De heróis a vilões?!
COMO E POR QUE O INTERCEPT ESTÁ
PUBLICANDO CHATS PRIVADOS SOBRE A
LAVA JATO E SERGIO MORO
Glenn Greenwald, Betsy Reed, Leandro Demori
Série de reportagens mostra
comportamentos antiéticos
e transgressões que o Brasil e o mundo
têm o direito de
conhecer
Intercept Brasil publicou
hoje [domingo, 9/junho/2019] três reportagens explosivas mostrando
discussões internas e atitudes altamente controversas, politizadas e legalmente
duvidosas da força-tarefa da Lava Jato, coordenada pelo procurador renomado
Deltan Dallagnol, em colaboração com o atual ministro da Justiça, Sergio
Moro, celebrado a nível mundial.
Produzidas a partir de arquivos
enormes e inéditos – incluindo mensagens privadas, gravações em áudio,
vídeos, fotos, documentos judiciais e outros itens – enviados por uma fonte
anônima, as três reportagens revelam comportamentos antiéticos e
transgressões que o Brasil e o mundo têm o direito de conhecer.
O material publicado, hoje, no
Brasil também foi resumido em duas reportagens em inglês publicadas no Intercept
(clique aqui),
bem como essa nota dos editores do The Intercept e do The Intercept
Brasil.
Esse é apenas o começo do que
pretendemos tornar uma investigação jornalística contínua das ações de Moro,
do procurador Deltan Dallagnol e da força-tarefa da Lava Jato –
além da conduta de inúmeros indivíduos que ainda detêm um enorme poder político
e econômico dentro e fora do Brasil.
A importância dessas revelações se explica
pelas consequências incomparáveis das ações da Lava Jato em todos esses anos
de investigação. Esse escândalo generalizado envolve diversos oligarcas,
lideranças políticas, os últimos presidentes e até mesmo líderes internacionais
acusados de corrupção.
O mais relevante: a Lava Jato
foi a saga investigativa que levou à prisão o ex-presidente Lula no último ano.
Uma vez sentenciado por Sergio Moro, sua condenação foi rapidamente
confirmada em segunda instância, o tornando inelegível no momento em que
todas as pesquisas mostravam que Lula – que terminou o segundo mandato,
em 2010, com 87% de aprovação – liderava a corrida eleitoral de 2018.
Sua exclusão da eleição, baseada na decisão de Moro, foi uma peça-chave para
abrir um caminho para a vitória de Bolsonaro. A importância dessa reportagem
aumentou ainda mais depois da nomeação de Moro ao ministério da Justiça.
Moro e os
procuradores da Lava Jato são figuras altamente controversas aqui e no mundo – tidos
por muitos como heróis anticorrupção e acusados por tantos outros de serem
ideólogos clandestinos de direita, disfarçados como homens da lei apolíticos.
Seus críticos têm insistido que eles
exploraram e abusaram de seus poderes na justiça com o objetivo
político de evitar que Lula retornasse à presidência e destruir o PT.
Moro e os procuradores têm negado, com a mesma veemência, qualquer aliança ou
propósito político, dizendo que estão apenas tentando livrar o Brasil da
corrupção.
![]() |
DELTAN DALLAGNOL Procurador da Justiça Federal em Curitiba, membro a força tarefa da Lava Jato Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil |
Mas, até agora, os procuradores da
Lava Jato e Moro têm realizado parte de seu trabalho em segredo, impedindo o
público de avaliar a validade das acusações contra eles. É isso que torna este
acervo tão valioso do ponto de vista jornalístico: pela primeira vez, o
público vai tomar conhecimento do que esses juízes e procuradores estavam
dizendo e fazendo enquanto pensavam que ninguém estava ouvindo.
As reportagens de hoje mostram,
entre outros elementos, que os procuradores da Lava Jato falavam abertamente
sobre seu desejo de impedir a vitória eleitoral do PT e tomaram atitudes
para atingir esse objetivo; e que o juiz Sergio Moro colaborou de forma
secreta e antiética com os procuradores da operação para ajudar a montar a
acusação contra Lula. Tudo isso apesar das sérias dúvidas internas sobre as
provas que fundamentaram essas acusações e enquanto o juiz continuava a
fingir ser o árbitro neutro neste jogo.
O único papel do Intercept
Brasil na obtenção desse material foi seu recebimento por meio de nossa
fonte, que nos contatou há diversas semanas (bem antes da notícia da invasão do
celular do ministro Moro, divulgada nesta semana, na qual o ministro afirmou
que não houve “captação de conteúdo”) e nos informou de que já havia obtido
todas as informações e estava ansiosa para repassá-las a jornalistas.
