QUINTA-FEIRA SANTA - CEIA DO SENHOR - HOMILIA
Evangelho: João 13,1-15
Fonte: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de
José A. Pagola – Segunda-feira, 14 de abril de 2014 – 10h48 –
Internet: clique aqui.
1 Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a
sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no
mundo, amou-os até o fim.
2 Estavam tomando a ceia.
O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o
propósito de entregar Jesus. 3 Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que
de Deus tinha saído e para Deus voltava, 4 levantou-se da mesa, tirou
o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. 5 Derramou água numa bacia
e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que
estava cingido.
6 Chegou a vez de Simão
Pedro. Pedro disse: “Senhor, tu me lavas os pés?” 7 Respondeu Jesus: “Agora,
não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás”.
8 Disse-lhe Pedro: “Tu
nunca me lavarás os pés!” Mas Jesus respondeu: “Se eu não te lavar, não terás
parte comigo”. 9 Simão Pedro disse: “Senhor, então lava não somente os meus pés,
mas também as mãos e a cabeça”.
10 Jesus respondeu: “Quem
já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também
vós estais limpos, mas não todos”.
11 Jesus sabia quem o ia
entregar; por isso disse: “Nem todos estais limpos”.
12 Depois de ter lavado os
pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo. E disse aos
discípulos: “Compreendeis o que acabo de fazer? 13 Vós me chamais Mestre e
Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. 14 Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós
deveis lavar os pés uns dos outros. 15 Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz.
JOSÉ ANTONIO PAGOLA
DESPEDIDA
INESQUECÍVEL
Jesus
também sabe que suas horas estão contadas. No entanto, não pensa em ocultar-se
ou fugir. O que faz é organizar uma ceia especial de despedida com seus amigos
e amigas mais próximos. É um momento grave e delicado para ele e para seus
discípulos: o quer viver com toda a profundidade. É uma decisão pensada.
Consciente
da iminência de sua morte, necessita compartilhar com os seus sua confiança
total no Pai, inclusive nesta hora. Quer prepará-los para um golpe muito duro;
sua execução não lhes deve afogar na tristeza ou no desespero. Devem partilhar
juntos as interrogações que se despertam em todos eles: o que será do reino de
Deus sem Jesus? O que devem fazer os seus seguidores? Onde vão alimentar, de
agora em diante, sua esperança na vinda do reino de Deus?
Ao que
parece, não se trata de uma ceia pascal. É certo que algumas fontes indicam que
Jesus quis celebrar a ceia de Páscoa ou Sêder com seus discípulos, na qual os
judeus comemoram a libertação da escravidão egípcia. No entanto, ao descrever o
banquete, não se faz uma única alusão à liturgia da Páscoa, nada se diz do
cordeiro pascal nem das ervas amargas que se comem nessa noite, não se recorda
ritualmente a saída do Egito, tal como estava prescrito.
Por
outro lado, é impensável que nessa mesma noite em que todas as famílias estavam
celebrando a ceia mais importante do calendário judaico, os sumos sacerdotes e
seus auxiliares desejassem se ocupar da prisão de Jesus e organizar uma reunião
noturna com a finalidade de concretizar as acusações mais graves contra ele.
Parece mais verossímil a informação de outra fonte que situa a ceia de Jesus
antes da festa de Páscoa, pois nos diz que Jesus é executado aos 14 de Nisan,
véspera de Páscoa. Desse modo, não parece possível estabelecer, com segurança,
o caráter pascal da última ceia. Provavelmente, Jesus peregrinou até Jerusalém
para celebrar a Páscoa com seus discípulos, porém não pôde levar a cabo seu
desejo, pois foi preso e executado antes que chegasse essa noite. No entanto,
ele teve tempo para celebrar uma ceia de despedida.
De
qualquer modo, não é uma refeição ordinária, mas uma ceia solene, a última de
tantas outras que haviam sido celebradas pelas aldeias da Galileia. Beberam
vinho, como se fazia nas grandes ocasiões; cearam reclinados para ter uma
refeição tranquila, não sentados, como faziam a cada dia.
