É hora de olharmos o futuro!
Continuamos como sonâmbulos e estamos
indo rumo ao desastre
Entrevista com Edgar
Morin
Antropólogo, sociólogo e filósofo francês judeu de origem
sefardita. Pesquisador emérito do CNRS. Formado em Direito, História e
Geografia, realizou estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia
Úrsula Passos
Para um dos maiores filósofos vivos, a humanidade deve
tomar consciência da incerteza do futuro e
de seu destino
comum
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EDGAR MORIN |
Edgar Morin é um dos
mais importantes e relevantes pensadores vivos. Prestes a completar 98 anos, em
julho, segue escrevendo e expondo ideias em conferências em universidades e
eventos.
O francês de origem judaica é um
grande intelectual público, sempre disposto a participar do debate, seja ele
sobre o conflito na Palestina, cinema, transgênicos, aquecimento global ou
imigração.
Morin deve boa parte de seu sucesso
ao pensamento complexo, conceito
defendido por ele segundo o qual o conhecimento só é possível pela
transdisciplinaridade.
Essa ideia impactou o pensamento
sobre educação no mundo todo. Tanto que, em 1999 foi convidado pela Unesco
a escrever um livro explicitando as modificações que julga necessárias na
educação: “Os Sete Saberes Necessários à Educação no Futuro”, disponível
em português (Cortez Editora).
Morin conversou com a Folha
em São Paulo, onde esteve na semana passada para uma conferência sobre prazer
estético e arte no Sesc. Ao longo da entrevista, acompanhado por uma
caipirinha, sorriu bastante e bateu na mesa em momentos de indignação.
Eis a entrevista
O senhor frequentemente fala
da prosa e da poesia na vida, sendo a prosa a sobrevivência, o cotidiano do que
somos obrigados a fazer, e a poesia, as relações de afeto, o jogo. O espaço da
poesia está diminuindo e a prosa está ganhando?
Edgar Morin: Ela não
poderá jamais vencer totalmente, mas eu diria que a prosa fez progressos
consideráveis com a industrialização não só do trabalho, mas da vida, com a
burocratização que encerra as pessoas num pequeno espaço especializado, com a técnica,
que se serviu tanto dos homens quanto dos materiais.
Mas há uma resistência da poesia
na vida privada, nas relações amorosas, de amizade, nos afetos,
no prazer do jogo, no futebol, por exemplo. Há momentos de ambiguidade e
devemos resistir a esse progresso enorme da prosa, que significa uma degradação
da qualidade de vida.
O senhor tem uma conta
bastante ativa no Twitter; ela é uma ferramenta de divulgação de seu trabalho?
Edgar Morin: É uma forma
de me expressar, de expressar ideias que me ocorrem, reações que tenho frente a
acontecimentos e de uma forma muito concentrada. É um exercício de estilo, que
permite que eu expresse e comunique aos outros o que penso e vejo em diferentes
momentos do dia.
O senhor fala de um mundo
padronizado, uniformizado. Como ficam o pensamento e a arte?
Edgar Morin: Vivemos uma
crise do pensamento. Aprendemos em nosso sistema de ensino a conhecer
separando as coisas de maneira hermética segundo disciplinas. Os grandes
problemas, porém, requerem associar os conhecimentos vindos de disciplinas
diversas. Isso não é possível dada a lógica que comanda nosso modo de
conhecer e de pensar.
Temos uma crise do pensamento que
se manifesta no vazio total do pensamento político, ainda que, há coisa
de um século, houvesse pensadores políticos que, mesmo quando se equivocavam,
tentavam compreender o mundo, como Karl Marx e Tocqueville.
Meu esforço nas minhas obras é
tentar efetivamente esse pensamento. O que estamos vivendo? O que está
acontecendo? Para onde estamos indo? Claro que não posso fazer profecias, mas vejo
o risco nas possibilidades que se abrem diante de nós.

Qual o maior desafio do ensino?
Edgar Morin: Não
inserimos no programa temas que podem ajudar os jovens, sobretudo
quando virarem adultos, a enfrentar os problemas da vida. Distribuímos o
conhecimento, mas não dizemos que ele pode ser uma forma de traduzir a
realidade e que podemos cair no erro e na ilusão.
Não ensinamos:
* a
compreensão do outro, que é fundamental nos nossos dias,
* não
ensinamos a incerteza,
* o que é o
ser humano, como se nossa identidade humana não fosse de nenhum
interesse.
