Os opositores
Quem são os críticos de Papa Francisco?
O que criticam? O que os move?
Sonja Strube
Settimana
News
15-05-2019
Talvez na história da Igreja nunca um papa
tenha sido objeto de tantos ataques e até de pedidos de demissão como o Papa
Francisco.
As acusações são pesadas: erros
doutrinais e heresia
PAPA FRANCISCO |
Sonja Strube,
professora de teologia e pedagogia religiosa no Instituto de Teologia Católica
da Universidade de Osnabrück [Alemanha, Baixa Saxônia] e especialista em temas
relacionados ao populismo de direita, publicou em katholisch.de de 5 de
maio último, uma análise que descreve o perfil psicológico e político dessas
pessoas e mostra o quanto elas são perigosas para a Igreja e para a
sociedade.
Eis o artigo.
Desde a eleição do Papa Francisco,
um vento mais fresco sopra na Igreja católica: novamente são possíveis as
discussões abertas, onde por um longo tempo apenas reinava um silêncio de
chumbo. Ao mesmo tempo, no entanto, o Papa Francisco é continuamente atacado
por pequenos grupos reacionários de um modo que deixa sem palavras.
Ele é acusado de algo que há
séculos nunca havia sido censurado a um pontífice, isto é, difundir falsas
doutrinas, ser um "papa haereticus", de forma que as suas
reformas, decisões e encíclicas não podem reivindicar qualquer consentimento.
Essas discussões são promovidas nos
relativos fóruns privados da internet, presentes inclusive na Igreja
católica romana, bem como no âmbito da língua alemã, nos EUA e em outros
países. Atualmente circula online também uma petição que convida o Papa
Francisco a se aposentar.
Esses círculos encontram um apoio
especial nas direitas políticas, desde AfD (Alternative für Deutschland
- partido político eurocéptico, ndr) às mídias de direita, até Steve Bannon
(ex-estrategista-chefe do presidente dos EUA, Donald Trump, ndr).
A censura agressiva, que às
vezes degenera no escárnio, provém exatamente de ambientes que, com João
Paulo II e Bento XVI, se definiam os únicos "fiéis ao Papa".
No centro das censuras contra o
Papa Francisco estão a exortação Amoris laetitia e toda mínima modificação
da moralidade sexual tradicional da Igreja. Mas muitas outras suas
posições são duramente atacadas e rotuladas de "extrema esquerda"
como, por exemplo, sobre os migrantes, a justiça e a mudança
climática global. Até mesmo o convite à virtude cristã tão venerada da
misericórdia para esses círculos é um espinho nos olhos.
O problema da doutrina e da heresia
que, à primeira vista, poderiam parecer uma questão teologicamente muito
complexa, indica duas coisas:
* a
existência de uma pequena, mas agressiva, corrente subterrânea de caráter
fundamentalista-autoritário na Igreja católica romana, e
* um interesse
político em apodera-se ou pelo menos dividir esta Igreja através de alguns
protagonistas da área da direita política.
Missa celebrada segundo o rito pré-Concílio Vaticano II (1962-1965) |
Quem são esses
"ex-fiéis do Papa" que se opõem ao Papa Francisco?
Ao analisar os fóruns da internet
que denunciam o Papa Francisco de forma tão dura, obtêm-se informações sobre o comportamento
de seus autores e de seus usuários (informações que são
reveladoras).
Muitos daqueles que publicam
comentários são pessoas claramente instruídas, escrevem sem dificuldade
textos longos e elaborados, referem-se aos antigos filósofos e aos padres da
Igreja, fazem citações em latim. A simplicidade mental, a falta de
instrução e até mesmo condições de vida precárias não parecem ser problemas
para essas pessoas.
Predominam pessoas mais velhas do
que a média. Além disso, a mídia e seus usuários frequentemente manifestam
proximidade com partidos e grupos políticos da direita como a CDU/CSU.
