Ouçamos o Papa!
“Um político nunca deve semear ódio e
medo, mas esperança”, afirma o Papa Francisco
Domenico Agasso Jr.
Vatican Insider
02-06-2019
Papa Francisco expressa isso ao final da entrevista,
no voo de Sibiu para Roma,
no final dos três dias na Romênia
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PAPA FRANCISCO Concede entrevista a jornalistas no voo da Romênia para a Itália |
Nestas eleições, líderes como Salvini
fizeram campanha mostrando símbolos religiosos, rosários, cruzes, consagrações
ao Imaculado Coração de Maria. O que achou? É verdade que não quer recebê-lo?
Papa Francisco: Eu não
recebi pedido de ninguém do governo, exceto pelo primeiro-ministro Conte que
fez uma solicitação por via protocolar. Foi uma boa audiência, de uma hora. Ele
é um homem inteligente, professor, sabe do que está falando. Não recebi pedido
de audiência do vice primeiro ministro e de outros ministros. Eu não tratei de
tais notícias, da propaganda, como fez um determinado partido, como fez outro
partido ... Confesso-me ignorante, não posso dar nenhuma opinião sobre as
atitudes da campanha eleitoral de um dos partidos. Eu rezo para todos, para que
a Itália vá em frente e que os italianos se unam, sejam leais ao seu
compromisso. Eu sou italiano porque sou filho de imigrantes italianos, meus
irmãos todos têm cidadania, não pude tê-la porque no meio tempo me tornei bispo...
Existe na política de muitos países
a doença da corrupção, em todo lugar, mas não digam que eu falei que a política
italiana é corrupta! Uma vez me disseram como os pactos políticos são: imagine
uma reunião, com nove empresários sentados à mesa. Eles discutem para chegar a
um acordo sobre o desenvolvimento de suas empresas, e no final, depois de horas
e horas, chegam a um acordo. Enquanto estão imprimindo o acordo, eles tomam um
whisky e enquanto passam os papéis para assinar, debaixo da mesa eu passo
outro. Isso é corrupção: devemos ajudar os políticos a serem honestos e a não
fazer campanha com bandeiras desonestas, calúnias, difamação, escândalos e,
tantas vezes, semeando o ódio e o medo. Isso é terrível. O político não deve
semear ódio e medo, apenas esperança, justa, exigente, mas apenas a esperança.
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MATTEO SALVINI Político italiano radical de direita - partido "Lega Nord" - usando a religião para justificar sua ideologia contra estrangeiros imigrantes |
Nestes
dias V.S. falou da fraternidade do povo e de caminhar juntos, mas vemos que na
Europa cresce o número daqueles que não querem fraternidade e preferem caminhar
sozinhos. O que fazer para mudar?
Papa Francisco: Desculpe-me se eu menciono a mim
mesmo, mas vou fazê-lo ... quando falei sobre este problema em Estrasburgo e
quando recebi o prêmio Carlos Magno e depois no discurso com chefes de estado e
de governo na Capela Sistina no aniversário dos pactos europeus. A Europa não
pode dizer: arranjem-se e sigam em frente; somos todos responsáveis pela União
Europeia e a rotatividade da Presidência da UE não é um gesto de cortesia, mas
sim um símbolo da responsabilidade que cada um dos países tem. Se a Europa
não for grande nos desafios futuros, terá definhado. Eu disse que a Europa
de mãe está se tornando a avó Europa, talvez secretamente alguém possa se
perguntar: não será o fim da aventura que começou há 70 anos? Deve
reencontrar-se e superar as divisões das fronteiras. Estamos vendo
fronteiras na Europa e isso não é bom, é verdade que todo país tem sua própria
identidade e deve protegê-la, mas, por favor, que a Europa não se deixe vencer
pelo pessimismo e pelas ideologias, porque está sendo atacada por
ideologias e nascem grupinhos na Europa. Pensem vocês na Europa dividida,
vamos aprender com a história, não vamos voltar atrás.
Com os jovens, o senhor insistiu na relação com os
avós para que os jovens tenham raízes e os avós possam sonhar. O senhor não tem
uma família por perto, mas disse que para o senhor Bento XVI é como um avô.
Continua a vê-lo assim?
Papa Francisco: Toda vez que eu vou visitá-lo, faço
ele falar, ele fala pouco, fala devagar com a mesma profundidade de sempre, ele
tem uma grande lucidez e ao ouvi-lo falar, sinto-me forte: a seiva da raiz
me ajuda a seguir em frente. A tradição é como as raízes que te dá a seiva
para crescer, você florescerá! A tradição está sempre em movimento: numa
entrevista que fez Monda (Nota de IHU On-Line: jornalista italiano que trabalha
no jornal L'Osservatore Romano) há alguns dias no L'Osservatore Romano, tem uma
citação de que eu gostei muito, de Gustav Malher: falando de tradições,
ele disse que “a tradição é a garantia do futuro, e não a preservação das
cinzas”. A tradição não preserva as cinzas, isso é a nostalgia dos
integristas, mas são as raízes que permitem que a árvore cresça.
