Alerta: jovens bebendo muito!
Bem pior que videogame
Adriana Dias Lopes
Os adolescentes brasileiros bebem cada
vez mais cedo,
e em muitos casos com o aval dos pais.
Pela primeira vez, o consumo é maior
entre as meninas
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O COMEÇO COM UMA BEBIDA TIPO ICE, QUE PARECE REFRIGERANTE “Bebo desde os 13 anos, em geral na casa dos meus amigos. Minha mãe foi a primeira pessoa a me oferecer álcool. Ela preferiu que eu aprendesse a beber com ela do que fora de casa. Comecei com aquela bebida tipo ice, docinha, que parece refrigerante. Não achei ruim. Hoje gosto de bebida com fruta. Minha mãe sabe de tudo. É muito melhor do que fazer escondido. Eu me acho responsável. Tenho um irmão de 14 anos que não bebe. Ele nem curte sair. Ele é um pouco infantil ainda.” T.A., de 15 anos, estudante |
Faltam poucos minutos para tocar o
tão esperado sinal da última aula de sexta-feira numa escola de classe média
alta da Zona Oeste de São Paulo. A aluna de 15 anos cria um grupo de
WhatsApp com dezenove colegas da classe, com o nome “Social da Pê hoje à
noite”. Pê é o apelido pelo qual os amigos a chamam desde a infância.
“Social” é o nome do evento que ela vai organizar em casa. Em menos de quinze
minutos, seis garotas e quatro garotos confirmam a presença. O esquema é
definido on-line: “10 reais para cada um”. A vaquinha é coletada para o
“sucão”, uma mistura de vodca e suco em pó adocicado (metade de um, metade
do outro, na receita mais comum), que ela vai preparar e servir na jarra de
água.
Com o valor arrecadado, Pê compra
quatro garrafas de vodca, dois saquinhos de suco de laranja em pó e pacotes de
salgadinho. Dois dos vasilhames são usados na mistura — os outros dois ficam na
mesa, à disposição para quem quiser reabastecer o copo. Às 19 horas, os amigos
começam a chegar. Os pais de Pê estão jantando fora. Alguns levam
garrafinhas de cachaça adocicada. Uns conversam, outros namoram, dançam sob
luzinhas coloridas. Todos bebem. Quatro horas depois, começam a ligar
para os pais para ir pegá-los na portaria do prédio.
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A FACILIDADE DO RG FALSIFICADO “Minha primeira vez foi na festa junina do prédio, eu tinha 11 anos. Minha amiga, um ano mais velha, pegou uma vodca doce na casa dos pais. Depois vieram as férias e bebi de novo. Gostei. No começo a gente bebe para ficar louco. Hoje bebo menos, mas bebidas mais amargas, como uma cerveja. Dá para beber na maioria dos lugares. Todo mundo tem RG falso. Quando eu tinha 14 anos, cheguei meio grogue em casa e minha mãe descobriu que eu gostava de beber. Conversamos, e hoje ela sabe.” A.H., de 15 anos, estudante |
Cenas como essa se multiplicam pelo
Brasil. Ao longo de duas semanas, a reportagem de VEJA conversou com dezenas de
jovens em três estados do país, São Paulo, Rio de Janeiro e Acre, acompanhou-os
nas ruas, à noite, em bares e em ambientes domésticos. A constatação: debaixo
do guarda-chuva paterno, supostamente protegido e saudável, ou fora dele, os
adolescentes estão bebendo muito precocemente, e como adultos. É problema
recorrente, que atravessa gerações e nunca saiu do olhar das entidades de
controle da saúde e de vigilância policial, mas que agora ganha as cores fortes
de levantamentos minuciosos.
Estudo realizado pelo Centro de
Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), com base em dados do IBGE, mostrou
que 25,1% das garotas com idade entre 13 e 15 anos bebem ao menos uma dose
por mês — há uma década, eram 20%. Entre os garotos, o índice é de 22,5%
— dez anos atrás, batia nos 28%. A mudança ilumina um novíssimo problema: elas bebem mais do que eles. Com uma agravante, a
título de comparação: os índices nacionais ultrapassaram os dos Estados
Unidos. Entre os americanos com idade até 15 anos, o consumo não passa de
10% para ambos os sexos, de acordo com o Departamento de Saúde e Serviços
Humanos dos Estados Unidos.