Apesar dos níveis educacionais, uma
forte recusa da teologia científica permeia seus comentários, tanto que, muitas
vezes, parecem se opor até mesmo a um discurso democrático.
A verdade religiosa, Deus e sua
vontade são considerados como uma afirmação bem definida e uma posse sólida (a
pessoa "tem" a verdade) e não como algo inefável e muito maior, que
os homens só podem pressagiar e se aproximar tateando. Em última análise, nossa
perspectiva humanamente limitada é "trocada" com a perspectiva de
Deus - a própria posição, a própria visão de mundo é "trocada"
pela vontade de Deus.
Em geral, nesses ambientes
manifesta-se cada vez mais claramente uma oposição global para o Vaticano II,
tentando anular em toda a linha as suas decisões e as suas reformas e tornar
o antimodernismo eclesiástico do final do
século XIX e início do século XX a única forma vinculante do catolicismo romano.
Também o estilo dos discursos e as
apresentações dos fóruns da internet "críticos em relação a
Francisco" mostram uma série de peculiaridades:
* uma visão
extremamente negativa do mundo combinada com relatos de indignação e
escândalos;
* uma forte
desvalorização verbal daqueles que pensam de maneira diferente,
frequentemente acompanhados de escárnio;
* a
formulação de ideias morais rígidas, quase exclusivamente no campo da
sexualidade, com o pedido de censuras e de duras punições.
Há propostas explícitas de punição
por parte dos tribunais, às vezes até fantasias de vingança de natureza
apocalíptica e retóricas de conspiração, acompanhadas por uma marcada polêmica
contra a misericórdia, contra as imagens da ternura de Deus e contra
qualquer forma criativa de praxe religiosa.
O autoritarismo como
fraqueza de consciência
Tudo o que pode ser observado na
mídia católica de direita encontra uma explicação psicológica convincente nos
estudos de Theodor W. Adorno sobre a "personalidade
autoritária".
Na década de 1940, diante do
fascismo e do nazismo, Adorno explorou a personalidade autoritária
antidemocrática e descreveu-a acima de tudo como "submissão
autoritária" a autoridades externas e a rígidos sistemas de normas
associados a uma "agressão autoritária" em relação àquelas
pessoas que ousam transgredir tais normas.
Entre as características
importantes que ele observa, há:
* uma forte
"defesa do subjetivo, do imaginário, do sensível",
* a superstição
e os estereótipos,
* a ambição
do poder,
* a "ostentação
da força física",
* a destrutividade
e o cinismo,
* a
tendência a acreditar "em eventos devastadores e perigosos no
mundo", bem como
* a "projeção
dos impulsos inconscientes para o mundo exterior", juntamente com
* uma fixação
sobre o conjunto dos temas relativos à sexualidade.
Na maneira vigorosa, forte e
aterradora em que as pessoas autoritárias agem e operam (razão pela qual é
preciso colocar um freio nelas), Adorno diagnostica claramente na base de uma
acentuada fraqueza do "eu" e da "consciência". As
pessoas autoritárias carecem de confiança em seu modo de pensar, em seu mundo
dos sentimentos e em sua capacidade de juízo moral.
Os substitutos são pontos
externos fixos e estruturas pré-definidas, uma rígida adesão a convenções e
uma submissão a autoridades "morais" relevantes - sejam estas
leis, dogmas, líderes religiosos e políticos.
Aqueles que não se submetem
igualmente às autoridades auto-eleitas demonstram que também se pode viver de
maneira diferente, colocando assim em discussão a sua submissão.
O mundo circundante é considerado
hostil, mau, imoral, com nuances de conspiração, de modo que, diante dele, é
necessário armar-se e defender-se. Como orientações, são
necessárias hierarquias claras e um ordenamento preciso para os polos
"bom" ou "mau". Como não é possível confiar na própria
vida interior, é rejeitado e desvalorizado tudo o que é crítico-reflexivo e
interiormente emotivo.
