A PIOR TRAIÇÃO DE DILMA
José Eli da
Veiga*
Valor
Econômico
25-03-2014
«As
barbeiragens de Dilma na presidência do Conselho da Petrobras são
"fichinhas" se comparadas às cometidas na Presidência da República.
Quem nela votou em 2010, mesmo que apenas no segundo turno, precisa revisitar
(ou ler) quais foram os compromissos que apresentou no programa intitulado “Para
o Brasil seguir mudando”»
Em grande maioria foram
compromissos não honrados, conforme exposto aqui em 30/09/13. Nada se compara,
entretanto, à meridiana clareza e à gravidade destas afirmações: "será
dada ênfase à produção de energia renovável", "seguirão privilegiadas
as fontes renováveis de energia". Ocorreu o contrário, e com isso o Brasil
contrariou as históricas decisões do G-20 em Pittsburgh (2009) e Los Cabos
(2012), entrando no clube das nações já "viciadas" em subsidiar o uso
de energias fósseis.
Com compromissos não
honrados, Brasil entrou no clube das nações já "viciadas" em
subsidiar o uso de energias fósseis.
Ao discriminar contra as
energias renováveis em favor das fósseis, o governo Dilma alavancou as emissões
de gases de efeito estufa, aumentando brutalmente a carbonização da economia
brasileira (sua "intensidade-carbono"), na contramão do desenvolvimento
sustentável.
Em tão privilegiadas
condições naturais, como são as brasileiras, esse retrocesso é crime de
lesa-humanidade, mesmo que ainda não esteja assim tipificado no Estatuto de
Roma, ou em sentenças de tribunais penais internacionais.
O prejuízo para as
próximas gerações será bem maior que:
- os US$ 100 bilhões de perdas de valor de mercado impostas à Petrobras e à Eletrobras,
- mais os R$ 63 bilhões "emprestados" aos consumidores e contribuintes para só serem cobrados após o estelionato eleitoral de 2014, e
- mais os atuais riscos de racionamento de eletricidade e de blackouts que poderão advir do prolongado uso sem manutenção das térmicas.
- Tudo umbilicalmente ligado ao estímulo às montadoras para que deixem de inovar na direção de combustíveis mais limpos e
- ao aumento dos deslocamentos individuais em vez dos coletivos, o que só agrava a falta de mobilidade em aglomerações metropolitanas. Gênese, aliás, das manifestações de junho de 2013.
Para o interesse
nacional, contudo, bem pior do que tudo isso junto é o estrago causado à cadeia
do etanol, porque esse foi um dos raros casos em que o Brasil estava
conseguindo transformar vantagens comparativas em vantagens competitivas
justamente no atual âmago da sustentabilidade: a descarbonização.
Quando se compara as
cotações internacionais da gasolina (no Golfo do México, por exemplo.) a seus
preços líquidos mensais nas refinarias brasileiras, é fácil perceber que no
triênio 2011-2013, as defasagens anuais variaram entre R$ 0,14 e R$ 0,24 por
litro, em crescentes déficits que subiram de R$ 3,3 bilhões em 2011 para R$ 6,5
bilhões em 2013, totalizando um rombo de R$ 16 bilhões nos três primeiros anos
do governo Dilma.
Comparados os preços da
gasolina que o Brasil andou importando no triênio aos preços líquidos nas refinarias,
os déficits médios anuais impostos pela orientação dilmista variaram de R$ 0,21
a R$ 0,33 por litro, gerando prejuízo total R$ 2,4 bilhões. Só nos dois
primeiros meses deste ano, um déficit por litro de R$ 0,28 acrescentou mais R$
117 milhões à tão estapafúrdia "liquidação" de energia fóssil,
enquanto a cultura da sustentabilidade recomenda o inverso.
À tão absurda política
de preços foi juntada uma política tributária altamente favorável aos
combustíveis fósseis, em detrimento dos renováveis, e particularmente do
etanol. Primeiro, o governo Dilma promoveu brutal redução da Cide (Contribuição
de Intervenção no Domínio Econômico), para depois - em ato extremista de junho
de 2012 - chegar a zerá-la, visando manter artificialmente estável o preço da gasolina.
Com tamanha radicalização de sua orientação fóssil, Dilma enfiou mais uma
bagatela de R$ 18,5 bilhões nesse delirante saco sem fundo.
É claro que a
competitividade da cadeia produtiva do etanol foi severamente comprometida por
tais políticas de preços e tributos. Quarenta usinas fecharam as portas e há
mais uma dúzia sob a ameaça de ter de fazer o mesmo. Foram assim suprimidos
dezenas de milhares de postos de trabalho e estão ameaçados outros milhares.
Empresas de bens de capital fornecedoras do setor de etanol enfrentam fortes
quedas de faturamento, com perda de outras dezenas de milhares de empregos. Já
nem existe em carteira um único pedido de nova usina.
Mas, atenção, isso ainda
não é tudo. A política dilmista anti-etanol compromete também outra promissora
atividade da mesma cadeia que poderia estar reduzindo o desastroso abuso com
termelétricas. A bioeletricidade da cana chegou a ser a terceira fonte de
geração da matriz elétrica brasileira, com 7% da capacidade instalada. Das
quase quatrocentas usinas sucroenergéticas, 170 chegaram a exportar
bioeletricidade para a rede.
Moral da história: com
planejamento energético minimamente democrático o Brasil certamente teria
cumprido o citado compromisso de 2010, em vez do avesso legado pelo governo Dilma.
* José Eli da Veiga é professor sênior do Instituto de Energia e
Ambiente da USP.
Fonte: Instituto Humanistas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 26 de
março de 2014 – Internet: clique aqui.
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