Brasil é o terceiro país do mundo com mais conflitos ecológicos
RENATO GRANDELLE
Segundo levantamento global, busca por recursos naturais
prejudica comunidades tradicionais
Posição do país no ranking seria explicada pela abundância
de projetos de infraestrutura relacionados ao meio ambiente
A exploração mineral, o desmatamento e a disputa por terras
e água estão entre os maiores motivos de conflitos ambientais do mundo, segundo
um levantamento internacional divulgado recentemente pela ONG Ejolt
(Environmental Justice Organizations, Liabilities and Trade) e coordenado pela
Universidade Autônoma de Barcelona (UAB). Os pesquisadores identificaram 945
casos em 78 países. Empatado com a Nigéria, o Brasil foi o terceiro colocado no
ranking, com 58 casos, atrás apenas da Índia (112) e da Colômbia (77).
Os conflitos do país, segundo o Atlas Global de Justiça
Ambiental, estão ligados à abundância de projetos de infraestrutura
relacionados ao meio ambiente. São obras, como a construção de hidrelétricas,
que dividem ativistas e empreiteiras; e o setor agrícola, cujas plantações
invadem unidades de conservação.
— O crescimento da população mundial provocará uma busca
cada vez mais intensa por commodities, e o Brasil, que é rico em terra, água,
petróleo e minérios, será um alvo — descreve Leah Temper, coordenadora do
Atlas. — E estes recursos estão em terras ocupadas por indígenas, quilombolas e
pequenos agricultores. Estes grupos serão os mais afetados.
Entre os conflitos ecológicos brasileiros estão episódios de
grilagem para especulação imobiliária e a disputa por regiões que poderiam
receber projetos como barragens hidrelétricas. São instalações que ampliam a
geração de energia por uma matriz energética considerada limpa, mas que
provocam alto impacto ambiental no local de sua construção.
Falhas na legislação
Apesar do processo de industrialização nacional ter
catapultado nas décadas passadas, as exportações do Brasil são altamente
dependentes de produtos do setor primário. Em 2012, metade dos produtos
comercializados para outras nações vinham do agronegócio — carne, soja, etanol,
por exemplo — e outros semiacabados, entre eles alumínio e aço bruto. O
potencial econômico do campo leva extrativistas a se aventurarem em reservas
indígenas.
Professor de Direito Ambiental da Fundação Getúlio Vargas,
Rômulo Sampaio lembra que a exploração de commodities sempre gera disputa de
interesses.
— O petróleo, por exemplo, provoca interesses nacionais,
conservacionais e do mercado privado — destaca. — No campo, o problema
fundiário torna o conflito ainda mais agudo, devido à desigualdade na
distribuição de propriedades.
Sampaio atribui os dilemas ambientais e suas consequências
sociais a falhas graves na legislação.
— Não há uma discussão sobre como lidar com os conflitos —
condena. — Falta uma orientação, uma política pública. O debate só aparece na
hora de implementação de cada projeto. Por isso, aumenta o número de ações no
Judiciário.
A Fiocruz realiza, desde o ano passado, um catálogo sobre
injustiças ambientais no Brasil. O órgão foi uma das fontes do mapeamento da
UAB e, em trabalhos independentes, destaca os danos à saúde coletiva provocados
pelos conflitos ecológicos. Nas grandes cidades, moradores no entorno de lixões
estão sujeitos a doenças respiratórias, dengue e leptospirose.
Já a atuação da indústria em áreas próximas a rios leva à
alteração do ciclo reprodutivo da fauna, a doenças cardíacas e à insegurança
alimentar.
— Analisamos denúncias de problemas de saúde causados por
conflitos ecológicos, como a contaminação de rios por agrotóxicos — revela
Marcelo Firpo Porto, professor do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e
Ecologia Humana, da Escola Nacional de Saúde Pública. — As doenças estão
ligadas à degradação dos ecossistemas.
Em seu novo mapeamento, a Fiocruz já identificou 450 casos
de conflito ecológico no Brasil.
— Levamos ao mapeamento da UAB os casos mais emblemáticos,
relacionados ao comércio internacional — conta. — Mas conhecemos muitas outras
ocorrências, de âmbito regional ou nacional.
No Rio, por exemplo, a Zona Oeste registra dois casos que
seriam atentados à justiça ambiental. O polo industrial de Santa Cruz já
provocou emissões de uma poeira de ferro e carbono, que causa danos ao aparelho
respiratório.
Na Barra da Tijuca, moradores de comunidades vizinhas à Vila
do Autódromo são ameaçadas de remoção devido à especulação imobiliária. A
região receberá instalações para os Jogos Olímpicos. Segundo a Fiocruz,
alterações já realizadas pelo assoreamento de recursos hídricos no local pioram
a qualidade de vida da população.
Para Sampaio, as comunidades urbanas e rurais têm em comum a
falta de mobilização, que permite a sobrevivência de problemas seculares.
— Não existe uma organização social entre as comunidades
menos favorecidas, o que prejudica sua representatividade — assinala.
Leah, que está à frente da organização do Atlas, reconhece
que o mapeamento ainda tem um longo caminho para percorrer. Nesta primeira
edição, o trabalho contou com a adesão de 23 universidades e ONGs de justiça
ambiental de 18 países.
“Dívida ambiental”
O levantamento não chegou a regiões expressivas do planeta,
como a China, a Ásia Central e o Oriente Médio.
— Temos muitos lugares em branco no mapa — reconhece. — Mas,
agora que ele é público, vamos convidar pesquisadores e ativistas dessas
regiões para documentar outros conflitos e expandir o nosso conhecimento.
A coordenadora do Atlas, no entanto, assegura que a
iniciativa já confirma um padrão histórico.
— O Hemisfério Sul continua suprindo as nações desenvolvidas
com manufaturas de baixo preço e pagam um alto preço ecológico. As nações ricas
têm uma “dívida ambiental” — analisa.
Para acessar o Atlas Global de Justiça Ambiental (muito interessante, aliás),
clique aqui.
Fonte: O Globo –
Sociedade/Ciência – 08/04/2014 – 06h00 – Internet:
clique aqui.
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