CONCÍLIO VATICANO II Responsável pela abertura e o diálogo da Igreja Católica com o mundo moderno |
... e como razão para a
oposição a Francisco
Assim, os diferentes aspectos da
teologia e da forma de agir do Papa Francisco, combatidos por seus adversários,
tornam-se plausíveis.
Os crentes com uma estrutura pessoal autoritária exigem uma estrita
observância de regras, normas e dogmas consideradas eternamente imutáveis e para
compensar de tal forma a fraqueza das suas consciências e dos seus
"eu" através de um quadro normativo externo.
A ideia de uma misericórdia doada
gratuitamente mina a rigidez das regras. Além disso, requer compaixão,
tocando assim o "campo minado" das emoções, algo a ser
cuidadosamente evitado.
A razão pela qual a mudança das
ênfases no campo da moral sexual é percebida como particularmente ameaçadora é
explicada - de acordo com Adorno - com a importância que tem sua maneira de
enfrentar as próprias necessidades sexuais pessoais.
A veemente rejeição da moderna
teologia científica e do diálogo ecumênico e inter-religioso podem ser
explicadas como uma defesa contra a insegurança que nasce da multiplicidade
de possíveis perspectivas e do reconhecimento daqueles que pensam
diferentemente como parceiros iguais do diálogo.
O pensamento teológico relacional e
contextualizado - teologias contextuais e teologias da libertação,
mas também as reflexões sociais e as morais sociais - são rejeitados
como "relativismo".
A religião, nessa perspectiva, deve
servir, principalmente à estabilização psíquica interior, por meio
de um universo de valores claramente estruturado de ideias "eternas",
e a atenção não deve ser focalizada sobre a ambivalência do mundo.
Sempre que o Papa Francisco (ou
outros teólogos e teólogas) raciocinam numa perspectiva pastoral e
contextual, abrem espaços discricionais ou fortalecem a
consciência pessoal e provocam um processo de amadurecimento, os crentes
dotados de uma personalidade autoritária têm seus problemas em enfrentar os
dilemas morais e suas fraquezas de consciência.
Do papa, como pessoa em autoridade,
esses crentes esperam que ele confirme seu comportamento
autoritário com normas, na posição de fiador de seu
quadro normativo, e proponha ideias religiosas rígidas na política da
Igreja e que, em virtude de sua função, as torne obrigatórias para todos.
Como o Papa Francisco
intencionalmente desapontou as expectativas autoritárias, ele teria de ser
desacreditado como objeto de submissão autoritária; além disso, devido à sua
recusa em personificar o papel que lhe corresponde, atraiu sobre si mesmo
uma dupla raiva:
a) "a
agressão autoritária" contra ele como "transgressor de regras",
no sentido de que ele admite exceções, e
b) a indignação
porque agora o próprio rígido quadro normativo deve “se virar” sem o papa como
fiador.
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THEODOR W. ADORNO Viveu de 1903 a 1969: filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão. É um dos expoentes da chamada Escola de Frankfurt |
Um perigo para a Igreja e a
sociedade
O autoritarismo na forma descrita
por Theodor W. Adorno possui um forte potencial esclarecedor quando se
trata de descrever grupos e correntes antimodernistas e fundamentalistas,
mas também estruturas problemáticas, tradições de pensamento e de ação dentro
da Igreja e compreender suas dinâmicas destrutivas.
Além disso, no que diz respeito à
violência sexual, a sua ocultação e até mesmo o abuso espiritual, tornam
atualmente um problema o significado das estruturas autoritárias da Igreja.
O autoritarismo
constitui também uma categoria central para explicar as posições populistas e extremistas de direita. Isso
explica a proximidade que muitas vezes existe entre os círculos religiosos
autoritários e políticos de direita. E ressalta o perigo que pode derivar para
a Igreja de grupos estruturados de maneira autoritária.
Do ponto de vista
eclesiástico-político, surge a necessidade de uma clara rejeição do populismo e
do extremismo misantrópico de direita, bem como da supremacia de grupos
estruturados de maneira autoritária e seu background ideológico dentro da
Igreja.
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