Estamos em uma nova era: o Antropoceno
“Negacionistas das mudanças climáticas
se isolaram num bando de alucinados”
Rodrigo Petronio
Professor da USP mostra como a ciência
vem definindo as causas humanas das mudanças climáticas no livro
“O Antropoceno e a Ciência do Sistema
Terra”
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JOSÉ ELI DA VEIGA |
Sob quaisquer pontos de vista, a alteração
global do clima e as transformações pelas quais a Terra tem passado
no último século estão entre as questões mais relevantes do mundo atual.
As causas naturais ou humanas dessas transformações são objeto de
controvérsias. Mas poucos são capazes de negar que essas transformações
existam. Determinar os origens multifatoriais dessas mudanças profundas
demanda uma articulação de praticamente todos os ramos do conhecimento, da
geologia à biologia, da matemática à física, da filosofia às ciências sociais,
da arqueologia à semiologia.
Por isso, para definir as causas
antrópicas (humanas) dessas mudanças, cientistas e pesquisadores de todo
mundo têm se dedicado a um novo ramo transdisciplinar do conhecimento: a Ciência do Sistema Terra. Caso as motivações
humanas dessa transformação venham a se confirmar em todas suas evidências
científicas, a Terra como um todo estaria entrando agora em uma nova época
biogeológica: o Antropoceno. Ou seja: um
período definido pela marca indelével do homo sapiens neste pequeno
planeta perdido nos confins do universo.
José Eli da Veiga é um dos
maiores representantes brasileiros desse conceito e dessa ciência nascente e
concedeu uma entrevista exclusiva ao Estado. Professor sênior do Instituto de
Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP) e docente ao longo de
trinta anos da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da mesma
universidade, acaba de publicar pela Editora 34 um novo livro que se
intitula justamente: O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra.
Trata-se de uma obra que nasceu clássica. Um marco nacional e internacional
sobre esse debate. Mas qual a definição específica de Antropoceno? Qual
fatia temporal esse conceito recobre? Quais critérios são utilizados para a sua
mensuração? Aqui começam os pontos de divergência.
Estamos então no Éon Fanerozoico,
na Era Cenozoica, no Período Quaternário, na Época Holoceno
e na Idade Contemporânea. Essas datações são feitas a partir de
testes biofisioquímicos e configuram um ramo da geologia: a estratigrafia.
Os estratótipos são camadas biogeológicas de estratigramas que deixam marcas
desses diversos tempos da vida e da Terra. Essa datação é estabelecida de
acordo com regras rígidas da Comissão Internacional sobre Estratigrafia.
Esses levantamentos têm apresentado evidências suficientes para definir que
o impacto do SAPIENS na Terra está colocando fim ao Holoceno e gerando essa
nova época biogeológica: o Antropoceno. Se
o Comitê Executivo da União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS)
ratificar essas análises, teremos a oficialização dessa nova época.
Antropoceno
O termo foi empregado pela primeira
vez em 2000, por Paul Crutzen, Prêmio Nobel de Química (1995). Em 2008,
a Comissão Estratigráfica da Sociedade Geológica de Londres decidiu considerar
a formalização dessa nova época. Contudo a demonstração empírica dessa
transformação ainda continua suscitando ajustes conceituais. Teríamos
evidências suficientes da intervenção humana para demarcar essa nova época?
Seria uma época ou apenas uma nova idade, como a moderna e contemporânea? Um
dos desafios dessa nova ciência é conseguir integrar duas temporalidades: a
geológica e a humana.
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PAUL CRUTZEN |
Os defensores da Grande Aceleração (J.
R. McNeill e Peter Engelke) não têm dúvidas sobre os signos da intervenção
humana na Terra. Algumas evidências estratigráficas revelam que algumas das
alterações produzidas desde 1945 são inéditas e jamais vistas nos últimos 500
milhões de anos. Isso mesmo: nas últimas décadas a Terra tem sofrido
alterações que nunca sofreu em meio bilhão de anos. Para demarcar a força
dessa civilização tecnológica, George Ter-Stepanian cunhou o termo Tecnoceno. Este, porém, não conseguiu substituir
a amplitude e a abrangência do termo Antropoceno.
