12° Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia

Evangelho: Lucas 9,18-24
ADROALDO PALAORO
Padre
jesuíta
“Pesos mortos” que travam o seguimento
Depois do longo e intenso percurso pascal, retomamos o
tempo litúrgico conhecimento como “Tempo Comum”, seguindo o evangelista
Lucas (Ano C).
A cena do evangelho deste domingo é muito conhecida, pois ela
é relatada nos três evangelhos sinóticos, embora com grandes diferenças. Os
discípulos já levam um bom tempo acompanhando Jesus. Por que o seguem? Jesus
quer saber qual é a motivação presente no interior de cada um deles. Por isso,
dirige uma pergunta ao grupo: “E vós, quem dizeis que eu sou?”
Esta é a pergunta que também deve ter ressonância em nosso
interior; afinal, dizemos ser seguidores(as) de Jesus. Seguimos, de fato, uma
pessoa ou seguimos uma doutrina, uma religião, uma moral...? Não é suficiente
repetir fórmulas aprendidas na catequese. Aqui trata-se de expressar uma
identificação profunda com a vida e com o modo de ser do Profeta da Galileia.
Por que o seguimos? Não basta afirmar que Ele é o “Messias de Deus”; é preciso
dar passos no caminho aberto por Ele, acender também hoje o fogo que Ele quis
espalhar no mundo. Como podemos falar tanto dele sem sentir sua sede de
justiça, seu desejo de solidariedade, sua vontade de paz?
Na experiência humana ressoa, desde sempre, a marca ou o
chamado a transcender-se, a ir além de si mesmo. O seguimento de Jesus
pressupõe a pessoa capaz de sair de si mesma, de descentrar-se. Deixar
ressoar a voz do chamado no próprio interior implica um investimento de toda a
pessoa. O ouvido se abre, o olhar se aclara, a mente se expande, o coração
compreende, o corpo se ergue e a vida se reinicia.
Vida aberta e sempre em movimento, pronta para acolher e
viver as surpresas.
Estamos inseridos numa cultura onde as entregas são vividas
pela metade, as opções são de fôlego curto e os projetos não tem
consistência.
Vivemos a chamada “cultura líquida” onde tudo parece
que nos escapa das mãos. Não há solidez nas decisões pois elas são apressadas e
superficiais, porque o horizonte está obscuro.
Jesus não impõe nenhuma condição, não quer gente que busque
carreiras ilustres, riquezas, prestígio. Quer pessoas que sejam capazes de
descentrar-se, de renunciar ao próprio ego, de desapegar-se daquilo que as
atrofia e as limita, para investir numa proposta de vida que dê direção e
sentido à própria existência. Este é o lema de Jesus: “renunciar a si
mesmo, tomar a cruz cada dia e segui-Lo”
O que significa “renunciar a si mesmo”. Significa
sair da visão egocêntrica, nascida da crença errônea de que somos o ego.
Talvez pudesse ser expresso desta forma: “Deixa de crer que és o eu separado e
descobrirás a riqueza de tua verdadeira identidade; nem sequer vê a tua vida a
partir do ego, porque sofrerás e farás sofrer; contempla-a a partir de tua
verdadeira identidade, onde há uma unidade profunda, mas sem apego nem
comparações”.
Não é a renúncia o que nos salva, mas o desenvolvimento e a
expansão da vida em direção à plenitude.
A renúncia é sempre lícita e aconselhável quando fazemos por
algo melhor. O apego a nós mesmo, às coisas ou às pessoas, impede-nos de
mover com facilidade. Perdemos o fluxo da vida e o impulso do movimento, a
suavidade do “deslizar pela existência”.
Na vida cristã, o seguimento é questão de sedução, de
paixão, de atração, de coração...; isso significa que Jesus Cristo é de
fato o “amor primeiro”, aquele que antecede a qualquer outro, de maneira
especial o amor a si mesmo. Daí nasce a harmonia interior. Quando o seguimento
torna-se o eixo central, todos os elementos da vida, todas as afeições, todas
as potencialidades do espírito, encontram-se em “seus lugares”, estabelecendo
uma deliciosa experiência de paz. Os afetos “orientados” e “ordenados” à pessoa
de Jesus, cria um novo referencial, um novo centro afetivo.
