Solenidade de S. Pedro e S. Paulo, Apóstolos – Homilia
Primeira leitura: Atos 12,1-11
Segunda leitura: 2 Timóteo
4,6-8.17-18
Evangelho: Lucas 9,18-24
Para ler as leituras, clique aqui.
TELMO JOSÉ AMARAL DE FIGUEIREDO
Padre
da Diocese de Jales (SP) e Biblista
SÃO PEDRO Estátua postada diante da Basílica de São Pedro, no Vaticano |
Dois apóstolos, dois sinais de contradição
Neste
13º domingo do Tempo Comum, somos convidados a celebrar o martírio de dois
grandes discípulos de Jesus: Pedro & Paulo. Sem nos esquecermos que este
domingo é o «Dia do Papa», ocasião pela qual se realiza a coleta denominada «Óbolo
de São Pedro».
Interessante
essa associação! Afinal, estamos diante de duas pessoas bem diferentes entre
si.
Pedro
tinha um barco com outros homens ao seu serviço. Era o que, em termos atuais,
poderíamos chamar de um microempresário do ramo da pesca, homem rude, simples,
provavelmente analfabeto (At 4,13), habituado ao serviço braçal, ao esforço físico.
Porém, um ser humano «habituado a reparar nos ventos, nas nuvens, nas correntes
do lago e nos pequenos pormenores da ondulação, pois dessa qualidade dependia o
seu sustento e por vezes a sua própria vida e a dos seus homens» (Fonte: http://www.estudos-biblicos.net/pedro.html).
Portanto, apesar de simples, era um homem observador, talhado a tomar decisões
rápidas, fisicamente robusto, bom nadador (cf. Jo 21,7).
Paulo,
segundo suas próprias palavras: «Eu sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia,
mas criado aqui nesta cidade [Jerusalém]. Como discípulo de Gamaliel,
fui instruído em todo o rigor da Lei de nossos antepassados e tornei-me zeloso
da causa de Deus, como vós o sois hoje. Persegui até à morte os adeptos deste
Caminho, prendendo homens e mulheres e lançando-os na prisão. Disso são minhas
testemunhas o sumo sacerdote e todo o conselho dos anciãos. Eles deram-me
cartas de recomendação para os irmãos de Damasco. Fui para lá, a fim de prender
todos os adeptos que aí se encontrassem e trazê-los para Jerusalém, a fim de
serem castigados» (At 22,3-5). Portanto, Paulo era uma pessoa instruída, falava
várias línguas (aramaico e grego, provavelmente, o latim) lia em hebraico, com
certeza. Homem com o dom da oratória (cf. At 13,13-43: pregação em Antioquia da
Pisídia, onde profere uma visão global da história do Povo de Deus).
Pedro
tinha mais familiaridade com pessoas de origem judia pela facilidade de
comunicação e comunhão com os hábitos semelhantes (cf. At 8,14). No entanto,
não se furtava a pregar e anunciar o Cristo aos pagãos (exemplo: At 10 – na
casa de Cornélio; cf. At 12,18).
Paulo,
primeiramente provou converter os judeus ao cristianismo, mas como isso foi se
tornando difícil e várias resistências foram surgindo, optou por priorizar a
evangelização dos pagãos (cf. At 13,45-46). Realizou, ao menos, três grandes
viagens missionárias (a datação é incerta, apenas como referência, tomei a
cronologia da Bíblia de Jerusalém):
1ª. Anos 40-41;
narrativa em At 13,1-14,28: dá-se uma abertura aos pagãos;
2ª. Anos 47-51;
narrativa em At 15,36-18,22: o Evangelho entra na Europa e
3ª. Anos
52-57; narrativa em At 18,23-21,26: a Ásia Menor confirmada no
cristianismo.
Houve
uma quarta e derradeira viagem, que foi aquela de sua prisão (mais ou
menos nos anos 60 a 64/67 – cf. At 27,1-28,16).