Alguns autores têm se preocupado em
pensar o Sistema Terra de um ponto de vista efetivamente global. É o caso de Kate
Raworth, criadora da Teoria Doughnut. A
teoria cujo modelo visual tem a forma da famosa rosquinha. E contempla três
matrizes para o desenvolvimento: uma base social, um espaço seguro e justo para
a humanidade, dentro de uma economia regenerativa e distributiva, e um teto
ecológico. Na segunda metade dos anos 1980, a NASA promoveu um simpósio e deu
ensejo ao Diagrama de Bretherton, concebido
pelo matemático homônimo e um dos mais completos modelos de compreensão
sistêmica de todos os fatores envolvidos na dinâmica da Terra.
Entre Gaia e Medeia
Essa visão sistêmica da Terra foi
inaugurada no início dos anos 1970 a partir de uma intuição fornecida por Carl
Sagan a James Lovelock e a Lynn Margulis, criadores da Teoria Gaia. A hipótese central seria de que a
vida na Terra tem uma finalidade (telos): a manutenção do equilíbrio
(homeostase). Algumas observações têm negado essa premissa. Diferente do
proposto por Lovelock-Margulis, a biomassa da Terra não cresceu. Atingiu um
ápice entre 1 bilhão e 300 milhões de anos. E se estabeleceu. A diversidade
da vida tampouco. Manteve-se estável nos últimos 300 milhões de anos.
Contra essa versão otimista da
autopoiesis (auto-regulação), baseando-se em estudos sobre extinções em massa e
na hipótese de uma iminente sexta extinção (Elizabeth Kolbert), Peter
Ward criou a versão oposta: a Teoria Medeia.
Por causa de um efeito colateral do processo de evolução, a vida seria
inimiga da vida. Haveria uma assimetria entre a mudança das espécies e a
permanência da biosfera. Durante o último período da Era Paleozoica (Permiano),
há 250 milhões de anos, 90% das espécies marinhas e 70% do total da biota
morreram. Gigantescos volumes de magma lançados por vulcões produziram uma
multiplicação descontrolada de bactérias anaeróbicas assassinas.
Abordagens como essas ensejam
visões catastrofistas. Em 2003, Martin Rees propôs que não passaria
de 50% a chance de continuarmos neste planeta até 2100. Em 2017, o eminente
cosmólogo Stephen Hawking gerou apreensão coletiva ao dizer que a
humanidade teria não mais do que 30 anos de sobrevida na Terra. O mesmo ocorre
com as visões neomalthusianas (William Vogt e Paul Ehrlich) que
reeditam a teoria do Thomas Robert Malthus (1766-1834), reverendo que definiu o
seguinte axioma: a resposta à abundância é mais abundância. Como
protozoários e moscas-da-fruta, os humanos devem consumir todos os
meios-circundantes (Umwelten) e devem se multiplicar até os recursos da
Terra se esgotarem e, junto com eles, a possibilidade da vida.
Essas expectativas fatalistas
também estão ligadas a crenças sobre demografia. O Grupo da Universidade de
Leeds defende que a Terra não pode suportar mais de 7 bilhões de humanos.
Ecólogos como Erle Ellis e Ted Nordhaus combatem essa fixidez da
capacidade de suporte humano. Recorrem às lacunas dessa equação, inapta a
incorporar fatores tecnológicos, sociais e políticos incomensuráveis, ou seja,
especificamente humanos. Contudo, se levarmos em consideração que o sol deve
se extinguir apenas daqui a 5 bilhões de anos, não deixam de parecer
ociosas essas investigações sobre a erradicação iminente dos seres vivos.
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TOBY TYRRELL |
Eli expõe essas controvérsias com
clareza e uma miríade de referências bibliográficas atuais. Mas se coloca mais
próximo de Toby Tyrrell. Baseado no conceito de coevolução, este procura uma terceira via de
compreensão entre o fatalismo de Medeia e o otimismo de Gaia. Para Eli, o
grande desafio dessa nova ciência seria conceber uma teoria global capaz de
contemplar uma quádrupla evolução:
* do planeta
(geosfera),
* da vida (biosfera),
* da
natureza humana (antroposfera) e
* do
processo civilizador (tecnosfera).