Informar à sociedade questões de
interesse público e expor transgressões foram os princípios que nos guiaram
durante essa investigação, e continuarão sendo conforme continuarmos a noticiar
a enorme quantidade de dados a que tivemos acesso.
O enorme volume do acervo, assim
como o fato de que vários documentos incluem conversas privadas entre agentes
públicos, nos obriga a tomar decisões jornalísticas sobre que informações
deveriam ser noticiadas e publicadas e quais deveriam permanecer em sigilo.
Ao fazer esses julgamentos,
empregamos o padrão usado por jornalistas em democracias ao redor do mundo: as
informações que revelam transgressões ou engodos por parte dos poderosos devem
ser noticiadas, mas as que são puramente privadas e infringiriam o direito
legítimo à privacidade ou outros valores sociais devem ser preservadas.
A bem da verdade, ao produzir
reportagens a partir desses arquivos, somos guiados pela mesma argumentação que
levou boa parte da sociedade brasileira – aí incluídos alguns jornalistas, comentaristas
políticos e ativistas – a aplaudir a publicidade determinada pelo então juiz
Moro das conversas telefônicas privadas entre a presidente Dilma Rousseff e seu
antecessor Luiz Inácio Lula da Silva (em que discutiam a possibilidade do
ex-presidente se tornar ministro da Casa Civil), logo reproduzidas por inúmeros
veículos de mídia. A divulgação dessas ligações privadas foi crucial para
virar a opinião do público contra o PT, ajudando a preparar o terreno para o impeachment
de Dilma em 2016 e a prisão de Lula em 2018. O princípio invocado para
justificar essa divulgação foi o mesmo a que estamos aderindo em nossas
reportagens sobre esse acervo: o de que uma democracia
é mais saudável quando ações de relevância levadas a cabo em segredo por
figuras políticas poderosas são reveladas ao público.
Mas a divulgação feita por Moro e
diversos veículos da imprensa dos diálogos privados entre Lula e Dilma incluíam
não apenas revelações de interesse público, mas também comunicações privadas de
Lula sem qualquer relevância para a sociedade – o que levou muitas pessoas a
argumentarem que a divulgação tinha o propósito de constranger pessoalmente o
ex-presidente. Ao contrário deles, o Intercept decidiu manter reservada
qualquer comunicação ou informação relacionada a Moro, Dallagnol e outros
indivíduos que seja de natureza puramente privada e, portanto, desprovida
de real interesse público.
Nós tomamos medidas para
garantir a segurança deste acervo fora do Brasil, para que vários
jornalistas possam acessá-lo, assegurando que nenhuma autoridade de qualquer
país tenha a capacidade de impedir a publicação dessas informações.
Ao contrário do que tem como regra,
o Intercept não solicitou comentários de procuradores e outros
envolvidos nas reportagens para evitar que eles atuassem para impedir sua
publicação e porque os documentos falam por si.
Entramos em contato com as partes mencionadas imediatamente após publicarmos as
matérias, que atualizaremos com os comentários assim que forem recebidos.
Tendo em vista o imenso poder dos
envolvidos e o grau de sigilo com que eles operam– até agora –, a transparência
é crucial para que o Brasil tenha um entendimento claro do que eles realmente
fizeram. A liberdade de imprensa existe para jogar luz sobre aquilo que as
figuras mais poderosas de nossa sociedade fazem às sombras.
Links
para acessar as matérias publicadas pelo
site
Intercept:
1) “MAFIOSOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”
Exclusivo: Procuradores da
Lava Jato tramaram em segredo para impedir entrevista de Lula antes das
eleições por medo de que ajudasse a “eleger o Haddad”:
Clique aqui
2) “ATÉ
AGORA TENHO RECEIO”
Exclusivo: Deltan Dallagnol
duvidava das provas contra Lula e de propina da Petrobras horas antes da
denúncia do triplex:
Clique aqui
3) “NÃO
É MUITO TEMPO SEM OPERAÇÃO?”
Exclusivo: chats privados
revelam colaboração proibida de Sergio Moro com Deltan Dallagnol na Lava Jato:
Clique aqui
Leia todo esse material com
muita atenção!
Depois, tire suas próprias
conclusões sobre aquilo que ocorreu no Brasil nesses últimos tempos.
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