O mistério do amor
Estamos sempre à procura de alguém quase
igual
André Lopes
Estudo canadense aponta que os
indivíduos estão sempre à procura de parceiros cujas respectivas personalidades
sejam próximas entre si
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VAI E VOLTA - Os atores Elizabeth Taylor e Richard Burton: casamento de dez anos, divórcio e novas núpcias Foto: Douglas Kirkland/Corbis/Getty Images |
“O amor é a capacidade de
perceber o semelhante no dessemelhante.” À primeira vista, o aforismo, do
filósofo alemão Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969), pode soar
contraditório. No entanto, já é possível afirmar com alguma segurança
científica que, na verdade, ele ajuda a iluminar algo intrigante: como os
seres humanos, afinal de contas, escolhem seus pares românticos.
Uma pesquisa publicada recentemente
na revista PNAS, órgão da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, atesta
que os indivíduos estão sempre à procura de parceiros cujas respectivas
personalidades sejam próximas entre si. E isso por um motivo muito, muito
simples: o que uma pessoa busca no plano dos relacionamentos afetivos é
alguém que, somados e subtraídos todos os atributos, se pareça com ela
mesma.
Para chegar a tal conclusão, um
grupo de psicólogos da Universidade de Toronto, no Canadá, debruçou-se
sobre os dados de 332 voluntários alemães coletados entre 2008 e 2017
por meio de um trabalho do German Family Panel, uma comissão
multidisciplinar dedicada a estudar as relações pessoais e a vida privada em
seu país de origem. Nele, ex e atuais companheiros, que tiveram namoros com
duração média de três anos e dez meses, relatavam como entendiam a própria personalidade
e a de seus parceiros, apontando traços como afabilidade, aspirações e rotina.
De acordo com os cientistas
canadenses, os resultados revelam que existe uma tendência, tanto em homens
como em mulheres, a se envolver com um tipo particular de pessoa. Desse
modo, no afã de “perceber o semelhante no dessemelhante” — vale dizer, no outro
—, os indivíduos estariam sempre, inconscientemente, buscando pontos de
contato entre o antigo amor e o, vá lá, “candidato a atual”. Em outras
palavras: para cada um de nós existiria, sim, o chamado “tipo perfeito”.
Isso evidenciaria que a procura por
parceiro afetivo duradouro não passaria de um círculo vicioso, repetitivo?
Segundo Yoobin Park, um dos pesquisadores responsáveis pelo trabalho
desenvolvido na Universidade de Toronto, não se trata disso. “Nossos
resultados não mostram que a preferência por um tipo de personalidade se
traduza em relacionamentos iguais, mas tão somente que eles terão algumas
semelhanças”, disse a VEJA. O diferencial na nova relação, sustenta Park,
estaria na possibilidade de usar habilidades emocionais — como a capacidade
para resolver conflitos — aprendidas com o ex. “De todo modo, é preciso
tomar cuidado para não tentar consertar o relacionamento atual baseando-se no
antigo, o que significaria que o luto quanto à relação anterior não foi
vivido adequadamente.”
Park atenta ainda para outra
precaução: que a comodidade de buscar parceiros com os mesmos traços de personalidade
dos anteriores acabe resultando na perpetuação de relacionamentos que
poderíamos chamar de “tóxicos”. O estudo de que ele participou mostrou que indivíduos introvertidos têm maior predisposição para
optar por modelos repetitivos — e muitas vezes problemáticos — de
relacionamento amoroso. O contrário ocorre com os de perfil
mais desinibido.
Naturalmente, não é simples
discernir quando a repetição de “tipos” nas relações afetivas significa a
descoberta do “modelo ideal” ou apenas o envolvimento em mais uma relação
tóxica. A atriz inglesa Elizabeth Taylor (1932-2011) teve sete
maridos — e oito casamentos. O desencontro entre os números matrimoniais
explica-se pelo fato de que com o ator galês Richard Burton a estrela
viveu um romance em dois capítulos: eles se casaram em 1964, divorciaram-se
em 1974 e voltaram a contrair núpcias em 1975. Esse segundo casamento,
contudo, durou apenas um ano — deixando claro que insistir com a mesma pessoa,
e não apenas com quem se pareça com ela, está longe de garantir o êxito de uma
relação amorosa.
Para além da contribuição que
oferece aos estudos da vida afetiva dos seres humanos, o trabalho realizado
pela equipe canadense poderá atuar, no futuro, como referência para os serviços
e aplicativos de namoro on-line ou voltados para a sugestão de parceiros em
potencial, com base justamente nos romances anteriores. Algo parecido com as
recomendações de filmes e séries da Netflix, por exemplo — só que tendo como
objetivo a descoberta de alguém com quem se possa iniciar uma relação afetiva.
Por enquanto, os resultados sugerem que a chave para encontrar felicidade em
relacionamentos de longo prazo é, em boa parte dos casos, descobrir alguém
novo que seja como o antigo. O semelhante no dessemelhante.
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