Autor soube reinventar a Idade Média: Jacques Le Goff 1924-2014
Andrei Netto
Novo imaginário medieval
é legado do historiador, morto na segunda
Uma das maiores
autoridades mundiais em Idade Média, o historiador francês Jacques Le Goff,
faleceu na segunda-feira, 31, aos 90 anos, informou a sua família. Autor de
mais de 40 livros, entre os quais Uma Longa Idade Média (2004), Le Goff foi
escolhido onze vezes doutor honoris causa na Europa e no Oriente Médio por ter
se tornado uma referência incontornável em seu domínio de estudos.
Daqui para a frente, ele
próprio fará parte da História.
Nos últimos anos de sua
vida, embora sua saúde se degenerasse, continuava ativo e lúcido, trabalhando
em seu escritório, sempre cercado de milhares de livros.
Entre fontes
bibliográficas e documentos que compunham seu espaço de trabalho, Le Goff parecia
seguir à risca uma constatação de Marc Bloch que se tornara célebre: "O
bom historiador é como o ogro da lenda. Onde ele cheira a carne humana, ele
sabe que lá está o seu jogo".
Caçando lendas, Le Goff,
fundamentou sua grande linha de pensamento: a de que a Idade Média não fora uma
era de obscurantismo, como se imagina. Essa revolução quebrou a lógica moderna,
que ao longo dos séculos transformara o termo "medieval" em um
adjetivo pejorativo.
Romper com essa linha de
pensamento foi possível a partir dos anos 1920, quando a célebre Escola dos
Annales, o movimento liderado por Lucien Febvre e Marc Bloch, passou a adotar
métodos pluridisciplinares na pesquisa historiográfica. Le Goff, ao lado de
outro francês, Pierre Nora, foi responsável pela "terceira onda"
dessa escola, lançando nos anos 1970 a chamada Nova História. Essa corrente
amplificou os horizontes da disciplina, focando sua atenção no imaginário, na
"história das mentalidades" - ou seja, na forma de pensar, de agir,
de viver, individual e coletiva, de cada tempo e sociedade.
O historiador, a partir
de então, renovou seu papel, buscando inspiração na antropologia para
fundamentar interpretações e análises mais vastas, o que lhe permitiu romper
clichês. Como o holandês Johan Huizinga o fizera no início do século 20, Le
Goff viu na Idade Média muito mais do que doenças, miséria, ódio, guerras e
opressão - como sugeriu o poeta italiano Francesco Petrarca, ainda no século
14, ou o fizeram humanistas do século 16 e filósofos do 18. Ser medieval, sustentou
Le Goff ao longo de sua obra, também foi sinônimo de alegria, de idealismo, de
arte e de amor.
Essa visão da história
foi deixada pelo francês em livros como A Civilização do Ocidente Medieval
(1964), O Nascimento do Purgatório (1981) e O Imaginário Medieval (1985).
Nestes e em outros livros, sua mais importante contribuição foi a consistência
e a profundidade com que desmistificou a Idade Média, desenvolvendo uma análise
relativista sobre o período, que incluiu revoluções sociais e intelectuais
pouco conhecidas ou menosprezadas nos nossos dias.
"Eu fui
voluntariamente provocador ao falar de uma longa Idade Média que se prolongou
até o século 18. Continuo a pensar que há uma certa verdade na ideia de que a
Idade Média vai até o fim do século 18, se observamos aspectos essenciais, como
a fome, as pestes, a indústria - a economia capitalista do século 18 é uma
grande virada", disse Le Goff em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo
em outubro de 2010. "Mas, mesmo que consideremos que o fim da Idade Média
acontece no fim do século 15, ela não era decadente, não era triste, mas sim
soberba, até exagerada."
Le Goff viveu até seus
últimos dias em um apartamento de classe média no 19º distrito de Paris,
nordeste da cidade, onde se situam os antigos bairros operários da capital,
ainda hoje mais populares. Tratava-se, reconheceu ele, de um sinal de seu
engajamento político - o historiador se considerava um "moderado de
esquerda".