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SÃO PAULO Estátua postada diante da Basílica de São Pedro, no Vaticano |
Dirijamo-nos
para as leituras deste domingo. Uma primeira constatação: tanto a primeira
(At 12,1-11) como a segunda (2Tm 4,6-8.17-18) têm o cenário do cárcere
como contexto de fundo. Pedro encontra-se aprisionado em Jerusalém, segundo
Atos, por ordem de Agripa I, filho mais novo de Herodes, o Grande. Paulo,
quando escreve a Timóteo, está em Roma, também em prisão domiciliar, aguardando
seu julgamento definitivo. Portanto, ambos, Pedro e Paulo, sofrem as consequências
de uma vida devotada à pregação do Evangelho de Jesus Cristo.
No
entanto, aquilo que nos é narrado nessas duas primeiras leituras contrasta
grandemente. Vejamos.
Na
prisão, Pedro está adormentado (At 12,12,6), condição daquele que não
está vigilante, como já havia ocorrido com ele no Getsêmani (cf. Lc 22,39-46
// Mt 26,36-46). Ao encontrar Pedro e os filhos de Zebedeu dormindo, Jesus lhes diz:
«Não fostes capazes de ficar vigiando uma só hora comigo? Vigiai e
orai, para não cairdes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é
fraca» (Mt 26,40-41). Essa era, também, a condição da Igreja naquele
momento. Uma Igreja adormecida, acorrentada, fechada em seus temores e
limitações. Em sua fraqueza, Pedro, mesmo após ter sido despertado pelo anjo (=
Deus), pensa que tudo aquilo que está se passando com ele fosse uma visão, um
sonho (At 12,9). O maior problema não é ser perseguido por causa do Cristo, mas
não saber discernir a presença de Deus em nossa vida!
Os
comandos que o anjo dá a Pedro são todos no sentido de colocá-lo em posição
de saída, de missão:
* «Levanta-te
depressa!»;
* «Coloca o
cinto e calça tuas sandálias!»;
* «Põe tua
capa e vem comigo!» (At 12,7.8).
Quando
Pedro «cai em si», percebe que Deus estava o tempo todo com ele (At 12,11)! A
grande tentação da Igreja é, justamente, não se dar conta de que Deus jamais a
abandona! Não se dar conta que Deus jamais está do lado dos poderosos!
A
Igreja, os seguidores (= discípulos) que Cristo quer devem estar
vigilantes, atentos aos sinais dos tempos, preparados para sair de suas prisões
interiores, de sua zona de conforto e segurança!
Já
Paulo, em Roma, faz um balanço geral de sua vida, de sua atuação como
missionário de Cristo e constata os êxitos que teve:
* «Combati o
bom combate»;
* «completei
a corrida» (= a minha missão);
* «guardei a
fé»;
* «o Senhor
esteve ao meu lado e me deu forças»;
* «Ele fez
com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente...»;
* «... e
ouvida por todas as nações»;
* «e eu fui
libertado da boca do leão» (= venci minhas perseguições) – 2Tm 4,7.17).
As
palavras de Paulo ecoam confiança, segurança e a sensação da missão cumprida.
Ele não é um convencido! Ele não é um orgulhoso! Ele não é um pretensioso! Mas
alguém que, chegando ao final de sua vida, se dá conta que suas batalhas não
foram em vão.
Isso,
somente, acontecerá àqueles que não se intimidarem diante do mundo, diante dos homens,
diante dos inimigos do Evangelho. Como muito bem nos admoesta Jesus: «Não
tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas são incapazes de matar a alma!
Pelo contrário, temei Aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!»
(Mt 10,28).
Nesses
tempos de falsos messias, de manipulação descarada da fé do povo, do uso da
religiosidade pelos poderosos, do crescimento do egoísmo, da aversão ao
diferente, do ódio e da vingança; Pedro e Paulo são figuras que nos ajudam a
discernir o bem do mal!
Esses
apóstolos nos ajudam a não nos intimidar diante das adversidades e perseguições
de que são vítimas todos aqueles que preferem ser fiéis a Deus do que aos seres
humanos! Como bem se expressou Pedro na segunda vez que foi obrigado a
comparecer diante do Sinédrio: «É preciso obedecer a Deus antes que aos homens»
(At 5,29).
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