Morte ao Meio Ambiente!
Cinco pontos que escancaram o
esvaziamento
da política ambiental no Brasil
Rafael Tatemoto
O governo não tem uma política
ambiental.
O governo tem uma estratégia de esvaziar
a política ambiental
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RICARDO SALLES Ministro do Meio Ambiente - Governo Bolsonaro Foto: Yasuyoshi CHIBA/AFP |
Área sofreu reveses mesmo antes do
início do novo governo; mudanças na pasta são criticadas por ambientalistas.
A questão ambiental foi o centro de
polêmicas antes mesmo do governo Jair Bolsonaro (PSL) começar em 2019: depois
de eleito em outubro de 2018, o novo presidente anunciara a intenção de
extinguir o Ministério do Meio Ambiente (MMA). Por conta das críticas,
recuou da iniciativa.
A mudança, entretanto, não faz com
que entidades ambientalistas poupem críticas à política ambiental de Bolsonaro
e do ministro Ricardo Salles.
“O governo não tem uma política
ambiental. O governo tem uma estratégia de esvaziar a política ambiental. Como
ele teve de recuar na extinção do Ministério, a pasta virou o principal
operador da estratégia de esvaziamento. Estamos vendo a antipolítica”,
diz Adriana Ramos, coordenadora do programa de políticas e direitos
socioambientais do Instituto Socioambiental (ISA).
Abaixo, o Brasil de Fato
lista cinco questões que sofreram retrocessos ou estão sob ameaça por conta
da política de Bolsonaro para o setor.
1. Enfraquecimento
institucional
Apesar de mantido, o MMA perdeu
parte de suas competências. O Serviço Florestal Brasileiro, responsável pela
gestão das Florestas Nacionais, passou para o Ministério da Agricultura; já
a Agência Nacional das Águas foi para o Desenvolvimento Regional.
Além disso, segundo Adriana Ramos,
do ISA, há questões específicas sob a alçada do Meio Ambiente em que há
dúvida sobre o departamento responsável, além de setores ainda sem
nomeações.
“Toda política [ambiental
brasileira] está ameaçada. O Ministério começa por esvaziar os fundamentos
da política ambiental: a participação social e o acesso à informação. São
duas coisas ameaçadas, a partir daí, todo o resto fica ameaçado”, complementa
ela.
O esvaziamento da política
ambiental – inclusive com o Ibama anunciando previamente em que local
realizará fiscalizações – já mostra seus efeitos: a quantidade de multas
aplicadas pelo órgão de janeiro a maio foi o menor dos últimos 11 anos, com
queda de 34% em relação ao ano passado.
2. Fundo
Amazônia
Salles questionou o modo de gestão
do Fundo Amazônia, financiado principalmente pela Noruega e Alemanha. A
proposta de mudança causou, inclusive, um constrangimento diplomático e pode
colocar em xeque a continuidade do instrumento. Um dos argumentos mais
mobilizados pelo ministro é justamente o da falta de orçamento para a pasta.
O Fundo foi criado em 2008,
recebendo repasses anuais dos dois países. Hoje, tem cerca de R$ 3 bilhões. Ainda em
2018, a Noruega anunciou que reduziria em 50% os repasses por conta do
aumento da devastação amazônica durante o governo Temer.
“Uma das soluções que vinham sendo
utilizada era a utilização o próprio Fundo Amazônia para financiar a
fiscalização. O ministro tomou a iniciativa deliberada de paralisar o fundo.
O governo se coloca em uma sinuca de bico propositadamente, porque não
deseja que o combate ao desmatamento avance”, avalia a diretora do ISA.
3. Reserva
legal e Código Florestal
O senador Flávio Bolsonaro
(PSL-RJ) apresentou Projeto de Lei que extingue as chamadas reservas legais –
áreas que não podem ser desmatadas no interior de propriedades rurais.
Segundo o parlamentar, a medida fere o direito de propriedade.
[Comentário pessoal:
para ele, a propriedade está acima do bem-comum, do bem da coletividade! Um belo exemplo da
ideologia ultraliberal da extrema-direita! O povo que se dane, o ambiente que
se dane, os pobres que morram, o importante é a propriedade! Escreve São João
Paulo II: «A tradição cristã nunca defendeu tal direito como algo absoluto
e intocável; pelo contrário, sempre o entendeu no contexto mais vasto do direito
comum de todos a utilizarem os bens da criação inteira” (Laborem
Exercens, n. 14). E termina resumindo: “o direito à propriedade privada
está subordinado ao direito do uso comum, subordinado à destinação universal
dos bens”. Como afirmou, muito bem, São João Paulo II, quando se encontrou
com os trabalhadores no estádio do Morumbi em São Paulo: «sobre a
propriedade privada pesa uma hipoteca social».]
O governo, de outro lado, já
apontou que retomará o conteúdo da Medida Provisórioa 867, que perdeu a
validade. O texto, que beneficiaria apenas 4% dos produtores rurais do Brasil,
altera o Código Florestal, estabelecendo, entre outras coisas, uma espécie
de anistia que elimina o dever de recomposição de florestas desmatadas.
Esse último ponto é considerado o
mais grave pela Greenpeace na proposta retomada pelo Planalto.
“Ampliará a anistia já concedida,
que dispensou na aprovação da lei a recuperação de 41 milhões de hectares em
todo o país, área maior que a do Mato Grosso do Sul. Sob a falsa alegação
de “aprimoramento” da regra, a anistia será ampliada para os grandes
produtores rurais, dispensando-os de recuperar algo entre 5 e 6 milhões de
hectares, ou duas vezes a área do de Sergipe”, diz texto da organização sobre a
MP 867.
“A sinalização política que o
presidente e o ministro dão é de estímulo à atuação dos grupos que se beneficiam
do desmatamento ilegal. Pode-se não ter dinheiro, mas se sinalizar
politicamente com o interesse de fazer algo mesmo com dificuldades. Não é o que
estamos vendo: o governo não tem dinheiro, mas também não tem um discurso
político de fortalecimento”, comenta Ramos.
4. Revisão
de Unidades de Conservação
Salles já anunciou a intenção de revisar
todas as Unidades de Conservação, desde o Parque Nacional de Itatiaia
(de 1934) até o Refúgio da Vida Silvestre da Ararinha Azul (estabelecido
em 2018). Ao todo, são 334 unidades. Segundo o ministro, elas foram
criadas “sem critério técnico”.
5. Política
climática
O governo Bolsonaro abriu mão de
sediar a COP-25, maior encontro climático do mundo, que agora irá ocorrer
no Chile, em novembro. Salles afirma constantemente que o tema “não é
prioritário”. O ministro chegou a anunciar também a não realização Semana
do Clima da América Latina e Caribe em Salvador (BA). Pela intervenção do
prefeito da cidade, houve recuo no anúncio.
“A recusa do governo em receber a
Semana do Clima demonstra ainda o negligenciamento do governo quanto a
enfrentar de fato esse desafio”, criticou o Greenpeace em relação ao
anúncio original.
Além disso, 95% das verbas para
a área foram cortadas.
Não
por acaso, o Ministro do Meio Ambiente, justamente
no dia
do Meio Ambiente, foi vaiado em pleno
Senado
Federal, em Brasília.
Clique
abaixo:
Fonte: Brasil de Fato – Dia
do Meio Ambiente – Brasília (DF), 5 de Junho de 2019 – 07h59 – Internet: clique aqui.
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