Em uma segunda
entrevista ao "Estado", o historiador revelou também uma refinada
capacidade de análise sobre a realidade contemporânea internacional. Sobre a
crise financeira global, por exemplo, afirmou: "O sistema capitalista está
em um estado de decomposição e de esclerose. O sistema socioeconômico, que já
podíamos não amar, cedeu seu lugar a uma dominação dos bancos - no mundo
inteiro e inclusive nos Estados Unidos. Essa dominação é quase um gangsterismo
financeiro".
Na mesma entrevista,
demonstrou que chegara ao final de sua vida com um quê de decepção: "Tenho
86 anos, e o que marca meu espírito é a desesperança, porque vejo perspectiva
de melhora enquanto for vivo".
Fonte: O Estado de S. Paulo – Caderno 2 – Quarta-feira, 2 de
abril de 2014 – Pg. C7 – Internet: clique aqui.
Livros recentemente lançados no Brasil
Antonio Gonçalves Filho
A história pode ser contada de várias maneiras, mas, para entender seu significado, é preciso que o imaginário de cada época seja estudado sem preconceito – e decifrado, como o faz o historiador francês Jacques Le Goff em dois livros sobre o período injustamente chamado de “Idade das Trevas”. Le Goff, que escreveu sua primeira obra sobre a Idade Média em 1956, falando de comerciantes e banqueiros, retoma agora o tema num outro patamar em A Idade Média e o Dinheiro (Editora Civilização Brasileira).
Simultaneamente, a editora Estação Liberdade lança o luxuoso Homens e Mulheres da Idade Média, livro fartamente ilustrado que retrata 112 santos, heróis e figuras mitológicas que alimentaram o imaginário do homem medieval.
Le Goff, que descobriu a Idade Média ainda criança, lendo o romance Ivanhoé (1820), de sir Walter Scott (1771-1832), ficou fascinado com os personagens secundários desse que é considerado o primeiro romance histórico e que descreve a luta entre saxões e normandos. Quando, mais tarde, escreveu sobre o personagem do cavaleiro na Idade Média, veio à memória do medievalista o cavaleiro Wilfred de Ivanhoé e o perverso templário Brian de Bois Guibert, adotados como referências. Le Goff, que completou 90 anos em janeiro, faz, em Homens e Mulheres da Idade Média, um exercício de antropologia histórica para oferecer um panorama fascinante do período com a colaboração de outros historiadores.
Chama a atenção nesse seu livro a predominância de santos entre os homens e mulheres escolhidos por sua equipe de colaboradores. Le Goff justifica: os santos, para ele, são uma “particularidade própria do cristianismo, pois não têm correspondentes nas outras religiões”. São os novos heróis, uma “novidade na paisagem europeia” medieval. Le Goff discorda de outros historiadores – especialmente os ingleses – quando esses se referem à Idade Média como um período obscurantista.
A “Idade das Trevas”, diz ele, foi uma invenção dos humanistas do Renascimento. Para Le Goff, ao contrário, a Idade Média “foi um longo período criativo e dinâmico” – e cujos traços essenciais, enfatiza, “estendem-se até o século 18, período em que ocorrem os dois acontecimentos fundamentais que criam a modernidade: o nascimento da indústria na Inglaterra e a Revolução Francesa”.
Le Goff não faz vista grossa para os aspectos negativos da Idade Média, que viu nascer a Inquisição, crescer a intolerância religiosa, a tortura, o senso hierárquico da aristocracia e o macabro. Mas lembra que a Idade Média foi também a da promoção da mulher, por meio do discurso filosófico de São Tomás de Aquino (1225-1274), o primeiro a afirmar que homens e mulheres são iguais perante Deus. Tomás tomou o hábito dominicano contra a vontade da mãe Teodora – ela mandou raptá-lo na estrada sem conseguir dissuadir o filho da ideia. Foi o teólogo escolástico de maior importância nessa época, marcada, segundo Le Goff, pelo nascimento da laicidade. Mais um choque. Por que na Idade Média? Porque, na Antiguidade, tudo era sacralizado. “Foi no período medieval que se fez, pela primeira vez, a distinção entre o sagrado e o profano.”
