Um sistema contra o Evangelho
O “ódio consciente” ao Papa Francisco é
o sinal mais evidente do “ódio inconsciente” que grande parte do clero tem pelo
Evangelho
José María Castillo
Teólogo
católico espanhol
blog
“Teología sin Censura”
13-06-2019
«Por que o Papa Francisco é tão
desaprovado e odiado
por tantos “homens de Igreja”?
A resposta é muito simples e é uma coisa
evidente:
o clero, que fez carreira na Igreja e
com a Religião, não pode suportar
um papa que tomou como eixo e centro,
de sua vida e da vida da Igreja,
justamente o Evangelho da paz,
a bondade, os direitos dos pobres e o
sofrimento dos fracos»

Quando todos os dias assistimos os
telejornais, oferecidos por diferentes canais de TV, a impressão inevitável de
muitos de nós, telespectadores, é que vivemos em um mundo descontrolado. Ou
seja, o mundo saiu de nossas mãos e não podemos controlá-lo pela simples razão de
que, todos os dias, dependemos mais e mais da tecnologia.
Mas, a tecnologia está
controlada, dirigida e a serviço dos interesses do capital. Significa que estamos
nas mãos do que convém a um número reduzido de magnatas, a quem importa
muito pouco o imenso sofrimento de milhões de seres humanos. E, além disso, trata-se
do pequeno grupo dos mais poderosos, que administram a economia, a política e o
direito como lhes convêm e à custa de milhões de escravos, de submissos e
de seres humanos abandonados a sua sorte, sem outras possibilidades e, é claro,
sem futuro.
A Religião não nos retira
deste imbróglio
Sendo assim as coisas, não cabe
contar com uma solução que possa brotar do sistema descontrolado em que
vivemos. Porque o sistema é o primeiro interessado a que isto não tenha
outra solução. Todos os dias recebemos notícias de reuniões e encontros “do
mais alto nível”. Para que servem tantos e tão importantes encontros dos nomes
e cargos tão conhecidos e, sobretudo, dos nomes daqueles que mais mandam e
cujos nomes menos são conhecidos? Servem unicamente para fortalecer a eles
mesmos. E para enganar a nós, que não conseguimos saber mais a fundo do
assunto.
Tudo isto tem alguma saída? Resta-nos
alguma esperança? A Religião não nos retira deste imbróglio. Porque a
Religião, seja a que for, faz parte do sistema e, por isso mesmo, compõe o
sistema gerador de tantos e tantos atropelos e desgraças. Basta pensar que, com
frequência, as religiões (e os homens da religião), ainda que falem de
justiça, amor, comportamentos éticos irrepreensíveis e outras coisas do estilo,
na realidade, vive do sistema e são custeadas pelo sistema.
Ao mesmo tempo, a Religião prega
uma doutrina que ensina, entre outras coisas, que os crentes precisam ser “bons
cidadãos”, um programa de vida que inclui, entre outras coisas, a importância e
a necessidade de “respeitar o sistema”. Com isso, sem se dar conta do que
fazem, os dirigentes da Religião se constituem um dos pilares mais sólidos da
manutenção e a fortaleza do sistema.

Esta ideia não é de Marx e dos
marxistas. Muito antes de nascer o marxismo, Nicolau Maquiavel, em seus
“Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio” (I, 12), disse isto:
“Os príncipes e os estados
que querem se manter incorruptos devem, sobretudo, manter incorruptas as
cerimônias de sua religião..., pois não há maior indício da ruína de uma
província do que ver que nela se despreza o culto divino”.
Nas origens do cristianismo, São
Paulo sentenciou com firmeza: “Submetam-se todos às autoridades
constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus” (Rm 13,1-2). E,
na atualidade, o comportamento da Hierarquia Eclesiástica, com seu
silêncio sobre todo este assunto, é um dos fatores mais determinantes da
estabilidade e solidez do sistema canalha gerador de tantos sofrimentos e,
sobretudo, do “mundo descontrolado” que está nos conduzindo para o desastre
total.
Evangelho e Religião
Isto tem alguma solução? O que
os poderes deste mundo oferecem de si não trará uma solução. Na tradição
cristã, temos o Evangelho de Jesus, o Senhor.
Pois bem, se há algo claro no Evangelho
é que a solução ao problema do sofrimento,
neste mundo,
não está nos poderosos e nos
ricos, mas, sim, nos fracos, pequenos,
marginalizados e excluídos.
Ao dizer isto, insisto em que o
Evangelho não é uma Religião a mais. Nunca nos esqueçamos que foi a
Religião que perseguiu e matou Jesus. O Evangelho e a Religião são
incompatíveis. E são justamente por causa do assunto que aqui estamos
tratando. Precisamente, a condenação de Jesus à morte foi sentenciada pelo
Sinédrio porque viu em Jesus um perigo mortal para o sistema religioso de
Israel (Jo 11,47-53).
![]() |
Jesus diante do Sinédrio, antes de ser condenado à morte |
Por que o Papa Francisco é tão
desaprovado e odiado por tantos “homens de Igreja”? A resposta é muito simples
e é uma coisa evidente: o clero, que fez carreira na Igreja e com a Religião,
não pode suportar um papa que tomou como eixo e centro, de sua vida e da vida
da Igreja, justamente o Evangelho da paz, a bondade, os direitos dos pobres e o
sofrimento dos fracos. O “ódio consciente” ao Papa Francisco é o sinal mais
evidente do “ódio inconsciente” que grande parte do clero tem pelo Evangelho.
Traduzido do espanhol pelo Cepat.
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