* As coisas
mais importantes a saber não se ensinam.
O senhor disse em uma
conferência recente que a democracia ficou rasa e que a consciência democrática
está degradada. Esse diagnóstico vale para o mundo todo? Como chegamos a isso?
Edgar Morin: Chegamos
progressivamente, primeiro porque as antigas concepções políticas se
deterioraram e chegamos a uma política da urgência e do imediato. E,
como sempre digo:
Ao sacrificar o essencial pelo que é urgente, acaba-se
por
esquecer a urgência do essencial.
A crise da democracia se deve aos enormes poderes do dinheiro
terem levado a casos de corrupção em todo lugar. O vazio do pensamento,
somado a essa corrupção, leva a uma perda de confiança na democracia,
e isso favoreceu os regimes neoautoritários,
como vimos na Turquia, Rússia, Hungria e como vemos agora na crise da democracia
no Peru e no Brasil.
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RONALD REAGAN (40º Presidente dos Estados Unidos: 1981-1989) & MARGARET THATCHER (Primeira-Ministra do Reino Unido de 1979 a 1990) |
A regressão histórica começou muito
fortemente com os anos Thatcher e Reagan, que no fim do século passado
impuseram a regra do liberalismo econômico absoluto, como se as leis
da concorrência pudessem regrar e melhorar todos os problemas sociais, mas isso só favoreceu a especulação e a força do dinheiro,
que controla a política.
A crise da democracia é o controle do poder político
pelo poder financeiro,
que é cego, que vê só os interesses imediatos,
não tem consciência do destino da humanidade.
A prova é a degradação da
biosfera, que é evidente, e que vemos na degradação da Amazônia ou na
poluição das cidades, por exemplo, mas que é ignorada em detrimento de um
benefício imediato. Assim, damo-nos conta de que vivemos em uma época de
cegueira e de sonambulismo. Isso participa na crise da democracia.
Eu vivi — sou muito velho, como
sabe — nos anos 1930 e 1940, um período da ascensão da guerra,
vínhamos de uma época em que acreditávamos estar em paz, mas numa crise
econômica enorme que provocou a chegada de Hitler ao poder por vias
democráticas.
Vivemos esse período como
sonâmbulos, sem saber que íamos em direção ao desastre.
Continuamos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre, em condições
diferentes. O que é certo é o desastre ecológico, e o desastre
dos fanatismos. [E como existe gente fanática
no mundo de hoje!!! Fanáticos por ideias políticas, fanáticos religiosos,
fanáticos por pessoas, fanáticos por teorias apocalípticas etc.]
A menos que as pessoas tomem
consciência da comunidade de destino dos humanos sobre a Terra, as pessoas
se fecharão em suas identidades religiosas, étnicas etc. Vivemos um
período obscuro da história, a única consolação é que esses períodos
obscuros não são eternos.
Desastres naturais se multiplicam |
Vemos hoje uma política das
identidades. Como conciliar a democracia, o espírito republicano e as lutas
identitárias?
Edgar Morin: Uma nação é
sempre a unidade de diversidades. Se não se vê a unidade, ela se empobrece
e perde sua diversidade, e se só se vê a diversidade, ela perde a unidade. O
comunitarismo é uma forma degenerada da diversidade necessária, é uma forma
fechada para uma demanda justa de se manter ligado a suas origens. Infelizmente,
hoje, perdemos a noção de unidade. Quando as comunidades se tornam
importantes, elas esquecem a unidade nacional na qual se encontram.
Estamos numa época de
interdependência. Concordo que as nações devam seguir soberanas, mas
com soberania relativa, e não absoluta. Desde que haja um problema que
diga respeito a toda a espécie humana, as nações deveriam subordinar seus
interesses ao interesse coletivo.
O senhor já disse algumas
vezes que o sul global, como chama, representa um pensamento anti-hegemônico.
Ainda é o caso com a globalização?
Edgar Morin: A
globalização é a hegemonia dos valores do norte sobre o sul, é a continuação,
por meios econômicos, da colonização, que era política. O sul deve
resguardar o que conseguir — como os modos de viver — como resistência à
hiperforça da técnica, do lucro, do sucesso, e deve conservar a noção de poesia
na vida, essa é a missão do sul.
Como fazer isso em países
pobres, de democracias instáveis, países menos expressivos no jogo político
global?