É curioso que o historiador, no livro, trate personagens reais, como Santo Agostinho de Hipona, São Francisco de Assis e Santa Clara com a mesma reverência com que destaca figuras mitológicas como a Melusina, uma mulher-dragão que surge na literatura latina do século 12 e foge quando aspergida com água benta. Le Goff confessa ser fascinado por ela, um híbrido de fada, figura diabólica, amante e mãe dedicada de vários filhos, por vezes representada como uma sereia.
Para encarnar o mal, Le Goff preferiu a figura do diabo, oferecendo uma biografia de Satã ao lado de um ensaio sobre o papel da Virgem Maria como promotora real da mulher numa época em que o poder estava nas mãos dos homens. O culto à Virgem, do século 12 em diante, foi, segundo o historiador, fundamental para que a dama do sistema feudal fosse elevada a uma categoria superior ao “vassalo” de pernas peludas.
Há também, entre os biografados, figuras transformadas em mitos, como o rei Arthur, o cavaleiro Roland e o popular Robin Hood. A maioria dos personagens pertence à religião cristã. Judeus e muçulmanos são raros na lista, a despeito de terem sido numerosos na Península Ibérica no século 15. Ele abre uma concessão para Averróis (1126-1198), nascido na Espanha muçulmana – e, ainda assim, por ter sido estudado por escolásticos cristãos, que o tinham na mais alta conta. Há também o curdo Saladino (1137-1198), viril herói dos romances de cavalaria que, apesar de expulsar os cristãos da Palestina, virou ídolo entre eles, assim como dos muçulmanos (exceto os xiitas). Sua contrapartida é o rei Ricardo Coração de Leão (1157- 1199), que Saladino considerava um tanto amalucado, a ponto de arrancar o coração de um leão com as mãos.
O livro de Le Goff é um correspondente contemporâneo da Legenda Áurea com personagens do mundo laico. Revê mitos como o do pintor Giotto (1267-1337), que o historiador retrata como diretor de uma verdadeira empresa de pintura – e um tanto cínico, compondo canções que falavam mal dos pobres enquanto o artista, rico, pintava cenas sacras. Dante Alighieri (1265-1321), o autor de A Divina Comédia, considerado a Idade Média em pessoa, não escapa igualmente das críticas, a despeito de a colaboradora de Le Goff, Jacqueline Risset, reconhecer em seu clássico um “milagre poético” cuja beleza anunciou a modernidade. Dante, a exemplo de Giotto, foi um humanista “irônico e indomável” com irresistível vocação para disputas políticas (condenado à morte, ele foi banido de Florença, morrendo no exílio).
Numa época obcecada pelo Juízo Final e marcada por calamidades como a peste negra, é compreensível que a Idade Média termine no livro com um estudo sobre Satã. Uma primeira “explosão diabólica” ocorreu nos séculos 11 e 12. Mas foi o inferno da Divina Comédia que marcou simbolicamente a passagem entre épocas, anunciando com muita antecedência o espírito renascentista.
Chama a atenção nesse seu livro a predominância de santos entre os homens e mulheres escolhidos por sua equipe de colaboradores. Le Goff justifica: os santos, para ele, são uma “particularidade própria do cristianismo, pois não têm correspondentes nas outras religiões”. São os novos heróis, uma “novidade na paisagem europeia” medieval. Le Goff discorda de outros historiadores – especialmente os ingleses – quando esses se referem à Idade Média como um período obscurantista.
A “Idade das Trevas”, diz ele, foi uma invenção dos humanistas do Renascimento. Para Le Goff, ao contrário, a Idade Média “foi um longo período criativo e dinâmico” – e cujos traços essenciais, enfatiza, “estendem-se até o século 18, período em que ocorrem os dois acontecimentos fundamentais que criam a modernidade: o nascimento da indústria na Inglaterra e a Revolução Francesa”.