“Tomei meu primeiro gole com 11
anos de idade, na festa junina dentro do meu prédio. Uma amiga minha desceu com
uma vodca docinha que ela pegou na casa dos pais. Gostei de cara do sabor e da
sensação”, diz A.H., de 15 anos, de São Paulo. “Aos 15 já bebia com os amigos
da escola, sempre na casa de alguém da turma. Fazíamos isso pelo menos uma vez
por semana. Rolava todo tipo de bebida”, afirma S.D., de 17 anos, do
Acre (leia outros depoimentos ao longo desta reportagem).
A precocidade na idade é espantosa.
O estudo do Cisa revelou que a meninada começa a
beber aos 12 anos e meio. Os riscos para a saúde são imensos. Os
órgãos ainda estão em formação, em especial o cérebro, a caminho da organização
neuronal. “Expor o cérebro do adolescente à bebida alcoólica faz com que ele
supervalorize o prazer químico do álcool”, diz Ludhmila Abrahão Hajjar,
intensivista do Hospital Sírio-Libanês e do Instituto do Coração, em São Paulo.
Trabalhos científicos mostram que uma pessoa que passa a beber regularmente
antes dos 15 anos corre risco cinco vezes maior de se tornar dependente em
relação a quem começa a beber aos 21 anos. A vulnerabilidade
feminina, nesse aspecto, é notória. O organismo da mulher tem
quantidades menores de enzimas responsáveis pela metabolização do álcool, o que
faz com que a substância demore mais tempo para ser eliminada.
Invariavelmente, a porta de
entrada para o consumo de álcool são as bebidas doces — e baratas.
Garrafas de 900 mililitros de vodca com sabor de maracujá, frutas vermelhas,
uva, limão têm 13,5% de teor alcoólico e custam 15 reais, em média. A cachaça
adocicada com mel de 500 mililitros (também com 13,5% de álcool) é vendida a
menos de 4 reais. “As bebidas alcoólicas adocicadas
e com gás são naturalmente palatáveis aos jovens, e elas estão sendo
lançadas em profusão”, diz Luiza Amorim, gerente de comunicação da ONG
internacional Vital Strategies, especializada em criar estratégias para
desenvolver políticas de saúde pública. A explicação é fisiológica. O gosto
amargo é sentido mais intensamente por quem é jovem. Isso acontece porque na
infância e na adolescência a língua possui uma quantidade enorme de glândulas
responsáveis pelo gosto. Nessa fase somos mais sensíveis ao amargo, portanto. É
por volta dos 20 anos que o paladar está preparado para apreciar todos os
sabores. Traduzindo para o universo alcoólico: somente na idade adulta o
paladar absorve com mais gosto o amargo da cerveja, do vinho e do destilado sem
a adição de açúcar.
O descaso e a inépcia parecem
conspirar a favor da epidemia de consumo de álcool entre os jovens. Apesar de
a legislação proibir a venda, faz-se de conta que o veto não existe. O eleito
na turma para comprar qualquer tipo de marca e produto alcoólico é o “cara
com cara de mais velho”. Mas, se o lugar exigir um documento, o adolescente
mostra um RG falsificado. O valor de um documento adulterado vai de 150 a
300 reais. Quanto mais alto o preço, mais aprimorada é a falsificação.
O estudo do Cisa revelou outro dado
impressionante: há adolescentes que começam a beber com o aval da família. “Minha
mãe foi a primeira pessoa a me oferecer álcool. Ela preferiu que eu aprendesse
a beber com ela do que fora de casa”, diz T.A., de 15 anos. Os médicos
refutam a ideia veementemente. Em 2012, o Hospital Albert Einstein, em São
Paulo, uma das maiores referências em saúde do país, inaugurou um programa
pioneiro nos cuidados de adolescentes: o paciente com idade até 16 anos que
dava entrada pelo pronto-socorro por causa de álcool passava por um protocolo
especial. Além de o jovem receber atendimento clínico, ele e os pais eram
orientados sobre os riscos do consumo de bebida na adolescência. O serviço
fechou quatro anos depois. O motivo: a maioria dos pais refutou o programa — ou
porque eles não queriam falar do assunto ou porque negavam o problema do filho.
Diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo,
especialista no tema: “Não há uma causa para o aumento do consumo de álcool
entre os adolescentes. Há várias. Pais omissos, venda facilitada de
bebidas e, no caso das meninas, para piorar, a ilusão de que, se
beberem, estarão se equiparando socialmente aos homens”. Parece inofensivo,
mas trata-se de um sinal de alerta. Se muitos adultos não conseguem
controlar o exagero e os efeitos nocivos do álcool, a situação fica ainda mais
perigosa com crianças.
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