Provavelmente,
não é uma ceia de Páscoa, porém no ambiente se respira a excitação das festas
pascais. Os peregrinos fazem seus últimos preparativos: adquirem pão ázimo e
compram seu cordeiro pascal. Todos buscam um lugar nos albergues ou nos pátios
e terraços das casas. O grupo de Jesus também busca um lugar tranquilo. Essa
noite, Jesus não se retira a Betânia, como nos dias anteriores. Permanece em
Jerusalém. Sua despedida deve ser celebrada na cidade santa. Os relatos dizem
que celebrou a ceia com os Doze, porém não devemos excluir a presença de outros
discípulos e discípulas que vieram com ele em peregrinação. Seria muito
estranho que, contrariando o seu costume de partilhar sua mesa com toda classe
de pessoas, inclusive pecadores, Jesus adotasse, repentinamente, uma atitude
tão seletiva e restringente.
Podemos saber, realmente, o que se viveu
nessa ceia?
Jesus
vivia as refeições e ceias que fazia na Galileia como símbolo e antecipação do
banquete final no reino de Deus. Todos conhecem essas refeições animadas pela fé
de Jesus no reino definitivo do Pai. Esse é um
dos traços característicos enquanto percorre as aldeias. Também esta noite,
aquela ceia lhe faz pensar no banquete final do reino. Dois sentimentos tomam
conta de Jesus. Primeiro, a certeza de sua morte iminente; não o pode evitar: aquele
é o último cálice que irá partilhar com os seus; todos o sabem: não há que ter
ilusões. Ao mesmo tempo, sua confiança inquebrantável no reino de Deus, ao qual
dedicou sua vida inteira.
Fala
com clareza: “Asseguro-vos: já não beberei mais do fruto da videira até o dia
em que o beba, de novo, no reino de Deus”. A morte está próxima. Jerusalém não
quer responder ao seu chamado. Sua atividade como profeta e portador do reino
de Deus será violentamente truncada, porém sua execução não impedirá a chegada
do reino de Deus que foi anunciado a todos. Jesus mantém inalterável sua fé
nessa intervenção salvadora de Deus. Está seguro da validade de sua mensagem.
Sua morte não haverá de destruir a esperança de ninguém. Deus não se retirará.
Um dia, Jesus se assentará à mesa para celebrar, com um cálice em suas mãos, o
banquete eterno de Deus com seus filhos e filhas. Beberão um vinho “novo” e
compartilharão juntos a festa final do Pai. A ceia desta noite é um símbolo.
Movido
por esta convicção, Jesus se dispõe a animar a ceia contagiando seus discípulos
com sua esperança.
Começa
a refeição seguindo o costume judaico: põe-se em pé, toma em suas mãos o pão e
pronuncia, em nome de todos, uma bênção a Deus, à qual todos respondem dizendo “amém”.
Em seguida, rompe o pão e vai distribuindo um pedaço a cada um. Todos conhecem
aquele gesto. Provavelmente viram Jesus fazê-lo em mais de uma ocasião. Sabem o
que significa aquele rito de quem preside a mesa: ao servi-lhes com este pedaço
de pão, Jesus lhes faz chegar a bênção de Deus. Como isso lhes impressionava
quando o fazia para os pecadores, publicanos e prostitutas!
Ao
receber aquele pão, todos se sentem unidos entre si e com Deus. Porém, naquela
noite, Jesus acrescenta umas palavras que dão um conteúdo novo e insólito ao
seu gesto. Enquanto lhes distribui o pão, lhes diz estas palavras: “Este é o
meu corpo. Eu sou este pão. Vejam-me nestes pedaços entregando-me até o final,
para fazer-lhes chegar a bênção do reino de Deus”.
O que aqueles homens e mulheres sentiram
quando escutaram, pela primeira vez, estas palavras de Jesus?
Surpreende-lhes,
muito mais, aquilo que ele faz ao terminar a ceia. Todos conhecem o rito que se
costumava realizar. Ao final da refeição, aquele que presidia a mesa, permanecendo
sentado, tomava em sua mão direita um cálice de vinho, a mantinha a um palmo de
altura sobre a mesa e pronunciava, sobre ela, uma oração de ação de graças pela
refeição, ao final da qual, todos respondiam “amém”. Em seguida, bebia de seu cálice,
gesto que servia de sinal para que cada um bebesse, também, da sua.
