Sobre a missa em latim
Papa Francisco proíbe a Missa “antiga”
Renan Mascarenhas
Diácono na Diocese de Santos (SP), licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Santos e bacharel em Teologia pela PUC-São Paulo
O
Papa Francisco alterou um documento publicado pelo papa anterior não para
mostrar quem manda mais, não para satisfazer um gosto pessoal, mas para cumprir
plenamente o seu ofício de guardião da unidade
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PAPA FRANCISCO assina a Carta Apostólica em Forma de Motu Proprio "Traditiones Custodes" |
O Papa Francisco alterou um documento publicado pelo papa anterior não para mostrar quem manda mais, não para satisfazer um gosto pessoal, mas para cumprir plenamente o seu ofício de guardião da unidade, como cantamos na Marcha Pontifícia: “Tu es unitatis custos” [= Tu és o guardião da unidade].
Para
ler, na íntegra (em espanhol), essa Carta Apostólica em Forma de Motu
Proprio do Sumo Pontífice Francisco, “Traditiones Custodes – Sobre o
uso da liturgia anteriormente à reforma de 1970”, clique aqui
Para ler a carta do Santo Padre Francisco (em espanhol) aos bispos pelo mundo para apresentar o “motu próprio” «TRADITIONIS CUSTODES» sobre o uso da liturgia romana antes da reforma de 1970, clique aqui
Em 1988, o Papa João Paulo II exortou os bispos a atenderem aos apelos dos fiéis que buscavam celebrar o Rito Romano no “modo antigo”, procurando, desse modo, curar uma ferida no corpo eclesial provocada por “católicos” que romperam a comunhão com o Sucessor de Pedro. Por meio da Ecclesia Dei, o Papa precisou esclarecer um conceito-base da Igreja: a Tradição.
É, sobretudo, contraditória uma noção de Tradição que se opõe ao Magistério universal da Igreja, do qual é detentor o Bispo de Roma e o Colégio dos Bispos. Não se pode permanecer fiel à Tradição rompendo o vínculo eclesial com aquele a quem o próprio Cristo, na pessoa do Apóstolo Pedro, confiou o ministério da unidade na sua Igreja (nº 2).
Em 2007, foi a vez de Bento XVI retomar a questão com a Summorum Pontificum ao perceber que, não apenas a geração mais idosa – anterior ao Concílio –, senão também muitos jovens nutriam uma atração por este modo “antigo” de celebrar, e buscavam nele uma autêntica espiritualidade eucarística. Por esta razão, foi dada grande visibilidade à forma extraordinária do rito romano, certo de que tal decisão não seria objeto de divisão na Igreja. Dirigindo-se aos bispos, Bento XVI comentou que, ao assinar este documento, trazia no seu coração o desejo de chegar “a uma reconciliação interna no seio da Igreja”.
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Missal Romano segundo o Concílio de Trento, promulgado pelo Papa Pio V e editado por São João XXIII, em 1962 - utilizado por alguns grupos ultraconservadores da Igreja Católica |
Em 2021, a pauta sobre o uso do Missal pré-conciliar
retornou. “Os oprimidos se tornaram opressores”. Nem todos acompanharam
o movimento do Espírito.
Traíram o coração do Papa Bento e, consequentemente, traíram a
Igreja, aqueles que viram no rito extraordinário a “missa autêntica”, “a missa
de sempre”, incorrendo em graves erros históricos e teológicos.
Traíram o Espírito Santo aqueles batizados que repudiavam a missa LITURGICAMENTE CELEBRADA de Paulo VI. Da mesma forma, é verdade, traíram o Concílio - e ainda traem - aqueles que banalizaram a Sagrada Liturgia com “criatividades”. Vale recordar o que nos ensina a Sacrosanctum Concilium (SC), documento do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia:
“Por isso, ninguém mais [além da Santa Sé,
das Conferências Episcopais e Bispos], mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa,
acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica” (nº 22,
§ 3).
Assim sendo, o Papa Francisco, a quem compete hoje a tutela da unidade da Igreja (Pastor aeternus, 3), como outrora João Paulo II e Bento XVI, precisou agir em favor da reconciliação e da unidade intraeclesial.
Com este novo documento, o Papa não proíbe a “Missa Antiga”, apenas
deseja que ela não seja motivo de divisão na Igreja.
Para isso, imbuído pelo espírito do Concílio Vaticano II, ele contará com o cuidado e a inspiração dos bispos, moderadores da vida litúrgica nas dioceses (SC 22, §1). Além disso, também exortou para que os seminaristas e novos sacerdotes aprendam a fidelidade às rubricas do Missal pós-conciliar.
Enfim, fique claro: o Papa não é contra esse modo de celebrar, é contra a segregação e a instrumentalização dessa missa. Jesus, também a seu tempo, precisou tomar algumas posturas contra aqueles que usaram ritos e “leis” para gerar rivalidades e exclusão.
Exaltamos firmemente que a Igreja é Una. Então vivamos essa verdade
de fé!
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sábado, 24 de julho de 2021 –Internet: clique aqui (acesso em: 24/07/2021).
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