgicas, mas sim nosso encontro com os pobres.
O Concílio Vaticano II
chamou nossa atenção para partilhar as alegrias, esperanças, tristezas e
ansiedades. Tenho outra confissão a fazer. Fico cada vez mais impaciente com as
queixas dos católicos americanos ricos, urbanos e com instrução, qualquer que
seja a estirpe ideológica. Nesta Quaresma, antes que comecemos a perguntar onde
e por que nos posicionamos quanto às questões polêmicas de sexo e gênero, ou
antes de começarmos a nos preocupar com as relações de poder entre o Vaticano e
as igrejas locais, talvez devêssemos nos perguntar por que motivo temos encontrado,
no Ocidente bem-alimentado, a prática tradicional cristã (e não apenas cristã)
de jejum a ser minimizado: sem carne nas sextas-feiras, opte pela lagosta.
Alguém deve estar com as prioridades equivocadas, e não acho que este seja o
Papa Francisco.
Acho que a conclusão de
Baumann, de que um papado de sucesso não é bom para a Igreja, esteja
completamente equivocada. Penso que o interesse neste papa é algo grandioso
para a Igreja, porque as coisas de que as pessoas gostam nele são aquelas que a
maioria admira em Cristo. Num mundo de falsos amigos, ele é autêntico. Num
mundo materialista, ele vive na simplicidade. Num mundo de orgulhosos e de
batinas de pelúcia, ele é espontâneo. Num mundo de celebridades e exposições
claras de poder, ele é humilde. Num mundo que gosta de se autojustificar, ele
se apresenta como pecador.
O grande teólogo
reformado holandês Abraham Kuyper escreveu: “Não há uma polegada em todo o
domínio de nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano acima de
tudo, não grite: ‘É meu!’” Baumann é um homem sábio e escritor talentoso. Por
que razão ele parece tão relutante a manifestar a esperança de que o Papa
Francisco está nos convidando a uma nova experiência de Pentecostes, a ouvir o
Mestre dizer “É meu!”? Se realmente não acreditarmos que o Espírito movimenta a
Igreja, por vezes apesar dela mesma, então realmente por que nos importar com
tudo isso? Sei que Baumann sabe a resposta. Gostaria que ele tivesse partilhado
este saber com os leitores da revista Slate.
* Michael Sean Winters, escritor e autor de "How
the Catholics Can Save the Democrats".
A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 24 de
março de 2014 – Internet: clique aqui.
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