Le Goff não faz vista grossa para os aspectos negativos da Idade Média, que viu nascer a Inquisição, crescer a intolerância religiosa, a tortura, o senso hierárquico da aristocracia e o macabro. Mas lembra que a Idade Média foi também a da promoção da mulher, por meio do discurso filosófico de São Tomás de Aquino (1225-1274), o primeiro a afirmar que homens e mulheres são iguais perante Deus. Tomás tomou o hábito dominicano contra a vontade da mãe Teodora – ela mandou raptá-lo na estrada sem conseguir dissuadir o filho da ideia. Foi o teólogo escolástico de maior importância nessa época, marcada, segundo Le Goff, pelo nascimento da laicidade. Mais um choque. Por que na Idade Média? Porque, na Antiguidade, tudo era sacralizado. “Foi no período medieval que se fez, pela primeira vez, a distinção entre o sagrado e o profano.”
É curioso que o historiador, no livro, trate personagens reais, como Santo Agostinho de Hipona, São Francisco de Assis e Santa Clara com a mesma reverência com que destaca figuras mitológicas como a Melusina, uma mulher-dragão que surge na literatura latina do século 12 e foge quando aspergida com água benta. Le Goff confessa ser fascinado por ela, um híbrido de fada, figura diabólica, amante e mãe dedicada de vários filhos, por vezes representada como uma sereia.
Para encarnar o mal, Le Goff preferiu a figura do diabo, oferecendo uma biografia de Satã ao lado de um ensaio sobre o papel da Virgem Maria como promotora real da mulher numa época em que o poder estava nas mãos dos homens. O culto à Virgem, do século 12 em diante, foi, segundo o historiador, fundamental para que a dama do sistema feudal fosse elevada a uma categoria superior ao “vassalo” de pernas peludas.
Há também, entre os biografados, figuras transformadas em mitos, como o rei Arthur, o cavaleiro Roland e o popular Robin Hood. A maioria dos personagens pertence à religião cristã. Judeus e muçulmanos são raros na lista, a despeito de terem sido numerosos na Península Ibérica no século 15. Ele abre uma concessão para Averróis (1126-1198), nascido na Espanha muçulmana – e, ainda assim, por ter sido estudado por escolásticos cristãos, que o tinham na mais alta conta. Há também o curdo Saladino (1137-1198), viril herói dos romances de cavalaria que, apesar de expulsar os cristãos da Palestina, virou ídolo entre eles, assim como dos muçulmanos (exceto os xiitas). Sua contrapartida é o rei Ricardo Coração de Leão (1157- 1199), que Saladino considerava um tanto amalucado, a ponto de arrancar o coração de um leão com as mãos.
O livro de Le Goff é um correspondente contemporâneo da Legenda Áurea com personagens do mundo laico. Revê mitos como o do pintor Giotto (1267-1337), que o historiador retrata como diretor de uma verdadeira empresa de pintura – e um tanto cínico, compondo canções que falavam mal dos pobres enquanto o artista, rico, pintava cenas sacras. Dante Alighieri (1265-1321), o autor de A Divina Comédia, considerado a Idade Média em pessoa, não escapa igualmente das críticas, a despeito de a colaboradora de Le Goff, Jacqueline Risset, reconhecer em seu clássico um “milagre poético” cuja beleza anunciou a modernidade. Dante, a exemplo de Giotto, foi um humanista “irônico e indomável” com irresistível vocação para disputas políticas (condenado à morte, ele foi banido de Florença, morrendo no exílio).
Numa época obcecada pelo Juízo Final e marcada por calamidades como a peste negra, é compreensível que a Idade Média termine no livro com um estudo sobre Satã. Uma primeira “explosão diabólica” ocorreu nos séculos 11 e 12. Mas foi o inferno da Divina Comédia que marcou simbolicamente a passagem entre épocas, anunciando com muita antecedência o espírito renascentista.
Fonte: ESTADÃO.COM.BR - Cultura - 28 de março de 2014 - 20h05 - Internet: clique aqui.
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