Como salvar a Igreja?
Bispo alemão afirma que somente uma nova
teologia pode salvar a Igreja
Christa Pongratz-Lippit
La
Croix International
25-06-2019
O abuso de poder clerical está
destruindo o catolicismo
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Dom Heiner Wilmer |
Heiner Wilmer é bispo da
diocese de Hildesheim, Alemanha.
Um dos mais recentes bispos
nomeados da Alemanha levantou as sobrancelhas chamando por uma “nova teologia”
como uma resposta urgente às revelações de abuso de poder por parte do clero.
“Nós ainda não percebemos
plenamente que a crise de confiança está
pesando sobre a estrutura da Igreja com uma força absoluta”, alertou o
bispo Heiner Wilmer, SCI, em uma recente entrevista no jornal alemão Süddeutsche
Zeitung.
Aos 58 anos, lidera a diocese de
Hildesheim, no nordeste da Alemanha, apenas desde setembro, mas essa não é a
primeira vez que ele se torna manchete com suas declarações sinceras.
Wilmer, que foi
superior geral e professor de uma ordem missionária mundial, conhecida como
os Dehonianos (Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus)
antes de se tornar bispo, recebeu críticas com apenas três meses no seu novo
emprego quando ele disse à Kölner Stadt Anzeiger que o abuso de poder
estava no DNA da Igreja.
“Eu contava com as críticas, mas
não que muitas pessoas ficariam estressadas”, admitiu na sua última entrevista
no Süddeutsche Zeitung, publicada em 12-06-2019.
“Minha declaração (que foi em
dezembro de 2018) acertou um nervo, causando mais dores que eu imaginava. Mas
eu mantenho o que disse”, disse o bispo.
"Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse: 'Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus". (Mateus 18,2-4) |
Abuso de poder, tão antigo
como o Evangelho, precisa ser tratado teologicamente
Ele argumenta que a Igreja esqueceu
que os abusos de poder são tão antigos quanto o Evangelho, apontando muitos
exemplos no Novo Testamento, incluindo como os discípulos brigavam sobre
quem seria o primeiro dentre eles.
Wilmer notou que a reação da Igreja
à crise de abusos até agora foi aplicar disciplina e o direito canônico,
aumentando a prevenção, a comunicação e trabalhando juntos com o judiciário e
autoridades estatais.
“Isso tudo é bom e correto, mas nós
ainda não alcançamos o enfrentamento fundamental do problema”, disse.
Na sua visão, isso requer que a
Igreja pergunte a si mesmo o que a crise de abuso de poder significa na
“forma como falamos sobre Deus, a Igreja e na forma como proclamamos o
Evangelho”.
Ele alegou que silenciar os abusos
sexuais por parte do clero foi consequência de uma excessiva exaltação da
sacralidade da Igreja. Assim a violência sexual foi vista como algo que
suja a santidade da Igreja e foi acobertada.
“Nós devemos descer para ver a
Igreja pecadora, mas também enfrentarmos o problema teologicamente”, disse ele.
A Igreja deve sair da
moralização para libertar as pessoas
O bispo Wilmer, que estudou na Pontifícia
Universidade Gregoriana em Roma e tem doutorado em Teologia na Universidade
de Freiburg, na sua nativa Alemanha, argumentou que uma imagem excessivamente
exaltada da Igreja foi uma das razões que levaram à terrível extensão da
violência sexualizada, que agora vem à tona.
“Nós estamos muito longe,
interessados em polir a imagem da Igreja e falhamos em ver o ser humano. Eu
acho uma terrível verdade!”, ele disse.
O bispo lamentou que no último
século a Igreja “resvalou” na forma de proclamar o Evangelho, levando as
pessoas a ver simplesmente uma instituição centrada na moralidade sexual.
“Nós permitimos que a Igreja se
deteriorasse em uma instituição moral focada no que pode ou não acontecer
debaixo dos lençóis”, disse ele, ao mesmo tempo em que enfatiza que o
sexto mandamento não é o único mandamento.
Wilmer disse que a mensagem de Jesus
Cristo “não foi primordialmente moral”, mas objetivava libertar e redimir os
seres humanos.
“No Evangelho de São Mateus ele não
fala ‘se vocês se juntarem, serão a luz do mundo’ ou ‘se
estiverem conforme as normas sexuais, vocês serão o sal da Terra’. Ele usou o [modo
verbal no] indicativo e não o condicional ou imperativo, e disse ‘Vocês são
o sal da Terra e a luz do Mundo como vocês são’”, disse o bispo.
Ele destacou que Jesus tinha um
incrível senso de beleza.
“Ele viu a fantástica beleza em um
aleijado e faz ele sentir essa beleza e levantar sua cabeça”.
PAPA FRANCISCO Entusiasmado em uma de suas pregações ao povo |
Da mera sobrevivência ao
despertar fascínio pelo Evangelho
Dom Wilmer disse que isso é
crucial para a Igreja se tornar uma comunidade que levanta as pessoas. E
ele disse que, mais decisivamente para ele, que o
Evangelho deve ser proclamado de uma forma que fascine as pessoas.
“Nós precisamos achar as brasas sob
as cinzas para brilhar novamente, e começar com os anseios das pessoas por
segurança e paz. Nós devemos dar-lhes espaço para crescer, espaço para
desenvolver e espaço suficiente para respirar”, disse ele.
Ele alertou que quem está somente
interessado na sobrevivência da Igreja “já está perdido”.
O mais recente bispo da Alemanha
também disse, esperançosamente, que o procedimento sinodal da conferência
nacional dos bispos começou.
Ele disse que engajar os leigos
nas discussões sobre:
* poder
clerical,
* moralidade
sexual da Igreja e
* estilo de
vida dos padres não seria fácil.
Mas ele disse estar convencido que isso
seria bem-sucedido.

A coragem para ouvir e mudar
No entanto, ele disse que será
preciso muita coragem por parte dos bispos para poder “caminhar ombro a ombro”
com os leigos e discutir questões como a ordenação sacerdotal, o celibato
e o lugar das mulheres na Igreja.
Wilmer, que é padre há 32 anos,
disse estar “apaixonadamente” comprometido com o celibato. Mas ele disse: “deve
ser feito para brilhar mais radiantemente”. A melhor maneira de fazer isso,
ele argumentou, seria torná-lo voluntário, em vez de obrigatório, como é
hoje.
Ao mesmo tempo, o bispo disse que é
crucial que as mulheres
sejam colocadas em
posições de liderança na Igreja e
recebam maiores responsabilidades.
“Não podemos mais simplesmente
dizer que a questão da ordenação de mulheres foi decidida de uma vez por todas,
e ponto final”, disse o bispo Wilmer.
Ele concluiu advertindo que, se
a Igreja não encontrar uma maneira de colocar essas reformas em prática, ela se
tornará marginal.
Traduzido do inglês por Wagner
Fernandes de Azevedo e reeditado por Telmo José Amaral de Figueiredo. Acesse a versão original, clicando aqui.
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