O mistério da saída dos jovens do mercado
Arícia Martins
Jornal VALOR ECONÔMICO
17-03-2014
É consenso entre economistas que a manutenção do
baixo nível de desemprego está relacionada ao menor número de pessoas em
procura de uma ocupação. Os motivos que levaram à saída de jovens e adultos da População
Economicamente Ativa (PEA) e suas possíveis consequências sobre o
mercado de trabalho e a produtividade, no entanto, são tema de debate.
Dois
estudos sobre o assunto chegam a conclusões diferentes. Tanto o Itaú Unibanco quanto
a MCM Consultores apontam que a queda da taxa de participação
- ou seja, a relação entre a PEA e a População em
Idade Ativa (PIA) - foi influenciada pela faixa etária de 18 a 24
anos. O Itaú associa esse movimento ao maior tempo dedicado
pelos jovens aos estudos e à expansão do programa Fies, do governo
federal. A MCM dá ênfase ao ganho de participação do grupo
conhecido como "nem-nem", aqueles que nem trabalham, nem estudam.
Num
terceiro estudo, o economista Igor Velecico, do Bradesco,
conclui que a tese que os jovens são os principais responsáveis pelo baixo
desemprego não encontra respaldo nos dados do IBGE. Ele também não
concorda com a ideia de atribuir ao Fies o adiamento da
entrada dos jovens na PEA.
Para
os economistas Aurélio Bicalho e Luka Barbosa, do Itaú,
há evidências de que a desaceleração da economia, a expansão do Fies e
os ganhos de renda contribuíram para o recuo na oferta de mão de obra jovem.
Segundo eles, entre 2012 e 2013, a média de jovens de 18 a 24 anos fora da
força de trabalho subiu de 1,58 milhão para 1,62 milhão, alta de 47 mil. O
total de inativos que estudam aumentou em 38,7 mil entre um ano e outro, ante
alta de 8,7 mil no grupo dos que não estudam.
Os
analistas do Itaú notam que, em 2010, a taxa de juros do Fies caiu
de 9% para 2,4%, ao mesmo tempo em que os prazos de carência foram ampliados.
Após as mudanças, o número de matrículas no programa - que era de 50 mil ao ano
em média entre 1999 e 2009 - saltou para 76 mil em 2010, 154 mil em 2011, 377
mil em 2012 e 556 mil em 2013.
Segundo Bicalho e Barbosa,
a saída dos jovens do mercado de trabalho vai exercer, no curto prazo, pressão
sobre a inflação. No médio prazo, o maior nível de escolaridade tende a
contribuir para que a economia tenha maiores ganhos de produtividade.
Essa
análise é colocada em xeque pelo estudo da MCM. O recuo na taxa de
participação dos jovens de 18 a 24 anos é considerado importante pela
consultoria, mas a saída de pessoas de 25 anos, ou mais, do mercado também é
destacada. A hipótese da busca por maior educação para explicar esse movimento
é "bastante atraente", afirma aMCM, devido ao aumento da renda
familiar e aos programas que facilitam o acesso ao ensino superior.
Para
testar essa explicação, os economistas dividiram o grupo dos jovens inativos
entre aqueles que estudam e os que não estudam. Embora, em termos absolutos, o
primeiro grupo supere o segundo em quase todo o período analisado (desde 2006),
a MCM destaca que essa diferença diminuiu desde meados de
2011.
Para
a MCM, a participação decrescente dos jovens na PEA não
tem potencial de gerar alterações importantes no mercado de trabalho. Em uma
hipótese que assume como inverossímil, em que todos os jovens - tanto os
"nem-nem" como os que estudam -entrassem na PEA, a
consultoria calcula que o impacto máximo na taxa de desemprego seria de 0,4
ponto a mais no resultado de 2013 e de apenas 0,1 ponto em 2012.
O
pesquisador Rodrigo Leandro de Moura, do Instituto
Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV),
destaca que a taxa de desemprego dos jovens é quase o triplo da de adultos:
ficou em 11% no grupo de 18 a 24 anos em janeiro, ante 3,8% na faixa de 25 a 49
anos.
"Qualquer
redução da participação dos jovens na PEA afeta muito o
desemprego", diz Moura, para quem esse movimento recente está
mais relacionado ao aumento da educação do que à maior ociosidade. O economista
observa, porém, que a qualidade do ensino -não abordada no estudo do Itaú -
é igualmente importante para avaliar como o ingresso futuro de jovens mais
qualificados no mercado poderá contribuir para elevar a produtividade.
Por
fim, o estudo de Velecico, do Bradesco, não chega a uma conclusão sobre o que
estaria levando os jovens a saírem do mercado de trabalho, mas argumenta que os
dados da PEA e da População Não Economicamente Ativa
(PNEA) mostram que esse não seria o principal motivo por trás do
desemprego baixo.
O
avanço do número de inativos entre janeiro de 2013 e janeiro de 2014, diz Velecico,
foi liderado pela população mais idosa. Nessa comparação, a população não
economicamente ativa de 50 anos ou mais aumentou em 824 mil, enquanto o total
de inativos de 18 a 24 anos teve acréscimo de 109 mil.
A PEA,
que deveria ser o espelho da PNEA, mostra comportamento divergente,
diz o economista do Bradesco. Mesmo assim, diz, essa variação
recente vai contra a tese de que os jovens são os principais responsáveis pelo
menor crescimento da força de trabalho, já que, em 2013, esse movimento foi
puxado por adultos de 25 a 49 anos.
"Além
disso, se o Fies de fato está expurgando jovens do mercado de
trabalho, deveria ocorrer um movimento unidirecional na PEA de
jovens (caindo ao longo de 2012 e caindo em 2013), e o que se vê é uma forte
alta em 2012 e uma 'devolução' quase espelhada em 2013", afirma Velecico.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 18 de março de 2014 – Internet:
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