Uma ninfo no trabalho
Luiz Felipe Pondé*
Folha de S. Paulo / Colunista
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Lars von Trier - cineasta dinamarquês |
O que você faria, minha cara leitora, caso tivesse uma amiga
ninfo por perto ou uma colega ninfo no trabalho? Diria que considerar uma
mulher ninfomaníaca é opressão patriarcal e deixaria ela viajar com seu marido?
O filme "Ninfomaníaca", volumes 1 e 2, de Lars von
Trier, parece dizer que o cineasta dinamarquês decidiu por encerrar seu
percurso melancólico com um enquadramento mais psicológico.
No "Anticristo" e em "Melancolia", o
universo dramático girava tanto em torno do mundo psicológico (claramente desqualificado
no "Anticristo", materializado no marido psicólogo bobo), quanto do
teológico e cosmológico.
Do jardim do Éden no "Anticristo" a um planeta
chamado Melancolia (no filme que recebe seu nome) em rota de colisão com a
Terra, o cineasta dava objetividade (teológica e cosmológica) ao que poderia
ser compreendido como "apenas" um estado subjetivo.
Em "Ninfomaníaca", esta vastidão parece se reduzir
ao drama de Joe e sua infância traumática (pai amoroso e fraco, mãe "cold
bitch"), objeto para uma "simples" sessão de terapia. Mas, não
nos enganemos, a devastação que a compulsão de Joe causa vai muito além das
"manias" de uma paciente tarada. O espectro social de sua condição
levanta inúmeros temas que avançam e definem, por exemplo, diferenças entre Lars
von Trier e Marquês de Sade, seu "parceiro" em termos de concepção
cosmológica de mundo nos dois filmes anteriores.
Em Sade a natureza é cruel e nos cria para nos devorar, nos
fazer sofrer, e goza em nos matar (relembrando conteúdos gnósticos e maniqueus
do velho cristianismo nascente nos primeiros séculos de nossa era, com exceção
da sacanagem por que esses cristãos estranhos eram um purinhos).
Lars von Trier se afasta do Sade político (a perversão em
Sade é "republicana") e dessa chatice de dizer que sexo é política
porque a repressão sexual seria política. Sade idealiza o sexo como libertação
e, como ele, toda a baboseira da revolução sexual posterior. Von Trier não
idealiza o sexo e vê a perversão como tédio da repetição. Ele já se afastara da
política quando sua heroína no "Anticristo" abandona sua tese de
doutorado em que defendia a hipótese de que bruxas más eram mulheres reprimidas
pelo patriarcalismo. Para ela, que sabe que preferiu gozar a salvar o filho
(pecado quase repetido por Joe), a crueldade está nela como em toda a mãe
natureza.
Em "Ninfomaníaca" ele volta a tirar sarro de quem
acha (como o confessor-virgem-traidor para quem Joe conta sua história) que Joe
seja uma vítima social de repressão patriarcal. Nossa heroína até tenta se
esconder atrás disso para se safar da baixaria que era sua terapia em grupo,
mas não cola nem por dois minutos. Em Joe a perversão não é revolucionária nem
republicana.
Von Trier se aproxima mais da crítica que faz Kierkegaard,
dinamarquês como ele, do "estágio estético" da vida, aquele pautado
pela busca da sensação como sentido para vida. A vida para o gozo do corpo
define nossa existência contemporânea marcada pelo tédio do desejo. Joe é nossa
profetisa.
E aqui voltamos à pergunta que fiz acima: que tal uma amiga
ninfo perto de seu marido ou namorado?
Joe tem problemas no trabalho porque quer dar para todos os
homens. Para homens incapazes, uma ninfo é uma bênção do céus. Sua chefe a
intima a fazer terapia, ela vai para salvar sua carreira, mas não dá muito
certo. E aí chegamos a um dos tópicos mais interessantes da sociologia do sexo
que faz o cineasta.
Uma ninfo que não respeita a regra básica de não seduzir
todos os homens a sua volta torna a vida insuportável; portanto, a liberdade
sexual pura e simples (sem entrar na questão do sofrimento psicológico dela,
que é óbvio) é inviável. Só gente semiletrada podia pensar, como se pensou um
dia, que o sexo livre nos liberta. A proibição do sexo livre, inclusive, evita
torná-lo entediante, como é para Joe.
A sociedade é baseada em você crer que a colega de trabalho
não vai dar pra todo mundo na empresa, mesmo que você seja uma inteligentinha
gostosa contra a repressão do sexo. A sociedade do desejo é um engodo.
* Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela
USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da
PUC-SP e da Faap.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Terça-feira, 8 de abril de 2014 - Internet:
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