A democracia num beco sem saída?

Pe. Alfredo José Gonçalves
Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos
Vigário Geral
Roma – Itália

Reciprocamente, dinheiro compra poder e o poder faz acumular
mais dinheiro. Uma dinastia, a econômica, ressuscita
“milagrosamente” a outra, a política.
PE. ALFREDO JOSÉ GONÇALVES

A virada à direita em alguns países de relativa importância no universo ocidental, incluindo os Estados Unidos, significa que a democracia entrou num beco sem saída? Talvez convenha retomar a famosa frase de Bertrand Russell, o qual, comentando a filosofia de Locke, escreve que “as dinastias políticas desapareceram, mas as dinastias econômicas sobrevivem” (Cf. História do pensamento ocidental). Com tal pensamento, e de olho nas eleições de 2018, talvez nãos seja ocioso tecer algumas considerações.

Historicamente, de fato, a partir de um determinado momento a herança do poder, de pai para filho, deste para o neto, e assim sucessivamente, revelou-se um excrescência fóssil, cristalizada. Até então, o exercício do poder era não somente de caráter hereditário, mas em muitos casos de origem divina. Não raro os reis subiam ao trono com a benção da Igreja. O brilho do renascimento, as luzes do iluminismo, a declaração da independência dos Estados Unidos (1776) e a Revolução Francesa (1789), entre outros fatores, contribuíram para combater e banir as dinastias políticas. Nasce e expande-se, segundo Abraham Lincoln, “o governo do povo, pelo povo, para o povo”.

Nada disso, porém, impediu que as grandes heranças de ordem econômica, tais como contas bancárias, títulos e propriedades imobiliárias, permanecessem intocáveis. “Propriedade privada” – advertem as placas! Se, de um lado, é verdade que o processo democrático reduziu a dinastia política a um resquício histórico tolerado apenas em países retrógrados, também é certo que não conseguiu distribuir com maior equidade a riqueza e os bens por todos produzidos. Enquanto a primeira vinha relegada a uma peça de museu, uma relíquia de tempos antiquados, a assimetria econômica, longe de aproximar os extremos, alargava cada vez mais o fosso das desigualdades entre o topo e a base da pirâmide social.

Tanto é verdade que, mesmo hoje em dia, semelhante contradição é vista como normal por grande parte da população. Esta aceita com relativa naturalidade que os filhos e/ou familiares de um milionário ou bilionário falecido, e somente seus filhos e familiares, sejam os herdeiros legítimos de uma riqueza acumulada por vias nem sempre transparentes. Ao mesmo tempo, contudo, em nome da democracia, rejeita qualquer forma de hereditariedade quando está em jogo o exercício do poder. Neste caso, entra em cena a visão consolidada da democracia. Numa palavra, esta última agita as águas e as ondas superficiais da política, mas deixa intactas as correntes subterrâneas de uma economia cada vez mais globalizada e centrada no mercado financeiro.

O problema é que a contradição acima assinalada vai mais a fundo. Deixando o campo livre a essas heranças estratosféricas e incalculáveis, a dinastia econômica, com a força bruta da renda, da riqueza e da própria influência, adquire o poder de resgatar a dinastia política. É sabido e notório que para “fabricar” um candidato e disputar uma campanha eleitoral, é necessária uma soma de dinheiro nada desprezível. Bem poucos são capazes de arcar com tais custos. O resultado torna-se óbvio: somente os ricos podem dar-se ao luxo de antecipar tais despesas, comprando o espaço e o tempo nos meios de comunicação social, e até mesmo comprando diretamente o voto dos eleitores. Essas despesas, por outro lado, caso se confirme a vitória, serão generosamente reembolsadas.

Reinstala-se, assim, o círculo vicioso que une e entrelaça ambas as dinastias. A herança de enormes fortunas abre as portas ao exercício do poder, ao mesmo tempo que este abre canais e mecanismos para novas oportunidades de investimentos, os quais, a seu turno, trazem de volta a dinastia do governo. Daí as históricas oligarquias ao longo da trajetória política brasileira, para não falar do corporativismo partidário ou de classe, nem da corrupção crônica. Reciprocamente, dinheiro compra poder e o poder faz acumular mais dinheiro. Uma dinastia, a econômica, ressuscita “milagrosamente” a outra, a política. Ao fim e ao cabo, magnatas e homens de Estado, ricos e governantes, tornam-se “farinha do mesmo saco”.

Resta o desafio de purificar essa mútua promiscuidade. Depurar o processo democrático da força e da tirania dos gigantescos conglomerados de empresas transnacionais. É certo que o dinheiro tudo compra, e a quem o possui, tudo é passível de venda. Mas, no processo democrático, permanecem de pé determinados princípios éticos e morais que não podem entrar nessa lógica do mercado total. Às vésperas das eleições de 2018, é hora de rever tais princípios, no sentido de submeter a economia à política do bem-estar comum. E esta às necessidades básicas e urgentes da população de baixa renda. Disso resulta a insistência em retomar os critérios de participação nas causas populares, para avaliar cuidadosamente os candidatos. Só assim a democracia poderá ainda apresentar qualquer saída alternativa.

Fonte: Divulgação do próprio autor através de e-mail – Roma, 14 de novembro de 2017.

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