Atualmente, os estudos apenas
oscilam entre a biosfera e a geosfera, a estrutura do planeta e a estrutura
da vida. Não conseguem integrar o impacto humano e técnico em um modelo
conceitual complexo. Seria preciso criar padrões de previsibilidade que
transcendam os aspectos físicos e contemplem a indeterminação do comportamento
humano e das tecnologias. Outra dificuldade inerente às pesquisas sobre o
Antropoceno é conseguir isolar as variáveis antropogênicas primárias e as
interações entre sistemas biofísicos complexos não-humanos. Em outras palavras:
compreender em que medida algumas das consequências detectadas têm sua origem
em um impacto estritamente humano ou em outras variáveis naturais.
Sistema, Emergência e
Complexidade
Mas quando falamos em Sistema
Terra, o que queremos dizer? O que é um sistema? A origem da teoria geral dos sistemas se encontra na obra de Niklas
Luhmann, Humberto Maturana, David Rousseau e, sobretudo, em
um artigo de Ludwig von Bertalanffy de 1950. As relações complexas
parte-todo estão pressupostas nas teorias sistêmicas. E a visão sistêmica pode
ser aplicada a qualquer ciência, ser ou fenômeno. Essas abordagens
sistêmicas são ligadas a alguns conceitos atuais como:
*
emergência,
*
coevolução,
*
complexidade e
*
indeterminação.
Todos esses conceitos são
desenvolvidos por Eli na parte final, a mais densa do livro. O conceito de
emergência é nuclear em todas as ciências, naturais e humanas. Um de seus
precursores é a teoria das catástrofes do matemático francês René Thom
(1932-2002), desenvolvida também pelo pensador francês Jean-Pierre Dupuy.
Outra é a análise dos percursos não-lineares de sistemas dissipativos e fora do
equilíbrio, realizada pela filósofa belga Isabelle Stengers e pelo russo
Ilya Prigogine, Nobel de Química em 1977. Como a teoria dos sistemas, o
conceito de emergência define os seres e fenômenos não a partir de suas
qualidades inerentes, mas a partir das qualidades que emergem das relações entre
esses mesmos seres.
Um átomo, por exemplo. O átomo não
é uma unidade substancial. O átomo é um sistema constituído de partículas cujas
interações não podem ser separaras da observação. Ele tem qualidades que
tampouco são intrínsecas a suas partes. São qualidades emergentes de acordo com
a natureza das interações das partes. Por sua vez, as partículas subatômicas
têm mais propriedades do sistema do que o sistema tem das partículas. O todo
depende das partes. E cada parte altera o todo. A organização sistêmica do
átomo transforma a própria natureza de seus componentes atômicos. Entendido
assim, o átomo passa a ser concebido como sistema e não apenas a partir da
natureza da soma de seus constituintes elementares. Uma teoria geral dos
sistemas seria uma ciência transdisciplinar capaz de descrever todos as
dinâmicas não-lineares, interações e feedbacks envolvidos na gigantesca massa
de interações e reticulações que compõem a Terra.
Nesse sentido, as teorias
sistêmicas e o conceito de emergência se conectam à teoria
da complexidade cujos expoentes são Edgar Morin e Michel
Serres. A integração entre pensamento sistêmico e pensamento complexo foi
proposta por William Ross Ashby a partir de uma renovação da cibernética
(ciência da informação). A etimologia do termo viria de complexus: diversos
elementos entrelaçados e que devem ser compreendidos sob todos os seus ângulos
e pontos de vista. Morin recorre à imagem da tapeçaria: não podemos
conhecer a gênese de um tecido sem percorrer todos e cada um de seus fios. A
teoria da complexidade combate três tipos de erro:
* o
pensamento parcial,
* o
pensamento binário, de tipo “ou-ou” que não concebe as alternativas “e-e”, e
* o
pensamento linear.
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EDGAR MORIN |
A complexidade é a tentativa de
determinar as leis oriundas de uma multiplicidade de interações e de fatores. As leis
dos processos complexos decorrem de um número elevado de interações entre
partes que geram propriedades emergentes. Morin pensa os processos complexos
a partir de três operadores: holograma, recursividade e dialogismo.
