Por que Papa Francisco incomoda?
O Papa trata de temas que já não
importam mais
a ninguém. E por isso incomoda
Marco Politi
Vaticanista e escritor italiano
Devemos proteger a democracia seguindo
regras ou rompê-las quando
essas atrapalham os objetivos?
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MARCO POLITI |
“Algumas palavras que enchem
jornais e TV nunca são mencionadas: populismo, migrantes, desigualdade”. A
crônica seca e precisa de Stefano Feltri no encontro de Bilderberg,
publicado em Il Fatto Quotidiano em 4 de junho, ilumina as dificuldades
do Papa Francisco em seu papel de líder religioso, uma voz ética em nível
geopolítico.
Bilderberg não é o único fórum
internacional em que se encontram, todos os anos, homens de poder, político e
econômico, velhos sábios e “influenciadores” de vários tipos, incluindo alguns
vindos da mídia de massa. Tem sua própria aura de privacidade misteriosa, mas
isso é um detalhe. O ponto é que, para 130-150 personalidades que “contam”
em nível global (este ano também haviam sido convidados o secretário de
Estado dos EUA, Mike Pompeo, e o genro de Donald Trump, Jared Kushner), populismo,
migrantes e desigualdades são fenômenos invisíveis.
Para essa esfera de poder, capaz de
influenciar o cenário internacional com suas opiniões e interações, não é
interessante reconhecer na Europa, e não apenas na Europa, regimes
fanaticamente xenófobos, que desrespeitam os princípios básicos das democracias
liberais-democráticas e sociais. Não é interessante que tal mix de
iliberalidade, clericalismo, nacionalismo e xenofobia reúna na Itália mais de
um terço do eleitorado. Para essa camada política e econômica, não
parece alarmante a disseminação de um clima de ódio social, que ataca
obsessivamente o “diferente” (negro, islâmico, homossexual). A história se
repete. Para muitos, gente demais, as perseguições antissemitas, que eclodiram
entre as duas guerras mundiais, não estavam na agenda.
Neste quadro, Francisco se
assemelha aqueles profetas que não eram ouvidos da tradição bíblica.
Bergoglio é tenaz em denunciar políticos que semeiam ódio. É
tenaz em reiterar que estão ressurgindo fenômenos que se acreditava
pertencessem a um passado remoto: ou seja, as tendências a excluir
agressivamente certos grupos e etnias da participação social. Há muito
tempo, Francisco vem alertando contra o surgimento de uma onda ideológica,
que lembra o nacionalismo histérico e a xenofobia persecutória entre as duas
guerras mundiais. Há alguns dias ele voltou a insistir "contra toda
discriminação e pelo respeito de pessoas de qualquer etnia, língua e
religião".
Com a mesma tenacidade, o pontífice
argentino bate e rebate sobre a questão da imigração, crucial na época
contemporânea, uma questão de vida e de morte para milhões de seres humanos que
- como ele disse uma vez - nem sequer buscam uma “existência melhor”, mas
simplesmente tentam existir. Não é uma questão de bondade abstrata e piegas
como seus oponentes acusam. É um fenômeno diante do qual é absurdo fechar os
olhos. A Organização Mundial da Saúde registra 258
milhões de migrantes em todo o mundo. Sessenta e cinco milhões foram
expulsos dos seus países, 25 milhões têm o status oficial de refugiados, dez
milhões são “ninguém”, sem nacionalidade e sem qualquer direito de acesso aos
serviços primários de educação e assistência.
Essa massa também inclui os 21
milhões de seres humanos de ambos os sexos, vítimas do tráfico, incluindo 5
milhões e meio de crianças. Objeto de exploração para o trabalho ou sexual.
Os “novos escravos”, como Francisco os chama. Também
essa enorme população, cheia de sofrimento, “não importa”. Não é um detalhe que
Trump tenha se recusado a assinar o pacto sobre os migrantes da ONU e
que Matteo Salvini tenha imposto ao governo italiano fazer o mesmo.
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PAPA FRANCISCO |
Quanto às desigualdades, as
classes de poder têm cada vez menos vontade de falar sobre isso. A mera menção
pelo pontífice desperta aborrecimento. A eliminá-las cuidará o “crescimento”: o
mantra hipócrita daqueles que ignoram que, de ano para ano, os super ricos
ficam cada vez mais ricos. E que, de ano para ano, a esmagadora parte
dos aumentos de riqueza premia sistematicamente aqueles que já são super
beneficiados. Em 2014, oitenta indivíduos possuíam quanto a metade do
planeta. Em 2019, apenas 26 pessoas possuem quanto os três bilhões e 800
milhões de habitantes mais pobres do mundo.
Ao tema das desigualdades – também
como um risco à democracia – a Pontifícia Academia de Ciências Sociais e seu
chanceler, monsenhor-Marcelo Sanchez Sorondo, vêm dedicando grande atenção há
muito tempo. O último evento foi o encontro no Vaticano da cúpula pan-americana
dos juízes. Estamos na presença, disse de forma realista Francisco, de uma
deterioração dos direitos sociais.
Mas “não há democracia com fome, nem
desenvolvimento com pobreza,
nem justiça nas desigualdades”,
afirmou o Papa.
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Tradução do título: "A solidão de Francisco: um papa profético, uma Igreja na tempestade" Por ora, somente em edição italiana. |
Nas pesquisas, Francisco registra
altos consensos. Mas em setores substanciais das classes dirigentes econômicas
e políticas, embriagadas por uma globalização sem regras a que se
contrapõe eventualmente um soberanismo inspirado pelo liberalismo selvagem,
o papa não tem nenhuma apreciação. Está muito isolado. A direita eclesial e as direitas
econômicas - repetem no Vaticano os defensores de Bergoglio - esforçam-se
em conjunto para pôr fim a um pontificado que incomoda. O choque que ocorre
dentro e fora da Igreja Católica constitui a encruzilhada atual do pontificado.
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