A fé de um pai perplexo. Vito Mancuso no Brasil
Nayá
Fernandes
Vito Mancuso, teólogo
italiano, pai e autor de muitos livros, entre eles, L’anima e il suo destino (A
alma e o seu destino); Obbedienza e libertà (Obediência e Liberdade), Il
principio passione (O princípio paixão) e Io e Dio (Eu e Deus, publicado no
Brasil este ano por Paulinas Editora) esteve no País, acompanhado por sua
esposa, para o lançamento do seu livro e fez conferências no Rio de Janeiro e
em São Paulo nas faculdades de teologia, institutos e livrarias.
Formado por Ravasi,
Sequeri e Bruno Forte, é colunista no jornal La Repubblica e leciona na
Universidade de Pádua, na Itália. Seus livros tratam de temas da atualidade que
ele procura entender para dialogar, a partir da sua experiência com a Palavra
de Deus. “Passo o meu dia estudando e vivendo o que o Concílio Vaticano II
chama de alegrias, dores, esperanças e expectativas da humanidade”, disse
Mancuso.
“Todos somos convidados
a ser pontes. O oposto disso é ser causa de divisão para outros seres humanos.
Eu não sou um papa. Espero, porém, que minhas palavras tenham uma função
pontifícia, entre a minha interioridade e a de vocês”, disse Vito Mancuso na
aula inaugural do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião da
PUC-SP, na quinta-feira, dia 20 de março.
Já no auditório da
Livraria Paulinas, na sexta-feira, 21, quando Mancuso dividiu a mesa com o
padre Boris Agustin Ulloa, professor de teologia da PUC-SP e com João Décio
Passos, professor associado da PUC-SP e professor doutor do Instituto Teológico
São Paulo. Ao ser questionado sobre as problemáticas que impõe uma reforma do
Cristianismo, Vito Mancuso sugeriu que devemos pensar o Cristianismo como uma
esfera.
“No primeiro nível,
superficial, ou seja, que contém as problemáticas que se veem antes, são as
questões éticas. Penso que a Igreja está à altura do nosso tempo ao que se
refere à moral social, mas não ao que se refere a moral individual. Pensemos,
por exemplo, na Humanae Vitae, de Paulo VI, sobre a regulação do controle de
natalidade. Vejo que a moral sexual ali contida é teórica. Todo mundo sabe que
cerca de 80% das mulheres católicas não seguem a moral da Humanae Vitae. O
cardeal Carlo Maria Martini, ao qual eu fui, sou e serei sempre muito vinculado
sempre dizia que a moral sexual da Humanae Vitae deve ser completamente
refeita.”
No segundo nível da
esfera, estão os problemas eclesiológicos. “Há questões antigas, como por
exemplo, a dignidade do gênero feminino, que mesmo uma instituição que não deu
passos tão significativos. Considero que ainda é cedo para pensar o sacerdócio
feminino, mas poderíamos sim falar de diaconato feminino, pois existem fontes
bíblicas para isso. E poderíamos falar também de um cardinalato feminino, pois
não o cardinalato não está vinculado ao sacerdócio. A história nos ensina que
tivemos cardeais que não eram sacerdotes.”
E por fim, temos
problemas teológicos, sobretudo de teologia fundamental. “Por exemplo, a
questão da fé. O próprio Catecismo da Igreja fala que a fé é dom e ao mesmo
tempo escolha. Como conjugar as duas coisas, na prática? Outro tema é provar
racionalmente a existência de Deus. O Concílio Vaticano I determina anátema
para quem considera isso impossível.”
Outra pergunta feita à
Mancuso, por Carmem Maria Pulga, foi sobre os sinais de uma vida cristã
autêntica. Vito começou dizendo que a indignação, o protesto, a capacidade de
dizer não a um mundo de falsas promessas é já um sinal de autenticidade.
“Não acredito que
podemos ser totalmente devastados pela falsidade. Penso que existe dentro do
ser humano a capacidade de se fascinar pelo bem e pela justiça, temos que ter
confiança nesta capacidade antropológica de sermos atraídos pelo positivo. E,
quando temos disposição para a verdade e a justiça, temos uma luz diferente no
olhar, o bem passa a ser perceptível na nossa saúde. Nós somos o resultado de
milhares de relações harmoniosas. Existimos como um concerto de relações
harmoniosas e quanto mais expressarmos essa harmonia, mais vivemos
autenticamente, ainda que isso signifique provocar caos e dizer não. Nós mesmos
somos interação interna”, completou Mancuso.
Comentários
Postar um comentário