O primeiro é uma imagem que possui em cada um de seus pontos a quase totalidade
da informação do objeto representado. O segundo é a capacidade dos efeitos de
um circuito serem a causa do próprio circuito. O terceiro é a identificação de
duas lógicas opostas que se parasitarem e produzem sua autoexclusão.
Uma Nova Terra
Joachim Schellnhuber chega a
definir a consolidação da teoria dos sistemas como uma nova revolução
copernicana. O Brasil tem aos poucos se posicionado nesse marco da complexidade
sistêmica por meio de nomes como Ricardo Abramovay, Lucia Santaella,
Edgar de Assis Carvalho, Jorge de Albuquerque Vieira. Se essa
revolução se consolidar como se espera, o trabalho de José Eli da Veiga será um
dos pioneiros e um dos mais substanciosos dessa revolução. Não se trata de
colocar a Terra de novo no centro do sistema solar. Nem de revogar a posição
central do Sol nesse mesmo sistema, como querem algumas tristes e inesperadas
superstições do século XXI.
Essa nova revolução se baseia em
compreender a Terra como um processo integrado de tantas
nuances e
de tanta complexidade que
será como se a estivéssemos vendo pela primeira vez.
Eis
a entrevista.
O seu livro tem dois
objetivos. Primeiro: mapear o debate em torno do Antropoceno, uma nova época
geológica definida por meio do impacto do humano sobre a Terra. Segundo:
descrever a constituição do Sistema Terra, uma nova ciência transdisciplinar
capaz de mobilizar quase todos os ramos do conhecimento para compreender essas
alterações antropobiogeológicas em toda sua abrangência e complexidade. Como o
senhor descreveria para os leigos esses dois termos: Antropoceno e Sistema
Terra?
José Eli da Veiga: O termo
Antropoceno surgiu da necessidade de esclarecer e enfatizar que a Época
atual é marcada por alterações da Terra determinadas – pela primeira vez em
4,5 bilhões de anos – por impactos ambientais globais de uma única
espécie. Isto é, pelos modos de vida dos humanos, mais do que qualquer
outro vetor. Fenômenos que consideramos altamente positivos – como o progresso
e a prosperidade conquistados ao longo de milênios de processo civilizador –
sempre tiveram muitas contrapartidas artificializadoras negativas, mas a
escalada global desses impactos é bem recente e mal começa a ser destrinchada
pelos cientistas. Foi o que motivou a emergência, há apenas três ou quatros décadas,
da abordagem conhecida como Ciência do Sistema Terra,
que o livro a apresenta como uma auspiciosa “promessa”. Sugerindo, ao mesmo
tempo, que talvez tivesse sido muito mais correto chamá-la de Ciência do Complexo Terra. Mas tudo isso esbarra numa
grande confusão epistemológica, já que nos últimos setenta anos evoluíram
simultaneamente – e de forma bem confusa – muitas teorias “dos sistemas” e “da
complexidade”.
O senhor enfatiza que os
impasses teóricos, inerentes à constituição do Sistema Terra como ciência, em
nada invalidam as evidências dos fatores antrópicos (produzidos pelo humano)
presentes no aquecimento global. Muitos dos chamados ecocéticos, que
negam o papel dos humanos nas alterações climáticas, apoiam-se nessa
indeterminação conceitual para minimizar ou mesmo invalidar essas evidências. A
despeito da incomensurabilidade de diversas variáveis, que o senhor destaca na
obra, quais evidências antrópicas do aquecimento global o senhor considera
irrefutáveis?
José Eli da Veiga: Quem lida
com a cultura científica só pode ter horror ao termo “irrefutável”. Afinal, a
ciência é um movimento baseado na constante refutação de “certezas” que, em
grande parte, eram necessariamente provisórias. Mas esse movimento também vai
deixando sempre mais clara a distinção entre um estoque de evidências
consolidadas e o fluxo de novos conhecimentos discutíveis, alguns até bem
controversos. No que diz respeito especificamente às modernas alterações
climáticas, as dúvidas foram perdendo o sentido na medida em que o painel
científico criado pela ONU em 1988 (IPCC) foi produzindo sólidos relatórios,
que sintetizam inúmeras publicações de resultados científicos em periódicos de
primeira linha dos anos anteriores. Com isso, os chamados “negacionistas”
(talvez também “ecocéticos”, como está na pergunta) poderiam ter direito a
algum crédito até o final do século passado. Porém, nas duas últimas
décadas foram se reduzindo e se isolando num bando de alucinados. Houve recente
ressurreição desse tipo de picaretagem – extremamente favorecida pela atual
onda política reacionária – mas nem assim os negacionistas conseguirão um
mínimo de respeito no âmbito da comunidade científica mundial.