Tudo o que a árvore tem do lado de fora vem do que ela tem sob a terra. Contei
a vocês sobre o episódio da avó que vi ontem na praça em Iasi, que mostrava o
seu neto e me olhava com cumplicidade. Eu deveria tê-la convidado para vir à
frente ... Nosso bom fotógrafo Francesco tirou a foto e agora é pública, eu a
vi no Vatican Insider. Quando os jovens têm raízes, os avós podem
sonhar.
Milhões
de romenos emigraram nos últimos anos. Qual é a sua mensagem para uma família
que deixa seus filhos irem ao exterior para trabalhar?
Papa Francisco: Isso me faz pensar na família que
se separa, há sempre saudade ao se reencontrar. Separar-se para que nada
falte aos filhos é um ato de amor. Tantas vezes estes são os resultados de
uma política mundial que incide sobre isso. Conheço a história do seu país após
a queda do comunismo e depois muitas empresas estrangeiras fecharam para abrir
em outro lugar e ganhar mais. Fechar uma empresa e deixar as pessoas na rua.
Esta é também uma injustiça mundial, geral: é falta de solidariedade.
Há sofrimento, não é fácil na situação mundial atual oferecer oportunidades de
emprego, e pensar que vocês têm um nível impressionante de nascimentos, aqui
não se vê o inverno demográfico! E é uma injustiça não ter trabalho para
tantos jovens. Por isso, espero que a situação se resolva e que não dependa
apenas da Romênia, mas da ordem financeira mundial. Tantas pessoas permanecem
ali sozinhas. É preciso solidariedade mundial e neste momento a Romênia está na
presidência da União Europeia.
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PAPA FRANCISCO COM O PATRIARCA ORTODOXO ROMENO DANIEL |
Falou-se
de caminhar juntos, gostaria de lhe perguntar o que aconselha aos romenos:
quais devem ser as relações entre confissões, entre católicos e ortodoxos?
Quais as relações entre as várias etnias e no mundo político?
Papa Francisco: A relação da mão estendida,
quando há conflitos. Hoje no país há um alto nível de nascimentos, deve ser
feito um processo de aproximação entre as diferentes etnias, confissões
religiosas, compromisso, mão estendida, escuta do outro. Com os
ortodoxos: vocês têm um grande patriarca, um homem de grande coração, um grande
estudioso, conhece a mística dos pais do deserto, a mística espiritual, estudou
na Alemanha e é também um homem de oração. É fácil aproximar-se a Daniel,
falamos como irmãos. Vamos juntos! Sempre tendo esta ideia: ecumenismo não é
chegar ao fim do jogo, das discussões. Ecumenismo se faz caminhando, andando
juntos, rezando juntos. Temos na história o ecumenismo do sangue: quando os
mataram, aos cristãos não perguntavam: você é católico? Você é ortodoxo? Você é
luterano? Perguntavam: você é cristão? Há o ecumenismo do testemunho, do
sangue e depois o ecumenismo do pobre, trabalhar juntos para ajudar os pobres,
os doentes e os enfermos. Caminhar juntos, mas não esperar que os teólogos
cheguem a um acordo para alcançar a eucaristia comum. O ecumenismo se faz
juntos com obras de caridade e amor mútuo.
Em uma cidade da Europa havia uma
boa relação entre o arcebispo católico e o luterano. O católico tinha que ir ao
Vaticano no domingo à noite. Ele me ligou e disse: eu vou ir na segunda-feira,
porque o luterano me contou que tinha que sair e me pediu: ‘Venha à minha
catedral para fazer o culto". E ele fez isso. Quando eu estava em Buenos
Aires, fui convidado pela Igreja Escocesa para fazer um sermão durante seu culto.
É possível caminhar juntos: união, fraternidade, mão estendida, sem falar
mal dos outros. Todos nós temos defeitos, se caminharmos juntos deixamos os
defeitos de lado.
No
primeiro dia V.S. foi à catedral ortodoxa, um lindo momento, durante a oração
do Pai Nosso foi um pouco duro porque vocês estavam juntos, mas não oraram
juntos. O que pensou quando ficou em silêncio durante o Pai Nosso em romeno?
Papa Francisco: Vou fazer uma confidência, não
fiquei em silêncio, rezei o Pai Nosso em italiano e vi a maioria das pessoas
rezando tanto em romeno quanto em latim. As pessoas vão além de nós, líderes.
Nós, líderes, devemos fazer equilíbrios diplomáticos para garantir que vamos
andar juntos, há hábitos, é bom prestar atenção para que as coisas não se
estraguem, mas as pessoas rezam juntas; nós, mesmo quando nós estamos
sozinhos, rezamos juntos. Uma experiência que tive com muitos pastores e
ortodoxos. Sim, temos pessoas fechadas que dizem que os ortodoxos são
cismáticos: são coisas antigas. Há grupos católicos que são um pouco
integralistas, devemos orar ao Senhor por eles.
Antes de se despedir, Bergoglio
quer expressar seu grande apreço pela beleza das paisagens da Transilvânia,
atravessadas de carro devido às condições meteorológicas adversas. E depois
lança seu apelo: "Eu sei que alguns de vocês são crentes, outros nem
tanto. Aos fiéis digo: rezem pela Europa, que o Senhor nos dê sua graça. Aos
não crentes peço o voto do coração, a boa vontade, o desejo que a Europa volte
a ser o sonho dos pais fundadores”.
Traduzido
do italiano por Luisa Rabolini.
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