Se queremos fazer caminho com Jesus temos de acolher suas
condições e entendê-las como Ele as entende. “Renunciar a si mesmo” é
descentrar-se, não ser já o centro de seu próprio projeto. É pôr a vida
inteira a serviço do outro, neste caso o projeto de Jesus. A isto Jesus chama
“perder a vida por sua casa”. E quem assim fizer, “ganhará”, salvará sua vida.
A condição que Jesus propõe para segui-lo não pretende negar nossa autonomia,
mas orientar nossas energias e valores para a construção do Reino que Ele
iniciou, renunciando, também Ele, a si mesmo, para cumprir em tudo a vontade do
Pai.
Na medida em que nos desprendemos de todo apego, incluído o
apego à vida, a favor dos outros, estaremos amando de verdade e, portanto,
crescendo como ser humano. Nossa Vida com maiúscula se potenciará, e a vida com
minúscula, adquirirá, então, todo seu sentido.
A resposta à pergunta de Jesus (“e vós, quem dizeis que eu
sou?”) implica adesão à pessoa d’Ele e ao seu projeto, o Reino; significa
fazer o caminho com Ele, colocar-se onde sempre se colocou, na margem, na
periferia... Isso acarreta oposição, perseguição, cruz.
Em que consiste “carregar a Cruz?” É acaso
suportar tudo sem reclamar como se toda contrariedade nos é mandada pelo Deus
mesmo? É submeter-se à dor pela dor, como se a dor fosse um valor em si mesmo?
Algo ou muito disto temos entendido assim e não tem nada a
ver com a condição que Jesus propõe para que sigamos seus passos. Ele quer
dizer que todos devem estar dispostos a viver da mesma maneira que Ele viveu,
embora sabendo que este estilo de vida pode acarretar a perseguição e talvez a
morte. Tomar a Cruz significa prontidão, estar preparado, mobilizado...
Essa é a cruz de Jesus e também deve ser a nossa. Não
inventemos cruzes sob medida, não coloquemos cruzes sobre nós ou sobre os
outros. Sigamos os passos de Jesus, assumindo seu estilo de vida!
Nesse sentido, a cruz de Jesus não é um “peso morto”;
ela tem sentido porque é consequência de uma opção radical em favor do Reino.
A Cruz não significa passividade e resignação; ela nasce de sua vida plena e
transbordante; ela resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de
uma vida vivida na fidelidade ao Pai, que quer que todos vivam intensamente.
“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de
solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de
proximidade curadora.
Aquele que acompanha Jesus vai também tomando consciência que
a opção pela vida pode conduzi-lo à Cruz.
Mas não basta carregar a Cruz; a novidade cristã é carregá-la
como Jesus. Essa é a nova maneira de carregar a Cruz que Jesus nos
ensina: transformá-la em sinal e fonte de amor e de entrega.
A palavra “cruz” – em grego “staurós” – vem
do verbo “ficar em pé”. “Tomar sua Cruz” não é, portanto, suportar
passivamente sua vida, tornar-se escravo de um destino tirânico; significa
prontidão, estado de vigilância... para passar de uma vida suportada para
uma vida escolhida.

Para meditar na oração:
“Quem é Jesus para mim?”
Pergunta instigante que nos ajuda a:
* captar a originalidade
de Sua vida,
* a escutar a novidade de Seu
chamado,
* a deixar-nos atrair pelo Seu
projeto,
* contagiar-nos por Sua liberdade,
* empenharmos por viver seu
caminho.
- Cada um de nós deve se colocar diante de Jesus, deixar-se
olhar diretamente por Ele e escutar, a partir do mais profundo de si mesmo, Sua
pergunta: “Quem sou Eu realmente para você?”
- A esta pergunta responde-se mais com a vida que com
palavras sublimes.
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