Solenidade da Santíssima Trindade – Ano C – Homilia
Evangelho: João 16,12-15
Naquele
tempo, disse Jesus a seus discípulos:
12 «Tenho ainda muitas
coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora.
13 Quando, porém, vier o
Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por
si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos
anunciará.
14 Ele me glorificará, porque
receberá do que é meu e vo-lo anunciará.
15 Tudo o que o Pai
possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu.»
JOSÉ MARÍA CASTILLO
Teólogo
espanhol
Deus é “o Transcendente”
Frequentemente, acontece que as pessoas de Igreja não levem
em conta algo que é inteiramente fundamental. A saber, que Deus é o
Transcendente. Ou seja, que não está ao nosso alcance. Nem o
conhecemos. Nem podemos conhecê-lo.
É isso que os teólogos repetiram insistentemente quando
disseram que «Deus é sempre mais» (latim: Deus semper maior) de
quanto nós, seres humanos, podemos pensar sobre Ele. Essa expressão é uma
fórmula que busca expressar nossa incapacidade para alcançar o conhecimento do
ser mesmo de Deus, ou seja, de como é Deus em si.
Isso não é possível a nós, os mortais. O
problema com o qual se deparou a teologia cristã foi o problema de sua própria
incoerência. Porque, de um lado, temos afirmado que Deus é o que nos transcende
(= ultrapassa). Porém, ao mesmo tempo, pusemo-nos a explicá-lo como se o
conhecêssemos. Quem sabe, nisso se manifestou o nosso anseio de encontrar o que
nunca, nesta vida, poderemos conhecer.
É verdade que, no Novo Testamento, Deus se revela como Pai,
como Jesus o Filho, como Espírito. Disso, a teologia deduziu que
em Deus há três pessoas realmente distintas, que, no entanto, são um mesmo e
único Deus. No fundo, não é questão de números, mas o desejo e a necessidade
de intercomunicação e de doação mútua, que os seres humanos têm e que
queremos ver em Deus, como modelo exemplar de nossa mútua doação.
Karl Rahner (1904-1984: teólogo jesuíta
alemão) falou, ao explicar este complicado assunto, da Trindade imanente
(aquela que não podemos alcançar) e da Trindade econômica (aquela que
está ao nosso alcance porque nela encontramos o modelo de entrega mútua entre
nós).
Não se trata, neste dia, de entender o que jamais poderemos
compreender. Trata-se de ver, na doação, na igualdade, na comunicação
das pessoas divinas, o modelo exemplar do que deve ser nossa convivência.
Viver para os demais. Uma vida que é dom e comunicação. Jamais solidão, nunca
isolamento, sempre abertura e claridade. Fé em Deus tornada ética daquilo que
existe para os outros.
JOSÉ ANTONIO PAGOLA
Biblista
e teólogo espanhol
Como viver a Trindade?
O PAI é o mistério
insondável de amor que dá origem a tudo o que existe. Ele é a fonte oculta
que não tem origem e da qual nasce todo o bem, o belo e misericordioso.
N’Ele começa tudo o que é vida e amor. O Pai não sabe senão dar-se e dar
gratuitamente e sem condições. Ele é assim. Ele está conduzindo tudo à vitória
definitiva da VIDA.
Crer em um Deus Pai é saber-se
acolhido. Deus aceita-me como sou. Somente quer minha vida e minha
felicidade eterna. Posso viver com confiança e sem temor. Não conhecerei a
experiência mais terrível e insuportável para um ser humano: sentir-se
rejeitado por todos, não ser aceito por ninguém. Deus é meu Pai. Jamais
serei um estranho para Deus, mas um filho.
O FILHO existe
recebendo-se totalmente do Pai. Ele é assim. Pura acolhida, resposta
perfeita ao Pai, reflexo de seu amor. Por isso, não se apropria de nada.
Recebe a vida como presente e a difunde sobre nós e a criação inteira. O
Filho é nosso irmão mais velho, aquele que nos revela o rosto verdadeiro do Pai
e nos ensina o caminho até Ele.
Crer em um Deus Filho é saber-se
acompanhado. Não estamos sozinhos diante de Deus, perdidos e desorientados,
sem saber como situar-nos perante o seu mistério. O Filho de Deus feito
homem ensina-nos a viver acolhendo e difundindo o amor do Pai. Enraizados
n’Ele não conheceremos a experiência destruidora da solidão. Quem não sabe
receber amor, não sabe o que é viver. Quem não sabe dar amor, morre-se.
O ESPÍRITO SANTO é a comunhão do Pai e do Filho, abraço
recíproco, amor compartilhado, compenetração mútua. Ele é assim.
Transbordamento do amor, força criadora e renovadora, energia amorosa que tudo
transforma.
Crer em Deus Espírito Santo é
saber-se habitado pelo amor. Não estamos vazios e sem núcleo interior,
indefesos diante de nosso próprio egoísmo. Habita-nos o dinamismo do amor.
O Espírito nos mantém em comunhão com o Pai e com o Filho. Ele nos consola,
nos renova e mantém vivo em nós o desejo de Deus reinando em um
mundo mais humano e fraterno.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de
Figueiredo.
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