DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO - HOMILIA
Evangelho: Mateus 27,11-54
Para ler o texto evangélico, clique aqui.
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JOSÉ ANTONIO PAGOLA
COMPROMETER A VIDA
Estamos tão familiarizados com a cruz do Calvário
que não nos causa mais impressão alguma. O costume a domestica e “rebaixa”
tudo. Talvez, esta semana de tão profundo significado para aqueles que têm fé,
seja uma boa ocasião para recordar aspectos demasiado esquecidos de Jesus
Crucificado.
Iniciemos por dizer que Jesus não morreu de morte
natural. Sua morte não foi a extinção esperada de sua vida biológica. Mataram
Jesus violentamente.
Não morreu, tampouco, vítima de um acidente
casual nem fortuito, mas executado depois de um processo solene levado a cabo
pelas forças religiosas e civis mais influentes daquela sociedade.
Sua morte foi consequência da reação que provocou
com sua atuação livre, fraterna e solidária com os mais pobres e abandonados
daquela sociedade.
Isso quer dizer que não se pode viver o evangelho
impunemente. Não se pode construir o reino de Deus, que é reino de
fraternidade, liberdade e justiça, sem provocar a rejeição e a perseguição
daqueles aos quais não interessa mudança alguma. Impossível a solidariedade com
os indefesos sem sofrer a reação dos poderosos.
Jesus se comprometeu a viver o amor ao homem até
o final. E, justamente por isso, viu sua vida comprometida. Seu compromisso por
criar uma sociedade mais justa e humana foi tão concreto e sério que até sua
própria vida ficou comprometida.
E, no entanto, Jesus não foi um guerrilheiro nem
um líder político nem um fanático religioso. Mas um homem no qual se encarnou e
se fez realidade o amor ilimitado de Deus a todos os seus filhos.
Por isso, agora sabemos quais são as forças que
se sentem ameaçadas quando o amor verdadeiro penetra numa sociedade, e como
reagem violentamente tratando de suprimir e sufocar a atuação daqueles que
buscam uma fraternidade mais justa e livre.
O evangelho sempre será perseguido por aqueles
que colocam a segurança e a ordem legal acima da fraternidade e da justiça
(farisaísmo).
O reino de Deus sempre se verá obstaculizado por
toda força política que se entenda, a si mesma, como poder absoluto (Pilatos).
A mensagem do amor será rejeitada em sua raiz por toda religião na qual Deus
não seja Pai de todos (sacerdotes judeus).
O seguimento a Jesus conduz, sempre, à cruz.
Implica disponibilidade para sofrer o conflito, a polêmica, a perseguição e,
até, a morte.
Porém a ressurreição de Jesus nos revelará que
este é o caminho de salvação e nos recordará algo que, tampouco hoje, devemos
esquecer: não se salva o homem matando-o, mas morrendo por ele.
NADA PÔDE DETÊ-LO
Segundo uma ideia bem difusa entre o povo judeu,
o destino que espera o profeta é a incompreensão, a rejeição e, em muitos
casos, a morte. Provavelmente, Jesus contou, desde muito cedo, com a
possibilidade de um final violento.
Jesus não foi um suicida nem buscava o martírio.
Nunca quis o sofrimento nem para ele nem para ninguém. Dedicou sua vida a
combater o sofrimento na enfermidade, nas injustiças, na marginalização ou na
desesperança. Viveu dedicado a “buscar o reino de Deus e sua justiça”: esse
mundo mais digno e feliz para todos, que busca seu Pai.
Se aceita a perseguição e o martírio é por
fidelidade a esse projeto de Deus que não quer ver sofrer a seus filhos e
filhas. Por isso, não pede pela morte, mas, tampouco, recua diante dela. Não
foge diante das ameaças nem modifica ou suaviza a sua mensagem.
Teria sido fácil para ele evitar a execução.
Bastaria ter se calado e não insistir no que poderia irritar o templo ou o
palácio do prefeito romano. Não o fez. Seguiu seu caminho. Preferiu ser
executado antes que trair sua consciência e ser infiel ao projeto de Deus, seu
Pai.
Aprendeu a viver num clima de insegurança,
conflitos e acusações. Dia após dia, foi reafirmando sua missão e continuou anunciando,
com clareza, a sua mensagem. Atreveu-se a difundi-la não somente nas aldeias
distantes da Galileia, mas nas perigosas proximidades do templo. Nada o deteve.
Morrerá fiel a Deus em quem sempre confiou.
Continuará acolhendo a todos, inclusive os pecadores e indesejáveis. Se
acabarem rejeitando-0, morrerá como um “excluído”, porém confirmará, com sua
morte, o que foi sua vida inteira: confiança total num Deus que não rejeita nem
exclui ninguém de seu perdão.
Prosseguirá buscando o reino de Deus e sua
justiça, identificando-se com os mais pobres e desprezados. Se um dia o
executarem no suplício da cruz, reservado para escravos, morrerá como o mais
pobre e desprezado, porém com sua morte selará para sempre sua fé num Deus que
deseja a salvação do ser humano de tudo aquilo que o escraviza.
Os seguidores de Jesus descobrem o Mistério
último da realidade, encarnado em seu amor e entrega extrema ao ser humano. No
amor desse crucificado está o próprio Deus identificado com todos os que
sofrem, gritando contra todas as injustiças e perdoando os algozes de todos os
tempos. Neste Deus se pode crer ou não crer, porém não é possível escarnecer
dele. Nele confiam os cristãos. Nada o deterá em seu empenho de salvar os seus
filhos.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
Fonte:
MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola – Segunda-feira, 7 de abril de 2014 – 22h29 –
Internet: clique aqui.
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