Além de ter 28 livros
publicados, o senhor é colunista do “Valor Econômico”, da revista “Página 22” e
da Rádio USP. Qual o papel da divulgação científica nos dias de hoje? Quais
cuidados especiais o divulgador de ciência deve ter ao abordar esses fenômenos
relativos ao Sistema Terra e ao Antropoceno?
José Eli da Veiga: Como nosso
País é especialmente ingênuo sobre o papel estratégico da Ciência &
Tecnologia (C&T), o trabalho de educação científica – e, portanto, de
divulgação – tem ainda mais importância do que em sociedades culturalmente
menos atrasadas. No caso do Antropoceno, é muito importante separar bem o
debate científico de suas repercussões naquilo que o geógrafo Jamie Lorimer
(Oxford) classificou como Zeitgeist, novas ontologias, ficção científica e até
provocação ideológica. Ao redigir o livro O Antropoceno e a Ciência do
Sistema Terra minha principal preocupação foi justamente a de realçar
apenas o que existe de científico na proposta e nos debates sobre o
Antropoceno.
Emergência, coevolução e
complexidade. Poderíamos dizer que estes três conceitos são as chaves para a
unificação dos campos de conhecimento do Sistema Terra? As universidades
brasileiras têm se ocupado de estudos em torno desses conceitos na proporção em
que deveriam?
José Eli da Veiga: Começando
pelo fim, a resposta não poderia ser mais negativa. Afora raríssimas e honrosas
exceções – como é o caso, por exemplo, de um destacado programa de
pós-graduação do INPE voltado ao “Sistema Terrestre” – tais
estudos ainda não mereceram a devida atenção da mirrada comunidade científica
brasileira. Já as três noções mencionadas no início – emergência, coevolução
e complexidade – têm sido bem mais contempladas. Mas infelizmente tudo
continua muito precário, tanto aqui como em todo o mundo. Além disso, o livro
mostra que essa precariedade ainda vai precisar de muito tempo para ser
superada.
O senhor define a ciência do
Sistema Terra como aquela responsável por unificar todos os processos da Terra
em uma “quádrupla evolução”: do planeta, da vida, do humano e da civilização.
Por ora, as teorias sistêmicas operam apenas em duas dessas esferas: a biologia
(vida) e a geologia (planeta). O senhor é otimista em relação à consolidação
dessa abordagem quádrupla em breve?
José Eli da Veiga: Consolidação
em breve? De jeito algum! O que o livro procura mostrar é que existem sérios
problemas epistemológicos que dificultam demais o avanço dessa quádrupla
abordagem transdisciplinar. Quanto a ser ou não “otimista”, prefiro pensar
e agir seguindo aquele velho conselho de Romain Rolland (prêmio Nobel de
literatura em 1915): sempre tentarmos combinar o pessimismo da razão ao
otimismo da vontade.
Em termos populares e do
senso comum, o Sistema Terra acabou sendo identificado nas últimas décadas a
duas grandes imagens: a imagem de Gaia (James
Lovelock, Lynn Margulis, entre outros) e a imagem de Medeia
(Peter Ward, entre outros). Ou seja: uma imagem de uma vida-Terra que tende ao
equilíbrio e uma imagem de uma vida-Terra que tende à destruição. Em que medida
essas imagens de mundo nos ajudam a ter uma melhor compreensão do Antropoceno?
Em que medida essas imagens dificultam ainda mais uma clara compreensão do
Antropoceno, gerando mistificações e problemas políticos, econômicos e
pragmáticos?
José Eli da Veiga: Primeiro,
uma retificação. A hipótese Medeia continua ignorada e desprezada.