No
entanto, naquela noite, Jesus muda o rito e convida os seus discípulos e discípulas
para que todos bebam de um único cálice: o seu! Todos compartilham desse “cálice
de salvação” abençoado por Jesus. Nesse cálice que vai sendo passado e
oferecido a todos, Jesus vê algo “novo” e peculiar que deseja explicar: “Este
cálice é a nova Aliança em meu sangue. Minha morte abrirá um futuro novo para
vós e para todos”. Jesus não pensa, somente, em seus discípulos mais próximos.
Neste
momento decisivo e crucial, o horizonte de seu olhar se faz universal: a nova
Aliança, o reino definitivo de Deus, será para muitos, “para todos”.
Com estes
gestos proféticos da entrega do pão e do vinho, partilhados por todos, Jesus converte aquela ceia de despedida
numa grande ação sacramental, a mais importante de sua vida, a que melhor resume seu serviço ao reino de
Deus, aquela que deseja deixar gravada para sempre em seus seguidores. Deseja
que permaneçam vinculados a ele e que alimentem nele sua esperança. Que o
recordem sempre dedicado a seu serviço. Continuará sendo “o que serve”, aquele
que ofereceu sua vida e sua morte por eles, o servidor de todos. Assim está no
meio deles naquela ceia e assim quer que o recordem sempre.
O pão e
o cálice de vinho lhes evocarão, antes de mais nada, a festa final do reino de
Deus; a entrega desse pão a cada um e a participação no mesmo cálice lhes
trarão à memória a entrega total de Jesus. “Por vós”: estas palavras resumem
bem o que foi sua vida ao serviço dos pobres, enfermos, pecadores, desprezados,
oprimidos, todos os necessitados... Estas palavras expressam o que será, agora,
sua morte: “desviveu-se” para oferecer a todos, em nome de Deus, acolhida,
cura, esperança e perdão.
Entrega
sua vida até a morte oferecendo a todos a salvação do Pai.
Assim
foi a despedida de Jesus, a qual ficou gravada para sempre nas comunidades
cristãs. Seus seguidores não ficaram órfãos; a comunhão com ele não ficará
quebrada devido sua morte; se manterá até que um dia bebam todos juntos o
cálice de “vinho novo” no reino de Deus. Não sentirão o vazio de sua ausência:
repetindo aquela ceia poderão alimentar-se de sua recordação e de sua presença.
Ele estará com os seus sustentando sua esperança; eles prolongarão e
reproduzirão seu serviço ao reino de Deus até o reencontro final.
De modo
germinal, Jesus está desenhando em sua despedida as linhas mestras de seu
movimento de seguidores: uma comunidade alimentada por ele mesmo e dedicada,
totalmente, a abrir caminhos ao reino de Deus, numa atitude de serviço humilde
e fraterno, com a esperança colocada no reencontro da festa final.
Jesus
faz, além disso, algum novo sinal convidando seus discípulos ao serviço
fraterno? O evangelho de João diz que, num momento determinado da ceia,
levantou-se da mesa e “se pôs a lavar os pés dos discípulos”. Segundo o relato,
ele fez isso para dar exemplo a todos e fazer saber que seus seguidores
deveriam viver em atitude de serviço mútuo: “Lavando os pés uns aos outros”. A
cena é, provavelmente, uma criação do evangelista, porém recolhe de maneira
admirável o pensamento de Jesus. O gesto é insólito.
Numa
sociedade onde está determinado, tão perfeitamente, o papel das pessoas e dos
grupos, é impensável que o comensal de uma refeição festiva e, menos ainda,
aquele que preside a mesa, se ponha a realizar uma tarefa humilde reservada a
servos e escravos. Segundo o relato, Jesus deixa o seu lugar e, como um
escravo, começa a lavar os pés dos discípulos. Dificilmente, pode-se traçar uma
imagem mais expressiva do que foi sua vida, e do que deseja deixar gravado para
sempre em seus seguidores. Repetiu-o muitas vezes: “Aquele que quiser ser
grande entre vós, será o vosso servidor; e o que quiser ser o primeiro entre
vós, será escravo de todos”. Jesus expressa isso, agora, plasticamente nesta
cena: limpando os pós de seus discípulos está atuando como servo e escravo de
todos; dentro de algumas horas morrerá crucificado, um castigo reservado,
sobretudo, a escravos.
Traduzido
do espanhol por Telmo José Amaral de
Figueiredo.
Comentários
Postar um comentário