As mesmas drogas, 25 anos mais tarde
Washington Novaes
Jornalista
Reler textos antigos, escritos há um quarto de século, pode
ser melancólico, dar a sensação de que essencialmente nada mudou, a não ser
talvez os protagonistas. É o que acontece neste momento, quando o autor destas
linhas se depara com artigos desse tempo. Principalmente um escrito em 1989
para o Jornal da Universidade (Federal de Goiás), a propósito de drogas - tema
que atualmente ocupa, a cada dia, páginas e páginas dos jornais e grande parte
do noticiário de televisão.
Um
texto que teve como título As drogas deste mundo comentava as ameaças ao poder
explicitadas pelo cartel de Medellín, até mesmo insinuações entre candidatos à
Presidência da República no horário eleitoral. E perguntava: "Como
discutir as drogas sem discutir a natureza do nosso processo civilizatório?
Essa é a questão real - o próprio processo civilizatório".
Segue,
então, o texto: "Em 1968, os jovens do Ocidente puseram em questão as
instituições e o poder. A vaga contestadora que varreu o mundo ocidental
acabou, afinal, contida, em alguns lugares até com a ajuda ou a complacência de
frações da própria esquerda. E o que sobrou foi a absorção do que havia de mais
palatável ou comercializável na onda ocidental - a roupa, o cabelo, a música, a
liberação sexual e pouco mais. Vinte anos depois, é o bloco socialista que
enfrenta o seu 1968, com certo retardo, mas com características semelhantes às
da vaga ocidental, de contestação das instituições e do poder em nome da
liberdade de organização e de vida".
E
continuava o texto: "Pode-se perguntar o que tem a ver um jornal de
universidade em Goiás com essas questões. Pode ter muito. Porque todas as vezes
que surgem essas notícias começa também um suposto debate sobre a questão das
drogas. Que dá sempre em nada, fica sempre pelo meio do caminho. Porque é um
falso debate. E a questão das drogas tem muito que ver com a Universidade, já
que se trata de um problema social - sobre o qual a Universidade deve se deter
- e porque o público principal das drogas está nos jovens, que são também o
público da Universidade".
E
depois: "O debate é falso, porque isola a questão das drogas. Elas são
discutidas como se nada mais tivessem que ver com o conjunto da sociedade e
principalmente com os seus problemas, os seus nós. Como discutir drogas, por
exemplo, sem discutir outras drogas, como o fumo e o álcool? Como discutir
drogas sem discutir todos os venenos nossos de cada dia, que vão dos
agrotóxicos aos antidistônicos, do mercúrio dos garimpos à poluição industrial
das águas e do ar? Como discutir drogas sem discutir a poluição nuclear e
armamentista, o lixo radiativo, os incentivos fiscais para produzir carvão
vegetal na Amazônia?".
Não
era só: "Mas no Ocidente já se esboça uma nova vaga, principalmente na
Europa. E esta põe em questão o processo civilizatório. Vamos poder continuar
vivendo no planeta da forma atual, fazendo de conta que os recursos são
inesgotáveis e podem ser eternamente distribuídos de forma injusta, predatória
e desperdiçadora, que caracteriza a nossa vida de hoje? O crescimento econômico
pode ser um alvo permanente ou tem limites? De que forma podem e devem ser
distribuídos os recursos da Terra (hoje, os Estados Unidos, com cerca de 6% da
população mundial, consomem 35% de todas as formas de energia produzidas, dos
alimentos ao petróleo)? A biodiversidade do Terceiro Mundo vai continuar
sustentando o crescimento do Primeiro Mundo e os seus altos padrões de consumo?
O projeto Grande Carajás vai devastar daqui a pouco 12 mil quilômetros
quadrados por ano para alimentar as siderúrgicas e usinas de ferro-ligas que
abastecerão o Primeiro Mundo de produtos baratos, evitando ao mesmo tempo que
os habitantes de lá sejam obrigados a respirar poluição e abrigar lixo? As
grandes hidrelétricas vão continuar inundando milhares de quilômetros quadrados
da Amazônia para fornecer energia elétrica subsidiada aos grandes produtores de
alumínio? Ou vamos ter que repensar tudo?".
Hoje,
2014, poder-se-ia repetir tudo, com exceção dos incentivos fiscais para o
desmatamento destinado a abastecer os fornos de siderúrgicas e usinas de
ferro-ligas, que venderiam tudo barato para o Primeiro Mundo - deixando os ônus
aqui. O fim desses incentivos específicos custou a demissão do então titular do
Meio Ambiente, o saudoso José Lutzenberger, por exigência de um ministro que
chefiava o lobby das madeireiras. Mas incentivos fiscais na Amazônia continuam
a proliferar, contribuindo para vários problemas graves ou para a falta de
soluções para alguns deles.
De
qualquer forma, o texto de 1989 terminava citando exposição do professor
Eduardo Viola (hoje na Universidade de Brasília), que alinhara os pontos que
considerava básicos para a discussão dos problemas: "1) A fome crônica de
um terço da humanidade e a superpopulação; 2) o armamentismo e a capacidade de
'overkill' das grandes potências; 3) o processo generalizado de envenenamento
do ar, da água e das cadeias alimentares; 4) o chamado efeito estufa, o aumento
da temperatura no planeta e em função do acúmulo de dióxido de carbono e outros
gases na atmosfera (com a possível influência no derretimento das calotas
polares; e 5) a extinção da biodiversidade no Terceiro Mundo".
E
o artigo encerrava afirmando que "é por aí que a discussão tem de começar.
Por essas drogas. Se for levada a sério, chegaremos às outras drogas. Pra
valer".
De
fato, em 1989 estavam presentes também os linchamentos, apenas com mudanças de
ênfase, porque muitas das vítimas de então hoje poderiam estar entre os
"emergentes sociais". E começava a estar presente a descrença em
transformações a partir de reformas políticas. Ou seja, um quarto de século
depois, está na hora de colocar tudo em cima da mesa, reconformar a discussão.
E chegar a novas propostas de mudanças.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Espaço aberto
– Sexta-feira, 25 de abril de 2014 – Pg. A2 – Internet: clique aqui.
Comentários
Postar um comentário