Edgar Morin: Não há uma
receita. É preciso resguardar o que há de resistência:
* valores
universalistas,
* humanistas
e
* planetários,
guardá-los enquanto preparamos tempos melhores.
Estamos num movimento perpétuo no qual há um conflito entre
as forças de união,
de abertura, de democracia, fraternidade, e
as forças de luta, de desprezo, de degradação
e de morte.
Esse conflito, como dizia Freud,
entre Eros e Tânatos, é um conflito que existe desde o começo do
universo e vai continuar. A questão é saber de que lado se está. Essa é
a única questão, o futuro ninguém conhece.
Como pensar modos de
combater as fake news?
Edgar Morin: As fake
news não têm nada de novo, sempre houve notícias falsas. Durante uma
dezena de anos a União Soviética dava informações falsas sobre o que acontecia
com ela, a China de Mao Tse-tung também, o sistema hitlerista escondeu os
campos de concentração. As mentiras políticas e as notícias falsas não são
novas, são banais, o novo é a internet, a difusão de notícias que podem vir
de qualquer lugar.
O problema é que, se quisermos
informar o mundo, precisamos de pluralidade de fontes de informação e
pluralidade de opiniões. Precisamos de uma imprensa diversa, com opiniões
diversas, para que possamos fazer escolhas.
Quando a imprensa perde sua diversidade, quando ela é
controlada pela força do dinheiro, há uma diminuição do conhecimento e da
informação.

O senhor sempre menciona o
deus espinosano, que é intrínseco ao mundo, e não exterior a ele. Mesmo com
toda a técnica e ciência que temos, as pessoas seguem com suas crenças num deus
transcendental...
Edgar Morin: Todas as
sociedades, desde a pré-história, têm uma religião, uma crença na vida após a
morte. A religião traz pela reza um sentimento que dá calma. Marx tinha razão
ao dizer que a religião é o suspiro da criatura infeliz.
Com a morte do comunismo, houve um
retorno das religiões. Temos o retorno dos evangélicos aqui no Brasil, do
islamismo. Nos países árabes houve movimentos laicos enormes, mas tudo deu
errado. A religião ganha onde a democracia falha, a revolução fracassa, o mundo
moderno falha. A religião triunfa no fracasso da modernidade. [Particularmente, não vejo essa questão de um modo tão
maniqueísta e simplista, assim! A religião cumpre um importante e fundamental
papel, mas tem, ao mesmo tempo, uma tendência a aliar-se ao poder do momento, a
ser a mantenedora do status quo].
Como aceitar a incerteza e
lidar com a angústia ou até mesmo o cinismo que advém disso?
Edgar Morin: Mais do que
sucumbir à incerteza, que nos dá angústia e medo, e que nos leva a buscar
culpados e bodes expiatórios, é preciso enfrentar a incerteza com coragem,
com ideias humanistas de fraternidade. As ciências acharam formas de
encontrar certezas em incertezas. Eu digo sempre que a vida é uma navegação
num oceano de incertezas passando por arquipélagos de certezas. Assim é a
vida, não se pode mascarar a realidade.
Às vésperas de completar 98
anos, o que o estimula a continuar escrevendo e dando conferências?
Edgar Morin: Há um
demônio em mim, uma força no meu interior de intensa curiosidade. Eu conservei
uma curiosidade da infância — eu tive um grande choque aos dez anos com a morte
da minha mãe, eu envelheci muito, mas também isso me bloqueou na infância com a
curiosidade e o amor pelo jogo. A sorte do mundo é cada vez mais incerta,
não sabemos aonde vamos, então não podemos não estar preocupados com o futuro
da espécie humana sobre a Terra.
Ainda há lugar para
utopias?
Edgar Morin: Há duas
utopias. A má e a boa. A má é sonhar com uma sociedade perfeita, totalmente
harmonizada; isso não é possível. Mesmo numa sociedade melhor, sempre haverá
conflitos. A perfeição não está no universo, não está na humanidade.
A boa utopia é sonhar com coisas impossíveis, mas que
são, de certa forma, possíveis intelectualmente.
Por exemplo, hoje há muita fome,
mas poderíamos alimentar toda a humanidade, basta desenvolver as culturas, a
agricultura orgânica. É possível criar uma sociedade nova com a paz sobre a
Terra, podemos pensar no fim dos conflitos entre nações; essa é uma boa
utopia. Um mundo que não seja totalmente dominado pelo poder econômico e
que seja mais fraterno — é preciso ainda ter utopias.
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