Alguns colegas costumam me dizer que ela “caiu no vazio”. Já a hipótese
Gaia, ao contrário, logo se tornou muito popular. Certamente por permitir
muitos flertes com vários tipos de esoterismo. O que o livro propõe é
olhar para as duas como dois polos simétricos que se alimentam enquanto se
opõem. O que poderá eventualmente gerar um avanço pelas veredas intermediárias,
com hipóteses que ainda não têm apelações emprestadas da mitologia grega, mas
que talvez pudessem ser tornar mais atraentes se evocassem o hinduísmo e serem
carimbadas de hipóteses Shiva. Foi o que me
sugeriu um leitor atento do livro, a quem aproveito para agradecer. Quanto à
segunda parte da pergunta, o principal é dizer que essas imagens podem ajudar a
esclarecer as grandes incógnitas da Ciência do Sistema Terra, mesmo que não
contribuam para a clara compreensão do Antropoceno. Aliás, a conclusão do
livro é que a compreensão do Antropoceno depende apenas de duas disciplinas há muito
estabelecidas: História Ambiental e Estratigrafia (parte
essencial da Geologia). De qualquer forma, tais imagens não geram quaisquer
“problemas políticos, econômicos e pragmáticos”.
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Agenda 2030 - Metas para um Mundo Sustentável |
A pergunta é muito
abrangente e complexa, mas não consigo deixar de fazê-la. Quais agendas
políticas o Brasil precisaria adotar para conciliar crescimento econômico e
minimização do impacto ambiental?
José Eli da Veiga: Duas
agendas precisariam ser assumidas. Primeiro, a já subscrita, desde o
final de 2015, Agenda 2030, com toda ênfase para os seus 17 Objetivos
de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Além dela, seria muito recomendável
alguma adaptação à nossa realidade das 66 medidas recentemente propostas
aos cidadãos franceses por 19 organizações da sociedade civil, no chamado
“Pacto 66”.
Tenha
acesso às 66 propostas do “Pacto 66”,
clicando
aqui.
Está
em francês, mas pode-se pedir ao Google que
traduza a página.
A demarcação do Antropoceno
como período geológico deve ser oficialmente confirmada pela comunidade
internacional de estratigrafia (medições biogeoquímicas dos solos) em 2020. Em
que medida essa oficialização pode alterar a agenda das políticas públicas globais?
José Eli da Veiga: Não se
trata de alterar políticas públicas globais, mas sim de reformar a agenda
educacional, desde o Ensino Médio. E isso talvez seja uma excelente
oportunidade para se repensar toda a “Educação Científica”, direcionando-a
prioritariamente para a “Ciência da Sustentabilidade”, tema de meu
próximo livro.
Bruno Latour cunhou o
neologismo “terranos” para descrever aqueles que habitam a Terra e, ao mesmo
tempo, têm consciência de habitá-la. Por oposição, os “terráqueos” comportam-se
como alienígenas e colonizadores em seu próprio planeta. Caso houvesse uma
guerra entre terranos e terráqueos, quem o senhor imagina que sairia vitorioso?
José Eli da Veiga: Deixando de
lado tão pitorescas especulações, gostaria de aproveitar a oportunidade criada
por essa pergunta para ressaltar que a verdadeira oposição é, sim, ética,
mas está ocorrendo entre as pessoas que:
* mais se
preocupam com as condições de vida das futuras gerações e
* aquelas
mais predispostas a deixar que tais gerações “se lixem” ou “se explodam”.
Mais: não haverá guerra, ou lado
vitorioso, pois não se trata de contradição antagônica. Teremos um movimento
ondulatório com fases bem reacionárias (como a atual) e períodos dos mais
iluministas. Tudo isso pode terminar em inverno nuclear, caso em que o
movimento ondulatório seria interrompido por longuíssimo tempo. Todavia, se
o uso de armas nucleares puder ser evitado, a capacidade inovadora e
solucionadora dos humanos certamente surpreenderá.
Em que medida as
colonizações de outros planetas e a exobiologia (ramo da astronomia que estuda
da vida em outras galáxias) podem enriquecer ou relativizar as conquistas da
ciência do Sistema Terra ou a datação do Antropoceno?
José Eli da Veiga: Certamente
contribuirão muito para avanços da Ciência do Sistema Terra. Mas a datação do
Antropoceno em nada depende das duas variáveis mencionadas.
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